A batalha dos olhos


olhosAs escolhas que fazemos definem as circunstâncias que enfrentaremos. E essa velha máxima possui sustentação bíblica na analogia da colheita (Gl 6:7-8). Agora, precisamos ir mais longe e perguntar: se as circunstâncias são definidas pelas escolhas que fazemos, então como são definidas essas escolhas? Pela cosmovisão que abraçamos. Ignorando esse pequeno, mas precioso, conceito que muitas pessoas tentam alterar suas decisões sem sucesso. Focam erradamente nas circunstâncias – no futuro – que querem alterar e não se atentam para o fator gerador das decisões que tomam. Pensar a cosmovisão é mais um olhar para trás do que para frente. Senão vejamos.

A batalha entre Davi e Golias foi, antes de tudo, um embate de cosmovisões. Eu quero partir dela para refletir sobre a importância de uma cosmovisão bíblica e como ela é uma ferramenta poderosa para enfrentar os desafios que a vida impõe, sobretudo para aqueles que decidiram confiar em Deus. E essa épica batalha é um bom ponto de partida porque faz alusão a diversos embates a que somos expostos hoje, mas cuja resposta a eles nem sempre soam bíblicas. E não são poucos os que sucumbem a esses desafios quando optam por um enfretamento da vida baseado em conceitos que não se sustentam na Bíblia.

Narrando o episódio entre Davi e Golias, a Bíblia faz questão, logo de início, de apresentar as credenciais de Golias como um guerreiro experiente, imponente e tendo à sua disposição os melhores recursos militares da época para um confronto corpo a corpo. O gigante de Gate explora muito bem suas vantagens e faz questão de demonstrá-las à luz do dia, diante dos olhos pasmos dos soldados de Saul. Suas armaduras e suas armas representavam um impacto visual capaz de dissuadir qualquer esperança do inimigo em alguma espécie de vitória.

E por que a Bíblia faz questão de iniciar o relato dessa batalha épica com as credenciais de um gigante guerreiro? Eu penso que é para confrontar dois projetos de vida bem definidos no texto, expostos no comportamento de Davi e do exército israelita. Um põe no alcance da visão o tamanho da sua esperança. O outro ignora quase que por completo as circunstâncias que o cercam. Antes de ser uma batalha entre dois homens, com diferentes capacidades, a luta entre Davi e Golias é uma luta que expõe duas maneiras de ver o mundo. De um lado, um solitário Davi. Do outro, um exército inteiro liderado por um líder rejeitado por Deus. A Bíblia faz questão de narrar que os próprios irmãos de Davi estavam em lado oposto, inclusive o mais velho deles, talvez para enfatizar o isolamento do irmão mais novo e apontar qual era a opção escolhida pela “voz da experiência”.

O impacto visual de um gigante diante dos quartéis israelitas provocou o resultado esperado. Os conterrâneos de Davi recuaram e temeram. A primeira batalha havia sido vencida: o psicológico israelita havia sido dominado. “Ouvindo então Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se, e temeram muito” (1 Samuel 17:11). E essa hostilidade de Golias durou longos quarenta dias (v.16) que, em circunstâncias de conflito, parecem eternos. Apenas um homem imobilizou um exército inteiro. Ou melhor, uma nação.

Por que todo esse temor? Novamente ela: a cosmovisão. Seguindo a definição do Dr. Jason Lisle1, “cosmovisão é uma rede de pressuposições à luz das quais todo raciocínio e experiências são interpretados”. Isto é, cosmovisão é a maneira como você entende e lida com o mundo a sua volta. E, para isso, você precisa ter pressuposições. E pressuposições são crenças fixas e antigas. São elas que dão a base para a interpretação. É interpretando os fatos que alguém é impulsionado a agir (mesmo a inação pode ser resultado de uma decisão). Essa definição é suficiente para mostrar que os pressupostos que abraçamos definirão as ações que tomaremos.

Os pressupostos de Saul e de seu exército os levavam a crer que a vitória era uma combinação de fatores políticos, militares e diplomáticos, cuja balança pendia para o lado do mais apto. Assim, o somatório de recursos financeiros, tecnologia, treinamento e habilidade humana fechava a equação da vitória. Não é de se estranhar, portanto, a reação incrédula de um rei que ouve de seu pupilo o desejo de ser o duelista. Davi não tinha as credenciais de Golias e, por isso, não impunha medo. Os pressupostos dos israelitas explicam a maneira como eles “liam” os fatos que se projetavam diante dos seus olhos, bem como a postura defensiva que tomaram em todo o curso da batalha. Em se tratando de uma nação escolhida por Deus e tirada sob mãos poderosas do Egito, tal postura é, no mínimo, estranha.

No meio desse vale de temor, a Bíblia ergue um jovem e destemido rapaz. Em seu currículo não havia grandes batalhas nem vitórias sobre grandes exércitos, mas os perigos cotidianos de um pastor de ovelhas, uma profissão simplória se comparada à de seus irmãos. Ainda assim, não foi essa experiência prévia que impulsionou Davi à batalha. Se a Bíblia quisesse mostrar a aptidão do filho mais novo de Jessé ela não teria construído a história para mostrar justamente sua inexperiência militar e seu jeito desengonçado de vestir uma armadura. A simplicidade de Davi é enredada com letras gigantes ao longo do texto e culmina em sua opção por ter somente uma funda com cinco pedras lisas nas mãos para enfrentar um homem de armadura praticamente instransponível. O que faltava a Davi, a experiência das batalhas, sobrava ao exército. A confiança que movia Davi mostrava-se escassa em Israel.

Se não foi a experiência, o que, então, colocou Davi diante do gigante Golias? De novo ela: a cosmovisão. Diferentemente dos seus irmãos e conterrâneos, Davi interpretava os fatos à sua volta com pressupostos que ele recebera das Escrituras. As evidências eram as mesmas: um exército mais poderoso e um guerreiro invicto. Mas a interpretação dessas evidências era outra. E o que diferiu a interpretação de Davi para a de seus conterrâneos foi a cosmovisão que forjou sua visão.

1) “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar o exército do Deus vivo?” (v.26).

2) “O teu servo matou tanto o leão como o urso; este incircunciso filisteu será como um deles, porquanto afrontou o exército do Deus vivo” (v.36).

3) “O Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu” (v.37).

Essas palavras representam muito mais do que uma confiança inabalável. A cosmovisão de Davi era bíblica porque ela colocava o Senhor no centro da história. Para ele, o desenrolar dos fatos não era o resultado de um emaranhado de eventos desconexos entre si que culminavam em circunstâncias obscuras e sem destino. Ele enxergava o mundo sob a ótica de um Deus que o governa. Davi via na soberania de Deus a explicação que erguia e abatia os reis; ele cria no poder daquele que jamais havia perdido uma batalha; ele descansava na infinita sabedoria de quem extraía o bem das piores circunstâncias. Por fim, o soldado caçula conhecia a fidelidade do Deus de seus pais. Sua cosmovisão era tão robusta que o permitia olhar para o presente confiante que um exército filisteu era muito impotente para se contrapor às gigantes promessas feitas à nação de seus pais.

Golias não estava zombando de um bando de homens medrosos. Ele estava zombando da fidelidade de Deus. Estava atacando a glória do nome do Senhor. E isso, para Davi, era inadmissível.

Não são poucos os exemplos atuais que mostram os sérios problemas de uma cosmovisão deficiente de pressupostos bíblicos. Li um pastor fazendo uma crítica ao fato de a convenção da sua denominação ter feito uma conclamação a um dia de jejum pelo país, por ocasião do julgamento que decidiu pela não concessão do Habeas Corpus ao ex-presidente Lula. Ele disse que não faria aquele jejum porque não via propósito real nele. Como, então, é possível a dois pastores da mesma denominação, tendo recebido a mesma educação teológica, optarem por escolhas opostas entre si diante do mesmo fato? Cosmovisão.

Não são poucos os jovens cristãos que ingressam na universidade e são expostos a teorias sociais e científicas que atacam a fé cristã em sua base. Somado a isso, tem-se a triste constatação de que muitos deles foram biblicamente mal instruídos em suas igrejas locais, seja por meio de pregação superficial ou por uma EBD que não lhes ofereceu ferramentas teológicas para analisar este mundo confuso. O resultado não poderia ser menos devastador: outrora engajados, agora céticos. Os que antes gastavam dias da semana envolvidos na atividade da igreja local hoje questionam sua importância. Por outro lado, não podemos nos esquecer dos jovens cristãos que foram expostos às mesmas circunstâncias e mantiveram-se fieis. Novamente, o que explica isso? Cosmovisão. Se um cristão consegue, por exemplo, olhar para um fóssil e ver nele a prova cabal da teoria darwinista e outro, analisando a mesma prova, pode dar testemunho do dilúvio bíblico e de um universo criado por Deus, concluímos que não é a alegada incoerência da narrativa bíblica (argumento preferido dos que apoiam a ideia de que a ciência e a religião sempre estarão em irremediável conflito) que afasta as pessoas do evangelho, mas a cosmovisão deficiente que receberam por anos dentro da igreja.

Não menos pior é o fato de testemunharmos uma tendência crescente nos púlpitos brasileiros: a substituição da pregação bíblica por mensagens de autoajuda, de cunho psicológico e emocional, como se a Bíblia fosse incapaz de oferecer uma resposta aos dilemas do homem moderno. Para falar sobre a depressão, a perda do filho e o desemprego, muitos pastores recorrem a Freud e não às Escrituras. Utilizam-na como um mero adereço nos púlpitos para falar de assuntos cujas argumentações e conclusões extraíram de manuais de psicologia. Não são poucos os encontros realizados em que os assuntos abordados (família, criação dos filhos, carreira profissional, vocação, etc) são tratados por especialistas e não por piedosos. É um desagravo à autoridade das Escrituras. Por fim, cabe novamente perguntar: o que permite essa triste guinada dos púlpitos brasileiros? Cosmovisão.

Voltando a Davi, as circunstâncias estavam definidas e a guerra era uma realidade, como o é a guerra de cosmovisões atualmente. As escolhas já haviam sido feitas, por ambos os lados. A mudança não dependia de novas escolhas. Ela dependia de alguém com uma perspectiva diferente no meio da unanimidade do medo. Não, não são decisões que fazem uma pessoa. O buraco é mais embaixo. São suas crenças. São elas que dão o suporte para entender, interpretar e responder a esse mundo confuso. “Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus…” as tuas decisões lhe trarão tormentas.  E as cinco pedras lisas do ribeiro, colocadas em alforje de pastor, mais uma funda nas mãos para enfrentar um gigante tido como invencível são um recado claro de que, mais do que ferramentas, precisamos de crenças solidificadas na Palavra de Deus para encarar este mundo. São elas que adestram nossas mãos, ou melhor, nossos olhos para a peleja.


1- A Prova Definitiva da Criação, Dr. Jason Lisle. Editora Monergismo. Pág 72.

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Sobre Blog do Lino
Sou filho de Deus.

One Response to A batalha dos olhos

  1. joel antiqueira says:

    ouve Israel o senhor e o único deus, por isso eu não creio numa trindade,

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