De tal maneira – João 3:16


índicePorque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

João 3:16 é conhecido por ser a melhor síntese do evangelho registrada em um só versículo. Como se pode observar, seus principais temas estão brilhantemente presentes nesse breve texto. O amor (egapesen) de Deus, retratado aqui como perfeito, é a causa. O objeto desse amor é mundo (kosmon) e é em Jesus que esse amor perfeito encontra sua plena expressão. Esse mundo não é o cosmos inanimado, mas o composto por seres inteligentes, da espécie humana somente, que podem crer. Esse mundo, portanto, não transmite a ideia de que todos serão salvos – o que prega o universalismo – mas que o amor de Deus não vê barreiras étnicas. E a promessa é a vida eterna, que fora perdida no Éden. A vida em seu sentido absoluto (Lc 12:15; Mt 19:16).

Apesar de já conhecido e decorado entre a cristandade, é possível que algumas lições importantes possam passar despercebidas por um leitor desatento desse mesmo versículo. Principalmente se essa leitura não se debruçar sobre o significado de cada palavra que compõe esse texto. O meu objetivo é, portanto, lançar luz sobre a expressão de tal maneira e entendê-la biblicamente.

Antes, contudo, precisamos delinear bem o contexto de João 3:16. Somos informados de início que um importante fariseu procura Jesus na calada da noite para fazer uma bajulação teológica. De imediato, Jesus faz o alerta que todo fariseu esquecera e fizera esquecer: a salvação é obra exclusiva de Deus. Não se obtém por esforços humanos e não é uma recompensa dada por Deus à performance religiosa das pessoas. É obra exclusiva de Deus e só a partir dela que o ser humano pode receber o perdão dos seus pecados. Ainda em seu diálogo com Nicodemos, Jesus emite uma reprimenda ao líder religioso por ignorar um ensino tão basilar (Jo 3:10).

Após isso, Jesus faz menção a um fato ocorrido em Números 21, quando o povo é afligido por serpentes ardentes, depois de murmurarem contra a providência de Deus. Um escape é oferecido pelo simples olhar para uma serpente de metal pendurada em um haste. Jesus faz alusão ao tipo de morte que sofreria e aos efeitos dela, fazendo dessa serpente um símbolo de sua obra. Em suma, o capítulo 3 de João é uma exposição da divindade e da obra de Cristo. É uma demonstração de quem Ele é, do que Ele fará e de como Ele fará.

O versículo 16, dentre tantas outras doutrinas, expõe o amor de Deus pela humanidade. E mais do que isso, ele demonstra a maneira como Deus ama o homem. Isso precisa ficar bem claro para não comprometer o seu entendimento. Perder de vista que Deus nos ama de uma forma específica significa ofuscar a mensagem do versículo e colocar-se em oposição ao próprio contexto do capítulo e o contexto geral do livro de João, que é apresentar a divindade de Jesus e sua obra salvífica.

O versículo é lido no grego da seguinte forma:

Houtos gar egapesen ho Theos ton kosmon, hoste ton Huion ton monogene edoken, hina pas ho pisteuon eis auton me apoletai all eche zoen aionion”.

A palavra Houtos é crucial para iniciarmos um entendimento bíblico do versículo. Fazendo um paralelo com o português, ela é um advérbio de modo e não de intensidade. Essa compreensão pode ser obtida pela análise das traduções mais importantes que estão disponíveis a nós:

A King James inicia com “For God so loved the world”, onde “so” indica “assim” ou “maneira”. A traduções da Almeida consagraram o de tal maneira, preservando o significado da palavra Houtos. As traduções NTLH (Nova Tradução na Linguagem de Hoje) e NVI (Nova Versão Internacional) apresentam incongruências na tradução da palavra Houtos, atribuindo-lhe intensidade, como se o objetivo do texto fosse indicar a extensão do amor de Deus. Senão vejamos:

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” – NVI.

Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” – NTLH.

Como se pode observar, o amor de Deus, nas traduções acima, se destaca não pela forma, mas pela intensidade. Embora o lado extraordinário do amor de Deus seja exposto nas Escrituras, aqui esse não é o objetivo principal. Que Deus amou o mundo de uma forma extraordinária é um fato. Diversos outros trechos das Escrituras nos mostram isso, até mesmo João:

Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” – João 15:13.

O mais importante em João 3:16 é aprendermos a maneira como Deus ama alguém. É o que defendo nesse artigo. E a maneira de reforçarmos isso é deixando a Escritura encerrar essa questão. Como? Observando como essa mesma palavra – houtos – se repete ao longo dos evangelhos.

E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim (houtos) está escrito pelo profeta” – Mt 2:5

Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim (houtos) nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu” – Mt 3:15.

Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim (houtos) ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus” – Mt 5:19.

Em nenhum momento a palavra houtos dá a ideia de intensidade, mas de maneira. O primeiro versículo ressalta a precisão do registro profético do nascimento de Jesus. No segundo, Jesus diz como ele exercerá o seu ministério terreno. E o terceiro é uma advertência a quem oferece um ensino deficiente. Em todos esses versículos a mera substituição da palavra assim por tanto (a mesma palavra que as versões NTLH e NVI utilizam) levaria à perda da coesão e da coerência de todos esses textos. Portanto, em João 3:16 não nos deparamos com o tamanho do amor de Deus, mas com a sua forma peculiar.

A primeira lição é que o amor de Deus é definido, não abstrato. Ele nos ama em Jesus. Isso significa que não temos a liberdade de definir o amor de Deus à parte de Seu bendito Filho. Se toda a Bíblia é um documento cristológico, então é de Jesus que precisamos para experimentar e conhecer a imensidão desse amor. As vestes que vestiram Adão e Eva partiram de um cordeiro morto; a vida de Isaque foi poupada a partir de um cordeiro “travado pelos seus chifres, num mato”; Israel teve seus primogênitos poupados a partir do sangue do cordeiro estampado nos umbrais das portas. Toda a Bíblia é útil para nos ensinar acerca de Jesus. Logo, esse versículo nos relembra do compromisso que temos com a correta compreensão da pessoa de Jesus. Porque sem Ele é impossível chegarmos a Deus. Ao dar seu Filho, o Pai determinou o caminho pelo o mundo seria salvo.

Isso deve servir de alerta para quem ousa apresentar o amor de Deus sem a pessoa de Jesus. É o amor moderno, sentimentalizado, diluído, conivente com o pecado e confuso em sua aplicação. É o amor que serve de ferramenta para introduzir o erro e confundir a fé dos incautos. A revelação do amor de Deus atinge seu ápice na pessoa de Jesus. Nosso ensino deve partir dele e chegar nele. O que fugir disso é ensino de homens.

Em segundo lugar, o amor de Deus é revelado pela maneira como ele resgatou seu povo e tratou os seus pecados. “Ele deu seu filho unigênito”. Está nos apontando para a cruz. Porque ali se estabeleceu o tribunal de Deus que vitimou seu Filho amado em nosso favor. No calvário Jesus vestiu a nossa maldição para que pudéssemos receber sua justiça perfeita. Derramou seu sangue para a purificação dos nosso pecados. Sofreu nossa dor para que fôssemos sarados. Foi abandonado por Deus para que jamais vagássemos como ovelhas perdidas. Bebeu o cálice da ira de Deus para que tivéssemos paz com Ele. Deus não nos amou pintando nosso nome no céu, muito menos enviando anjos para nos entregar um recado desse tipo. Deus nos amou entregando seu Filho por nós.

A cruz proclama a inutilidade do homem em alcançar o perdão dos seus pecados e a sua justificação por meio de seus próprios esforços. Não é dessa forma que experimentamos o amor de Deus. Não é tentando impressioná-Lo ou comprando Seu favor. Deus não aceita subornos e não deve nada a quem quer que seja. Seu amor é gratuito e livre. Não depende das nossas obras. Portanto, quando desviamos nossos olhos da cruz – a maneira pela qual Deus nos ama – abraçamos a confusão e a insegurança. Porque trocamos a maneira de Deus pela maneira dos homens. É a opção pela porta larga, que conduz à perdição. Somente contemplamos o amor de Deus quando o avistamos pelos óculos do calvário. A tarde daquela sexta-feira, com Jesus pendurado em uma cruz, significa a maneira mais sublime e gloriosa que Deus decidiu para nos revelar Seu amor. E nada desde a eternidade elevou tanto Seu santo nome quanto o sacrifício de Jesus.

A Bíblia tem uma multidão de relatos para fazer minha alma descansar na grandeza, na força e na perfeição do amor de Deus. Esses atributos de seu amor são um bálsamo para a noite escura da alma, quando somos incapazes de enxergar um palmo à frente e Deus parece distante. A grandeza desse amor afasta o medo com a certeza de que nenhuma circunstância pode alterar o fato de que sou amado por um Ser tão excelente e glorioso. Contudo, é em Jesus e pela cruz que a insegurança é vencida pela alegria da salvação. O amor de Deus não é abstrato, não é utópico e muito menos produto da minha mente caída. Ele é real, tem um nome e é conhecido. E o fato de Jesus estar assentado à destra de Deus neste exato momento é suficiente para minha fé se deleitar e celebrar a minha justificação e o perdão dos meus pecados. Porque a maneira que Deus designou para purificar os meus pecados foi cabal e definitiva. Foi de uma vez por todas. É dessa maneira que sou amado. E somente dessa.

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Sou filho de Deus.

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