Esperança peregrina


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Uma boa alegoria para a trajetória do cristão nesse mundo pode ser encontrada na experiência dos hebreus no livro de Êxodo: outrora escravos e oprimidos por um poder impiedoso, têm suas dores contempladas pela benignidade de Deus; são batizados (1 Co 10:2) e passam peregrinar em um ambiente que se apresenta continuamente hostil à sua esperança de um novo lar. Essa peregrinação até Canaã é, digamos, didática: ela expõe, como o fez a eles, o quanto somos fracos, contraditórios e dependentes, apesar da nossa recorrente recusa em admitir isso. Nesse sentido, nos identificamos com o povo hebreu: somos um povo sem lar, que habita em tendas e que caminha para uma terra que nos foi prometida há muito tempo atrás.

Há verdades que devem permanecer constantemente vivas em nossas memórias sob o risco de sermos dominados pelas inquietações deste mundo. Como somos seres de memória curta – vide o povo de israel – gostaria de lembrar nesse artigo algo fundamental sobre a nossa identidade cristã. De todas as verdades que estão “coladas” a ela, isto é, aquilo que nos caracteriza como filhos de Deus (perdoados, adotados, justificados, etc), a que diz que somos “peregrinos e estrangeiros na terra” (Hb 11:11) parece ser uma das mais esquecidas atualmente. Talvez isso explique o deserto espiritual em que nos lançamos quase todas as vezes que o dia mau (Ef 6:13) bate à nossa porta. Falta-nos consolo porque nos esquecemos de que fomos criados para o outro mundo.

Somos diariamente treinados a fixar residência aqui. Esse impulso é construído por valores que vamos construindo ao longo da caminhada nesse deserto em que habitamos com tendas. Valores que, não raras vezes, atuam para enganar a nossa visão a ponto de vermos beleza, ternura e satisfação naquilo que é apenas areia, que se move e é moldado conforme o regime dos ventos. Com a visão embaçada, todo o esforço que empregamos para uma graduação (e especializações), um bom emprego, viagens e a tão sonhada segurança financeira pode se transformar em uma correria inútil e desgastante, se esperarmos obter, a partir dessas conquistas, aquilo que elas jamais poderão nos dar: satisfação. Por isso, aqui vai uma ressalva importante: a Bíblia não é contra nossa busca por crescimento pessoal e aprimoramento profissional. Ela condena a deificação dessas coisas.

Se essa visão não for biblicamente corrigida (o que jornais, faculdade, livros e amizades não podem fazer), a ansiedade se instala e consome nossos afetos. Então, passamos a entulhar no coração os mais terríveis sentimentos, como a angústia, a dúvida, o ressentimento, a inveja, o desespero e até o ódio. Quando Jesus adverte seus discípulos das suas inquietações por comida, bebida e roupa, ele faz uma associação curiosa: “Porque todas estas coisas os gentios procuram” (Mt 6:32). É bem provável que ele esteja, também, criticando o estilo pagão de viver. As comidas parecem significar uma vida entregue ao prazer (hedonismo), enquanto as roupas representam uma vida de aparências e vazia de significado interior. Ao ansiar o que os pagãos ansiavam, Jesus percebeu que seus discípulos apresentavam os meus sintomas que seus vizinhos, sendo sufocados pelas inquietações e preocupações deste mundo. Haviam escolhido o deserto como lar.

O que o evangelho nos ensina tão logo somos inseridos na videira é a nossa relação com este mundo. Não somos daqui (Jo 15:19); tudo passa velozmente (1 Jo 2:17); fixar nossas afeições nele significa a morte espiritual (Fl 3:19); fomos criados para outro mundo (Fl 3:20). Com essas e outras tantas instruções (Sl 119:19; Hb 11:13-16; 13:4; 1 Pe 2:11), a conclusão é que nos cabe manter os pés nos chão – viver para a glória de Deus em cada detalhe da vida, em cada segmento da sociedade – mas os afetos no céu. Isso significa não fazer do curso universitário um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para nos lembrar que o melhor de todos os conhecimentos é “teme a Deus, e guarda os seus mandamentos” (Ec 12:13). Também significa esperar o correto dos relacionamentos e das amizades: eles não são a medida da nossa felicidade. A felicidade que eles nos proporcionam aponta para o verdadeiro gozo que está reservado àqueles que depositam sua confiança em Jesus Cristo por meio de um relacionamento de fé com ele. Por fim, as riquezas, posses e aquisições, cujo valor é efêmero (Mt 6:19), apenas servem para nos indicar que o verdadeiro tesouro da vida é o evangelho de Jesus, que oferece verdadeira alegria, capaz de fazer alguém largar tudo por ele (Mt 13:44).

Somente esta visão nos capacita a enfrentar as hostilidades desse deserto sem sucumbir a ele. Na verdade, o grande efeito do evangelho é nos dar a capacidade de enfrentar todo o sofrimento, tribulação, perda, injustiça, incompreensão e aflições que nos encontram nessa caminhada. Ele nos presenteia com aquilo que o mundo desconhece: esperança. Não aquela esperança que tem certeza do futuro, mas a convicção de que o que nos espera é inefável. Só no evangelho podemos dizer “Por isso se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; E ainda a minha carne há de repousar em esperança” (At 2:26); “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz… esperança” (Rm 5:3-4); “Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça” (Gl 5:5); “da esperança que está reservada no céu” (Cl 1:5); “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pe 1:3).

É somente olhando para o céu que teremos a esperança que nos faz suportar a peregrinação até lá, sem que ela nos aprisione em pessimismo, desespero e cinismo diante da vida. A esperança do evangelho faz cada alvorecer valer a pena. Mesmo em dias sombrios, será possível apreciar o sabor da comida, as bênçãos da amizade e experimentar vida no aconchego do lar. Então, as agruras das vidas acadêmica e profissional, as exigências e os desafios do cotidiano não mais pressionarão nossos corações a duvidar de um Deus amável, excelente, belo e condescendente. Pelo contrário, elas reforçarão nosso louvor e gratidão a ele. Porque, no fim, quando dos nossos olhos for descoberto o véu que impede nossa visão da majestade de Deus, nos lembraremos que valeu a pena cada dia em que caminhamos não para construir nossas casas sobre a areia movediça do deserto – e todo o preço que nos foi exigido por abraçar a cruz – mas em Canaã, definitivamente a terra prometida.

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