Afeições Religiosas de Jonathan Edwards – uma resenha


Resultado de imagem para jonathan edwardsO livro Afeições Religiosas de Jonathan Edwards é daqueles cuja importância e legado são atemporais. A despeito de ter sido escrito pelo maior teólogo americano e um dos homens mais santos que o cristianismo conheceu, que, como ninguém, uniu piedade e erudição, doutrina e prática, fé e obras, o livro é gigante porque Edwards toca no cerne da verdadeira religião (o conceito de religião em sua época ainda não havia ganhado conotações pejorativas como atualmente).

Esse tratado, como o próprio Edwards se referia à sua obra, foi escrito em um contexto de confusão religiosa na América após o grande avivamento que por lá eclodiu. E essa onda de avivamento trouxe, também, considerável confusão sobre a atuação e influência do Espírito Santo. Experiências místicas, visões de anjos e revelações extraordinárias ganharam espaço na liturgia e na vida comum dos cristãos daquela época. Obviamente, isso suscitou ataques ferozes de uma parcela da igreja que não estava acostumada, por exemplo, com cenas de crentes caindo no chão ou chorando copiosamente durante os cultos, nem com pessoas profetizando.

Afeições Religiosas é a contribuição de Edwards para o correto entendimento dessas questões que dividiam a igreja de sua época. Sem rejeitar a possibilidade da obra do Espírito Santo atingir as emoções e os sentimentos (e não apenas o intelecto), nem considerá-las como evidências essencialmente autênticas da verdadeira conversão, Edwards ajuda-nos a discernir, sempre com base nas Escrituras, o papel e a importância das afeicões no exercício da religião, a fim de que sejamos capazes de separar as verdadeiras afeições do fanatismo e do delírio. A preciosidade de sua obra reside no fato dela trazer à superfície as marcas autênticas das afeições santas. Por isso ela é atemporal.

Já nas primeiras páginas, ele define o que são essas afeições: “as afeições não são outra coisa senão as atividades mais pujantes da inclinação da vontade da alma”, que se vale de duas faculdades principais. A primeira é o entendimento, isto é, “a capacidade de perceber, conjecturar, discernir, ver e julgar”; a segunda é a vontade, que inclina a alma a certa coisa por meio da aprovação ou do agrado, ou a repele quando desgosta ou desagrada-se dela.

Como se pode perceber, o livro vai caminhar por uma vereda com forte tendência à abstração. Entretanto, a piedade apaixonada e a enorme erudição teológica de Jonathan Edwards nos poupam desse fardo. Ele não escreve como um pesquisador, mas como um alguém de pés nos chão e mente nos céus, com razão e coração, lógica e fogo. O livro é perscrutador do início ao fim e leva-nos a um constante autoexame do nosso próprio coração, mente e, claro, vontades.

Eis, portanto, os principais pontos que Edwards aborda em sua obra:

1) A verdadeira religião consiste em afeições santas. Não se trata de mero acúmulo de informação e conhecimento teológico como um fim em si mesmo. É a conformação da vontade, dos desejos e do entendimento aos padrões do evangelho que caracterizam o nascido de novo. Essa conformação é consumada na capacidade da pessoa em ver excelência em Deus, deleitar-se na perfeição moral de seu caráter e desejar prestar-lhe obediência.

Em suma, as afeições santas capacitam a mente a ver beleza em Deus, aquecem o coração a desejá-lo como quem deseja um tesouro de grande valor e ensinam-no a deleitar-se nele com a alegria de alguém que encontrou tudo o que precisava.

2) A felicidade humana reside em uma vida santa. A santidade cristã é a conformação da vida aos mandamentos de Deus, mandamentos que exprimem per si a Sua santidade. A grande virtude de Edwards é mostrar a santidade como o padrão e o caminho da verdadeira felicidade. É uma visão revolucionária em uma era que deposita sua esperança e felicidade em aquisição de bens, no acúmulo de dinheiro, na obtenção de emprego ou em hobbies que destroem o corpo e alma.

Redescobrir esse evangelho – uma vez que vários outros se multiplicam para confundir a muitos – é a única alternativa que resta à igreja sem que ela sucumba às pressões de pensar e agir como o mundo. Caso contrário, continuaremos a ver casamentos guiados por valores mundanos – onde filhos são vistos como fardos, a pureza sexual desprezada e a fidelidade conjugal como algo ultrapassado -, jovens com mentalidades cada vez mais seculares – com suas afeições voltadas para o sucesso profissional e para a ascensão financeira na esperança de encontrar nelas sua felicidade – e a perda de transcendência na vida com Deus. Esta enrijece a alma. Transforma as disciplinas espirituais em exercícios infrutíferos e enfadonhos. Apaga o significado de se viver para Deus em obediência e amor.

3) A santidade de Deus é a soma e a perfeição de Seus atributos. É por Sua santidade que Deus revela sua beleza excelsa e desperta no coração regenerado o desejo por conhecê-lo. Deus é distinto por ser justo e misericordioso, por odiar o pecado e sair em busca do pecador, por ser fiel e digno de confiança, por ser poderoso e benigno, por ser santo e gracioso. Tudo isso faz dEle um ser amável, isto é, digno de ser amado irrestrita e incondicionalmente. O cristão é alguém que olha para santidade de Deus e a admira com temor, sem desespero.

Por outro lado, o principal sinal de que as afeições não são forjadas pelo Espírito Santo é o seu desprezo pela santidade divina. E esse desprezo se manifesta pela recusa da pessoa em amar e buscar a santidade pessoal quanto sua incapacidade de deleitar-se na excelência e na perfeição moral do ser divino. Dois exemplos: primeiro, a crise de testemunho que a igreja enfrenta por esses dias. Somos uma sociedade que sequer sente os efeitos de ser composta por mais de 40 milhões de evangélicos. Segundo, a qualidade das músicas que cantamos. Afinal, sobre o que cantamos? Não é sobre o glorioso ser de Deus, a excelência do seu caráter ou a glória do seu nome. Os louvores versam cada vez mais sobre nós mesmos, nossas realizações e nossos anseios, mesmos que travestidos de uma piedade rasa. Nossas afeições são moldadas pela ideia mundana de que o homem é a medida de todas as coisas. Os louvores que preferimos denunciam que desviamos nossos olhares da glória de Deus e o fixamos em nós mesmos.

4) As afeições religiosas são evidenciadas pela prática das boas obras e não determinada pela experiência. Nesse ponto, Edwards combate o pensamento comum de sua época que atribuía à experiência de conversão e não às obras geradas a partir dela como sinais autênticos da verdadeira espiritualidade. Com isso, ele combate tanto a hipocrisia religiosa – marcada por uma vida sem frutos – quanto o antionomianismo, com sua defesa de que a obediência à Lei não era mais requisito para os que foram salvos pela graça. Sua exposição da importância das boas obras e a farta comprovação bíblica que ele serve ao leitor tornam indefensável a teoria antinomiana.

Edwards reconhece o valor das experiências pessoais, e arrisco dizer que ele as incentiva. Mas ele faz questão de esvaziá-las de qualquer autoridade sobre a autenticidade da conversão. É bastante comum encontrarmos em livros e em pregações inteiras algo como “tenha experiências com Deus” como se elas indicassem uma vida espiritual mais saudável ou atestasse um alto grau de maturidade. Edwards, no entanto, adverte o seu leitor com a velha máxima de que “a árvore é conhecida por seus frutos” (Lc 6:44). E nisso ele é magistral: ele tanto enaltece a graça de Deus, que nos salvou não com base em qualquer mérito nosso mas exclusivamente pela excelência dela, como o glorifica por sua poderosa plano de nos (re)criar em Jesus para as boas obras que preparou de antemão para seus eleitos (Ef 2:10).

Portanto, a evidência que o cristão tem a mostrar à sua igreja local para que seja aceito e amado por ela, bem como ao mundo, para que Deus seja glorificado e os homens persuadidos de Sua santidade, é sua obra. Por ela, ele confirmar ser uma nova criatura, dotado de novas e santas afeições.

Concluí o livro dando glórias a Deus por ter colocado a beleza do seu evangelho em linhas tão simples e profundas.

Retirei do livro citações que julguei centrais para um entendimento panorâmico do que Jonathan Edwards pretendeu com seu livro. Para tal, utilizei a 1ª edição de 2018, publicada editora Vida Nova.

“Multidões muitas vezes ouvem a Palavra de Deus e com isso tomam conhecimento de coisas infinitamente grandiosas e importantes que muito de perto lhes dizem respeito, e tudo quanto ouvem parece não ter feito nenhum sobre lãs nem lhes causar a mínima mudança de disposição e conduta. Isso porque nenhuma dessas pessoas é afetada pelo o que ouve” – Pág 25.

“Visto que as Escrituras tantas vezes atribuem o pecado e a degradação do coração a seu próprio endurecimento, é óbvio que a graça e a santidade de coração, pelo contrário, devem consistir em grande medida de um coração cheio de afeições piedosas e ser mui suscetível a essas afeições” – Pág 41.

“O certo não é rejeitar todas as afeições tampouco aprovar todas elas, mas saber distingui-las, aprovando algumas e rejeitando outras, separando a palha do trigo” – Pág 44.

“O ser humano primeiro precisa amar a Deus, ou ter o coração unido ao dele, para poder apreciar e julgar o bem de Deus como se fora seu próprio bem e anelar o glorificar a Deus e o alegrar-se nele como anela sua própria felicidade” – Pág 159.

“O princípio fundamental do verdadeiro amor a Deus é que ele é amável por si mesmo, ou digno de ser amado, ou a suprema amabilidade de sua natureza […] Logo, o que faz Deus amável acima de qualquer coisa é a sua excelência” – Pág 161.

“A santidade do amor está sobretudo em se tratar do amor às coisas santas, por serem santas, pela santidade delas” – Pág 178.

“Quem não enxerga a beleza da santidade não sabe nem sequer p que são as graças do Espírito de Deus, está destituído de toda noção ou ideia das ações da alma provenientes da graça, de todas as consolações e prazeres santos e de todos os efeitos das influências salvíficas do Espírito de Deus no coração” – Pág 192.

“A suma felicidade do homem consiste em atividades e satisfações santas” – Pág 218.

 

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