As credenciais da liderança cristã segundo a vida de Esdras


Ovelhas, Pastor, Agricultor, Ninh Thuan, RebanhoVivemos uma carência de líderes na igreja. Justamente no período em que se dispõe de relativa fartura de livros, congressos e treinamentos sobre o assunto. Em casos mais avançados, o que vemos é a aplicação direta e pragmática de um conceito de liderança que trata a igreja local como uma empresa – que precisa crescer em números e renda – e a membresia como consumidores religiosos, carentes de produtos da fé para serem consumidos como drogas.

E essa carência de líderes se reflete em dias de escuridão espiritual vivida por uma parcela significativa da Igreja brasileira, apesar de experimentarmos uma explosão de vagas em seminários das mais variadas correntes teológicas. E esse elevado número de formados não se traduz em líderes de qualidade. Porque aprenderam a confiar em métodos absorvidos acriticamente e não nas Escrituras como seu guia infalível. Essa é a diferença dos líderes da atual geração para aqueles que serviram como farol em gerações anteriores.

Um desses líderes se chama Esdras. Sua liderança espiritual, religiosa e política na restauração do templo em Jerusalém é um exemplo a ser seguido por quem se sente vocacionado. Esdras não apenas restaurou o legislativo e a política em Israel, mas conduziu uma nação inteira de volta a um relacionamento pessoal com Deus. A distinção de sua liderança é explicada no verso 10 do capítulo 7 do livro de Esdras:

Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor e para cumpri-la e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos.

Apenas com esse verso é possível entender como a profícua liderança de Esdras foi construída. Como veremos, ela foi sustentada por um tripé.

1) Disposição pessoal ao aprendizado das Escrituras. Antes de ser um político, um diplomata ou mesmo um líder religioso de seu tempo, Esdras era um profundo conhecedor da Lei de Deus, que àquela época se resumia ao Pentateuco. Ao dizer que ele preparou seu coração para buscar a lei, a Bíblia enfatiza que todas as suas afeições estavam submetidas ao aprendizado. Não era um aprendizado profissional para preencher um requisito que o cargo lhe exigia. Seus pensamentos, sua vontade e seus desejos o impulsionavam à Lei.

Portanto, a primeira e indispensável virtude que um líder cristão deve buscar é o amor pela Palavra de Deus. Isso significa dar prioridade na busca de ferramentas que lhe possibilitarão compreendê-la da forma correta. Falo de bons livros, bons comentários e bons autores. E, claro, da requerida ortodoxia. Antes de tudo, entretanto, falo do amor e de afeições santas. São esses que impedem a leitura e o estudo de se tornarem enfadonhos. Essa falta de amor leva não poucos pastores a substituírem a instrução pessoal nas Escrituras por métodos e conceitos minimamente bíblicos como ferramentas para o seu ministério. E, pelo o que pouco vejo, eles o fazem por uma questão de um gosto mal formado: os métodos são mais estimulantes do que a própria Bíblia. Nenhuma membresia aprenderá amar a Palavra de Deus sendo guiada por um líder que a despreza em seu dia a dia. A vida de Esdras é uma acusação contra o anti-intelectualismo reinante dos nossos dias.

2) Disposição pessoal em obedecer. O verdadeiro líder apenas não ama a ortodoxia (a doutrina correta). Ele persegue a ortopraxia (a obra correta). Esdras nos ensina qual é o desdobramento natural de uma vida que se inclina à instrução bíblica: a obediência. O mesmo amor que se manifesta no interesse pelo correto conhecimento se manifestará em torná-lo real e prático. Isso refuta a tese sustentada por muitos de que a instrução promove frieza espiritual. Pelo contrário, ela é um potente combustível! Nenhum líder estará habilitado à verdadeira obediência a menos que tenha compreendido a vontade de Deus pela busca pessoal (1 Ts 4:3; Rm 12:2).

Nada envergonha tanto o nome de Jesus e impede o progresso do evangelho quanto um líder de obras mortas. Quantas ovelhas são dispersas, tornam-se incrédulas, abandonam a fé e transformam-se em zombadoras porque foram subjugadas por um pastor rude e incoerente. O líder segundo o coração de Deus é um líder santo, “na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Tm 4:12). Ele persegue a obediência e torna-se referência para quem o ouve. E essa referência somente pode vir por uma vida pessoa aplicada à leitura, às palavras da fé e da boa doutrina (cf 1 Tm 4:6,11).

3) Disposição pessoal ao ensino. Todo líder é um mestre por excelência. O ministério pastoral é essencialmente um ministério de ensino (cf 1 Tm 4:13; 2 Tm 4:13; Ef 4:11,12). Seja pregando, dando aula ou aconselhando, o verdadeiro líder é alguém capaz de transmitir as verdades da Palavra de Deus com correção e clareza. Ele é alguém instruído e experimentado, alguém que está constantemente aprendendo e pratica o que aprende. Por isso é tão eficaz o seu ensino. Esse trabalho de mestre Esdras desempenhou com excelência. Ele deixou a Babilônia e foi para Jerusalém com o propósito de livrar seus conterrâneos da ignorância espiritual (Ed 7:9,10).

Talvez essa seja a virtude esquecida de muitas lideranças eclesiásticas. Infelizmente é grande o número de pastores incapazes de manejarem bem a Palavra de Deus (2 Tm 2:15) de forma a oferecer às suas ovelhas um ensino que eleve a verdade e afugente o erro. Incapazes de fazê-lo, substituem a pregação, o ensino e o aconselhamento bíblicos por teorias e palavras especulativas, gerando mais dúvidas do que certeza, mais incredulidade do que fé em seus ouvintes. Apenas oferecem, por meio de seus sermões e aulas, as novas tendências do mercado religioso.

Isso explica o baixo nível de conhecimento das Escrituras e a incapacidade de muitos cristãos em desenvolverem uma fé sólida o suficiente para responder a um mundo que acelera seus passos para a corrupção e o pecado. Muitos jovens, a faixa etária que mais sente esse despreparo dos pastores, são cooptados pela mentalidade do mundo (secularismo, ateísmo, marxismo, etc) e não poucos abandonam a fé de uma vez por todas. Voltando a Esdras, a nação de Israel somente pôde se reerguer e restaurar o seu culto a Deus porque tinha um líder que lhes ensinou novamente a Lei. Sem pastores como Esdras será impossível imaginar uma igreja instruída.

Antes de concluir, faz-se necessário, com o exemplo de Esdras, corrigir uma visão que ganha cada vez mais adeptos no meio da igreja. É a ideia de que o testemunho pessoal do cristão é o instrumento utilizado por Deus na conversão dos pecadores. É a falácia do “pregue, se possível use palavras”. É o engano que tenta diminuir a proeminência da pregação, como se ela fosse inferior ao testemunho. Na vida de Esdras, o testemunho pessoal e a pregação geravam nele interesses harmônicos. Com uma vida de obediência ele não visava substituir o ensino de seus conterrâneos. Com a pregação e o ensino ele não desmerecia a importância da santidade pessoal. Contudo, foi a exposição da Lei que reergueu a nação de Israel. A pregação sempre será o meio de Deus para salvar os pecadores (Rm 1:16; 1 Co 1:18-25).

Esses são os três estágios que forjam a verdadeira liderança cristã. Eles têm uma progressão temporal, eu diria. Primeiro a instrução pessoal do líder, segundo a sua busca pessoal por santidade e, por fim, a instrução do corpo de Cristo. Sem o primeiro, a igreja local fica exposta ao erro. Sem o segundo, a hipocrisia e a religiosidade ganham terreno. Sem o terceiro, essa mesma igreja não cresce.

Que a Igreja do Senhor possa ser provida de mais líderes como Esdras.

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Sou filho de Deus.

One Response to As credenciais da liderança cristã segundo a vida de Esdras

  1. joel antiqueira says:

    temo mestre ate demais mas andando segundo seus interesse materiais, que são profissionais da fé,

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