Quem disse que teologia não importa?


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Lamentavelmente uma das características mais marcantes da igreja evangélica brasileira é a sua aversão a uma instrução séria e sistemática nas Escrituras Sagradas. O senso comum, conforme já pude testemunhar várias vezes, prefere “experiências com Deus” como se elas e a instrução teológica fossem rivais. Pior do que isso, há quem ainda defenda a ideia de que a instrução teológica acaba por “esfriar” ou tornar o crente “racional”, até um incrédulo (não nego que há seminários que contribuem para isso, mas isso é assunto para outro artigo).

Em geral, as pessoas sustentam essa visão equivocada da vida cristã querem ver ou escutar as paredes tremendo enquanto oram, sentir um abalo emocional enquanto cantam ou ter visões espirituais que as orientem sobre decisões que precisam tomar. Na verdade preferem um atalho à sabedoria que todos devem buscar (Tg 1:5-6).

Desenvolver o gosto por uma boa teologia, pensar as questões da nossa existência sob a ótica cristã e ter uma resposta bíblica aos desafios que a vida nos impõe sempre foi o caminho trilhado por quem aprendeu a ter um relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus. E uma boa teologia é como aquela ferramenta crucial que conserta a peça escondida que impede o funcionamento de um carro. Isto é, ela poupa-nos de desperdiçar nosso tempo ou de empreender um esforço inútil porque ela foi feita para aquele conserto. Uma boa teologia nos ajuda a escolher nosso cônjuge, a vocação profissional, como lidaremos com a perda de um ente querido e até em qual a igreja nossos filhos crescerão.

Um exemplo bíblico do auxílio que ela pode oferecer está no Salmo 139. Nesse salmo, Davi descreve em forma de louvor três atributos incomunicáveis do Ser de Deus – onisciência, onipresença e onipotência. Por atributos incomunicáveis, os teólogos se referem aos atributos que somente Deus possui, que ele não compartilhou com o homem. Os atributos de Deus são geralmente estudados na disciplina de Teologia Sistemática, uma das menos apreciadas pelos seminaristas. As queixas comuns dos estudantes é que os assuntos que ela aborda têm pouca relação com a vida prática, são de difícil compreensão do público “leigo” e causam mais confusão do que convicção nas pessoas.

Entretanto, esse embaraço e desânimo com os atributos de Deus não parecem ter afetado o rei Davi. Ele não somente transforma esses atributos em uma canção, mas vê neles uma possibilidade real de ter uma comunhão com Deus mais íntima e verdadeira, que ofereça contornos práticos em sua vida. Davi canta um dos tópicos de Teologia Sistemática e se enche de esperança por isso.

Refletindo a onisciência de Deus, Davi se dá conta das implicações desse atributo divino em sua vida e em seu relacionamento com Ele. O Senhor sabe tudo imediata e instantaneamente, não precisa consultar livros ou analisar circunstâncias. Todo o coração humano lhe é perfeitamente conhecido. Enquanto nossa capacidade de acumular informação é limitadíssima, Deus sabe de tudo o que acontece em todo o universo.  Ele conhece todas as estrelas por seu nome. Então, Davi compreende que nada sobre sua própria vida está oculto aos olhos de Deus, estando o Senhor “preso” a ele em cada passo, entendendo tudo o que se passa em sua vida (v.5). Deus não pode ser enganado, ludibriado. Resta-nos somente a sinceridade de coração e a confissão quando vamos a Ele em oração.

Sendo onipresente, Deus está em todo o lugar e em todo momento. Ele é a primeira testemunha de qualquer fato. Davi conclui que é inútil levar uma vida sem considerar a presença de Deus, quer nos auxiliando quer nos acusando. Não há lugar sem Deus. Mesmo nas tribos isoladas e nos lugares mais remotos Ele se faz presente. Até no inferno. Dando-se conta disso, Davi vê motivo para ter esperança. “tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (v.10). A onipresença de Deus é esperança em meio à dor, refúgio nas tribulações e socorro nos dias maus.

Davi também alimenta sua alma de esperança refletindo sobre o poder de Deus. E nada melhor do que contemplar as maravilhas da criação, por excelência, um cartão de visitas (Jó 37-39; Sl 19). Os céus, o firmamento e a terra tornam-se palco para o salmista apreciar a grandeza do El-Shaddai. Seus olhos se voltam para o milagre da concepção humana, da fecundação do óvulo à formação dos ossos. Tudo acontece fora do alcance dos olhos humanos e sem sua interferência, “de um modo terrível e maravilhoso” (v.14). Sendo “Todo-Poderoso, grande em poder” (Jó 37:23), Deus é digno de temor e rendição incondicional. É insensatez opor-se a Ele. A sabedoria consiste em obedecê-lo.

A reflexão teológica de Davi o leva à mais notória evidência de que sua teologia era saudável. A teologia o ajudou a conformar sua vida à vontade Deus. A meditação nos atributos de Deus permitiu ao rei de Israel uma transformação de seus afetos (desejos, vontades e pensamentos), de forma que o padrão de vida do ímpio não lhe pareceu atraente. Era detestável aos seus olhos saber que alguém pudesse zombar do caráter santo do Senhor dos exércitos. A onisciência, a onipresença e a onipotência de Deus de Abraão, Isaque e Jacó fizeram Davi suplicar por santidade. Seu deleite estava em ostentar em sua própria vida os traços do caráter de Deus que o fazem amável, doce, excelente e desejável.

Ao contrário do que muitos insinuam, a teologia rasgou o véu da abstração e adentrou o cotidiano do mais vitorioso rei que Israel já teve. Ela alimentou sua alma faminta e lhe ensinou a descansar. Não era uma teologia árida e confusa, mas viva e orientadora como um farol que guia o comandante de um navio até o porto seguro. A teologia sistemática fez Davi cantar e orar com confiança. Ele, então, pôde clamar por um coração puro, porque Deus é onisciente (v.23); por uma vida de retidão em todos os seus caminhos porque sendo “Deus de perto e também Deus de longe” (Jr 23:23), ele teria seus pés guardados de tropeçar; por fim, Davi descobriu o que só Deus poderia oferecer por seu poder infinito: a vida eterna. A onipotência de Deus ensinou a Davi que a vida não termina no túmulo.

Quem diz que a teologia atrapalha, que é assunto para seminarista, precisa aprender com Davi o valor que ela tem.

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