Marielle Franco e o mal que ignoramos


Resultado de imagem para Marielle francoPassados dez dias (quando escrevo esse texto) da morte da vereadora do PSOL Marielle Franco, sem um esclarecimento em vista, e já tendo assentado a poeira da comoção que tomou conta do Brasil, resolvi registrar esse artigo para meu próprio uso num futuro breve, quando pretendo avaliar a visão que construí desse triste episódio (faço isso com quase todos os artigos que publico aqui). Abstive-me de comentar no calor das emoções, seja pela falta de informações suficientes para uma análise minimamente baseada ou para não correr o risco de chover no molhado. Esse texto é, antes de tudo, para mim. É a digitalização dos meus pensamentos. Apenas isso. E o meu objetivo é forçar meus pensamentos a seguirem a Bíblia e não os analistas de jornal. Ele não é sobre lamentação ou uma crítica à comoção seletiva demonstrada tanto pela esquerda quanto pela direita, razão pela qual não tecerei comentários sobre a igualmente triste morte do Anderson. O ponto aqui é a falta de sensibilidade demonstrada pelos militantes da direita facebookeana (se você acha que o assunto já deu, então eu sugiro você interromper a leitura aqui).

Tragédia. Não consegui encontrar palavra que melhor definisse todo o episódio. E essa palavra teve seu significado alargado, esticado em virtude do que passamos a testemunhar desde então. O brutal assassinato da integrante da Câmara Municipal do Rio de Janeiro não escancarou apenas a falência do poder público, sua incapacidade de enfrentar a violência urbana e o governo moribundo de Pezão, do PMDB. Muito menos se limitou a pôr em evidência mais uma família enlutada pela perda repentina de um dos seus membros. Os tiros disparados contra a vereadora serviram para matar um mito que há muito alimentamos, sobretudo por essas bandas do Rio de Janeiro: somos bons, simpáticos, receptivos e determinados, apesar da conjuntura política e social que resiste em se modificar a nosso favor. A bestialidade humana não se evidenciou somente pela emboscada que ceifou a vida de Marielle, mas pelos desdobramentos dela. A cobertura da imprensa e o Facebook fecharam a sentença da nossa maldade e enterraram o mito que citei. Muito lixo ideológico, paixões cegas e análises ignorantes fizeram da web um lugar intransitável, horrendo e chato. Não por ela, mas por nós mesmos. Vi político de esquerda segurando o caixão de Marielle com seu fotógrafo pessoal a tiracolo para explorar isso já a partir do segundo semestre desse ano. A militância esquerdista espalhada pelo Brasil, com suas células em países da Europa e EUA, mobilizou-se e, sem qualquer cerimônia, subiu no caixão de uma jovem mulher para fazer comício eleitoral. A morte de Marielle uniu a esquerda. Uniu-a em favor de si mesma, pois viu nessa perda dolorosa o gatilho necessário para levantar os ânimos de um grupo que vê sua esperança de protagonismo político ruir na iminência da prisão de Lula. A esquerda precisava de um mártir. Encontrou-o. Mas se enganou quem viu nas lágrimas desse segmento político o sentimento de tristeza por uma pessoa. Era a alegria por um fato político que, enfim, poderia colocar na rua uma multidão acoada e envergonhada, cujo discurso piegas já não gruda como antes. Nem mesmo preso Lula daria conta de incendiar dessa maneira a militância esquerdista. Marielle morreu, mas tornou-se no dado estatístico mais importante para a esquerda nos últimos anos. Mais impactante do que as já conhecidas 60.000 mortes por arma de fogo ao ano. O sangue da vereadora psolista pintou e ergueu a nova bandeira da velha nova esquerda fluminense. Oportunismo nauseante.

Mas o contraponto a essa desumanidade não veio. Todo esse abuso e sentimentalismo canalizado para uma causa encontrou lugar do outro lado do espectro ideológico que se diz antagônico e uma alternativa ao esquerdismo. Refiro-me à direita facebookeana, que, compartilhando memes de Churchill e Tatcher, frases de efeito de Mises e Olavo, ou dizendo-se fazer campanha gratuita para Bolsonaro, se acha intelectual e politicamente superior aos camaradas esquerdistas. Acham que salvarão o Brasil a partir do facebook. Sua atitude foi igualmente bestial e anticristã (cito isso porque, sabemos, há um número considerável de ditos cristãos embarcando nesse jogo). O nome e a dignidade de um ser humano foram manchados por associações sem provas e reportagens (as “Fake News”) contendo acusações, até aqui, infundadas. A dor e o luto de uma família inteira foram solenemente ignorados por um exército de analfabetos funcionais e intelectualmente desequilibrados, incapazes de verificar a procedência e a veracidade dos fatos que lê antes de compartilhá-los. Essa direita decidiu justificar os bandidos pelos óculos ideológico usado pela vereadora. Vídeos, montagens e textos serviram como armas de guerra para imputar em Franco a culpa por sua própria morte. A falta de compaixão e desonestidade da direita facebookeana se tornaram tão repreensíveis quanto o oportunismo eleitoral da esquerda. O que era para ser um debate de ideias, com argumentos e refutações, tornou-se num palanque para a propagação da baixeza moral e intelectual que atinge uma gigantesca massa de pessoas de diferentes correntes políticas. Se a esquerda é repugnante, a direita manifestada nas redes sociais também o é.

Eis, portanto, algumas conclusões minhas após observar tudo isso.

Primeiro, o debate esquerda-direita é incapaz, insuficiente de oferecer as respostas que todo esse caso simboliza para um país desnorteado. Dizer que o problema da segurança pública é a falta de oportunidade aos mais pobres e que os criminosos são, a priori, vítimas de uma sociedade desigual e elitista é terrivelmente simplista. Por outro lado, é nonsense afirmar que a solução para o caos que vivenciamos é transformar o Brasil em um estado policial e que a ideia de que “bandido bom é bandido morto” carrega em si mesma o remédio definitivo para uma criminalidade quase onipresente. Se não superarmos essa bipolaridade retardatária, os que lamentam a morte de policiais continuarão a atacar quem se cala diante dela, da mesma forma que os que lamentam a morte do brasileiro comum, oprimido dentro das favelas, criticam os que só se revoltam pela morte dos cidadãos de farda. A comoção seletiva é uma doença que atinge tanto a esquerda quanto a direita. Além disso, somente pela superação desse comportamento doentio que será menos corriqueiro abrir os jornais para ler insanidades como a que diz que a intervenção federal matou Marielle, ou que seus algozes eram outrora seus parceiros de crime.

Segundo, nenhuma ideologia consegue atingir o cerne do problema que nos aflige. Limitam-se a atacar os efeitos. Identificam a febre, mas são cegas para a infecção. O prolema é mais complexo do que pintam. E sua solução é ignorada. Ambas ideologias erram em afirmar que o mero acesso à informação pode transformar boçais em cidadãos. Isso porque acreditam que a mudança de fatores externos (sociais, econômicos, políticos e educacionais) podem erguer uma sociedade imune a mazelas. Para isso recorrem ao estrangeiro em busca de países que sirvam como modelos que reforcem sua tese. Em Mateus 15:19, contudo, Jesus aponta o problema que se apresenta invisível tanto para a esquerda quanto para a direita. Senão vejamos:

Porque do coração procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias”.

Curiosamente, dois desses males citados por Jesus manifestaram-se no caso da vereadora carioca. Ambos ligados diretamente aos mandamentos de Deus. Refiro-me ao homicídio e à prática do falso testemunho – o sexto e o nono, respectivamente. A esquerda disse que o assassinato de Marielle se deveu à política de Michel Temer para a área de segurança pública. Dilma Rousseff afirmou que o impeachment sofrido por ela contribuiu para a morte de Franco. Marcelo Freixo, deputado pelo mesmo partido de Marielle, colocou na conta da intervenção na segurança pública a responsabilidade pelo sangue dela. A esquerda, como a direita, soube bem disseminar fake news ou falsos testemunhos.

A direita acusou a esquerda de romantizar a figura do traficante de drogas. A esquerda lembrou que mais investimentos em educação e ação social teriam poupado a vida de Marielle. A direita replicou reafirmando que sem a valorização do trabalho policial, sem leis penais mais rígidas e menor tolerância ao crime organizado não será possível evitar novas mortes como essa. Como se vê, embora ambas consigam apontar soluções que, historicamente, mostraram-se eficazes no combate ao crime, elas não lidam com a causa primária de todos esses delitos. Portanto, ambas são limitadas, e apoiar-se em uma delas ou confiar a elas a explicação de toda a realidadesignifica cometer suicídio intelectual. É abrir mão do pensamento.

O que há de comum entre o autor dos disparos e os internautas que disseminaram boatos envolvendo o nome de Marielle Franco? Um coração escravo, meu amigo. Porque do coração procedem tanto os homicídios quanto os falsos testemunhos. É isso que a nossa geração secularizada, industrializada, tecnologizada e desafeiçoada ignora diuturnamente. É para isso que os analistas de esquerda e direita são completamente cegos. Burke, Marx e Freud não viram isso, igualmente. Por isso, a melhor análise social é a que emana das Escrituras. Jesus diagnosticou o real problema de todo ser humano: ele está caído. Não é o que deveria ser. Porque não consegue. Porque ele é escravo de um misto de desejos, todos pecaminosos. Nossas passeatas pela paz, nossas camisas brancas na Avenida Atlântica e as pombas lançadas jamais terão o poder de alterar esse quadro. Muito menos qualquer militância de facebook.

Precisamos abrir os olhos para um desastre anterior ao que vitimou a Marielle Franco. Ele ocorreu no dia em que abandonamos Deus para a compreensão da nossa realidade. A Bíblia chama isso de Queda, descrita no episódio em que Adão e Eva optam por comer do fruto proibido. Foi uma atitude de emancipação de Deus, que os criara. Seus efeitos são notórios e levaram Jesus Cristo à cruz para uma remediação. Esse é o cerne da mensagem do Evangelho.

O que ocorreu no Éden ecoa aqui no Rio de Janeiro. Ao declarar nossa independência de Deus, “assassinamos” Sua memória. Ao “matarmos” Deus, encomendamos o nosso próprio funeral. E a morte do homem para Deus é uma herança que todos carregamos. Ela é, de fato, a maximização da decisão de “ser o que quiser ser”. É o governo do coração, que se tornou o depósito dos males que afligem a nossa espécie. Assim, as atrocidades que testemunhamos tem uma lógica cristalina. Se é insano esperar coletar água potável de uma fonte contaminada, o é igualmente a esperar por dias melhores numa era que prega o governo do EU, a partir de um coração enfermado pelo pecado. Por isso somos vítimas de nós mesmos. Porque insistimos em confiar nos desejos que brotam do nosso coração. A a afirmação bíblica de que há uma predisposição interior em todos os homens que os impele à prática do mal, real e concreto é empírico. Os jornais testemunham isso diariamente. E esse mal se concretiza tanto na vida privada quanto, em maior proporção e como resultado de um somatório de ações, na vida pública. Logo, a desordem social é inerentemente provocada pelo pecado.

E o que vemos e lemos sobre isso? Nada. A esquerda analisa a direita, tentando refutá-la. A direita faz o mesmo com a esquerda. O tamanho do estado é discutido, a liberdade econômica é debatida, o papel da escola é pauta de inúmeros congressos, a autonomia do indivíduo é defendida mas o coração permanece desprezado. Acostumamo-nos com o cinismo que ignora as motivações que impulsionam as nossas ações. Ensinamos a mentira de que a ordem social e econômica será capaz de eliminar a doença do coração. Acreditamos que desejos pecaminosos podem produzir a tão sonhada convivência harmônica entre os povos. Essa é a base do ensino da sociologia, antropologia e psicologia, ciências que fornecem grande parte do embasamento teórico que sustenta essas ideologias. Essa ingenuidade doentia Jesus fez questão de atacar com o seu diagnóstico do coração humano. Isso faz do verdadeiro cristão alguém realista e vacinado contra ideologias que pregam uma solução final ou um salvador humano.

Igualmente curioso é o fato de Jesus associar ao coração humano ações que são o exato oposto do recomendado pelos mandamentos de Deus. No versículo citado, pelo menos cinco violações dos Dez Mandamentos são citadas como consequência de um coração caído. A lição é evidente: não haverá rumos de mudança enquanto não voltarmos para Deus em arrependimento e fé. O governo do coração só produz o que estamos cansados de presenciar nos ônibus, nos bancos, nas ruas, nas favelas e nos prédios. O distanciamento de Deus, caracterizado pelo distanciamento da sua Lei, terá como resultado único a desordem. É algo que nenhuma ideologia, partido ou sistema político pode solucionar. Os “homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” é a marca de uma sociedade que trocou o temor a Deus pelo pecado. Ela é, em si mesma, a recompensa por essa troca.

Paulo chama essa recompensa de “merecida punição” (Rm 1:27). Portanto, o que já há tempos experimentamos no Brasil é o resultado natural de um povo que decidiu viver deliberadamente contra Deus nas esferas privada, pública e política. Um de povo intelecto, afeições e vontades governadas por seu próprio coração. Um povo que trocou o conhecimento de Deus por uma sabedoria que se mostra, dia após dia, louca. Importamos da Europa e dos EUA o mesmo debate que transforma aquelas terras, outrora frutíferas, em imensos desertos onde reina a escassez de paz. Do homem consigo, com o próximo e, claro, com Deus. Somos o povo que trocou a glória de Deus pela glória do homem – na declaração de sua independência absoluta de qualquer vontade divina. Um povo que oprime a verdade pelo exercício da injustiça. Dizendo-se sábio, esse povo tornou-se louco. O resultado é multifacetado. É, digamos, bizarro (como alguém já disse, os jornais mostram as ações de Deus em um mundo debaixo de juízo).

Por isso, o Brasil está cheio de “ toda a injustiça, malícia, avareza, e maldade”. Está “possuído pela inveja, homicídio e contenda, dolo e malignidade”. É “difamador, caluniador, cheio de ódio por Deus, insolente, soberbo, presunçoso, inventor de males, desobediente aos pais, sem afeição natural e sem misericórdia” (Rm 1:29-31). Essa descrição do Brasil não é a causa, mas a consequência de um povo que abandonou a Deus e foi abandonado por Ele. Cunhas, Lulas, Calheiros e Dirceus, para não citar todos, são os frutos colhidos por uma geração de coração duro e obstinado. Só o arrependimento e a fé para reverter isso. O desastre que foi a morte de Marielle Franco evidenciou um desastre ainda maior, mas que recusamos admitir. Esse desastre é o pecado que vitima a todos sem exceção. Ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres ninguém escapa ele. Toda análise, então, que insistir em ignorá-lo apenas dará lugar a mais superficialidade, falta de compaixão desordem pública.

Mas tudo isso não me impede de lamentar muito pela morte de um mais ser humano, que possuí a imagem de Deus (Gn 1:26). Embora eu não compartilhe do remédio que impulsionava Marielle Franco. Solidarizo-me com a família dela, com as famílias dos policiais militares e com a família do Benjamim, todos mortos no mesmo período. Todos eles são sangue do meu sangue. E uma parte do meu se foi com eles.

Anúncios

Sobre Blog do Lino
Sou filho de Deus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: