Uma nova EBD


7F9B61F7-46AD-4C27-9483-86E83BA4D062Por mais de uma ocasião eu já pude testemunhar relatos de professores de Escola Bíblica Dominical — atuando em diferentes denominações, de diferentes tradições teológicas — compartilhando suas experiências e como eles conduziam o processo de aprendizado de seus alunos. E uma tendência me chamou a atenção: o desprezo pela certeza acerca da verdade.

Conforme me relataram, eles viam como saudáveis em seus ouvintes — alunos, discipulandos, catecúmenos ou como queira — tanto a perpetuação da dúvida quanto a ideia de que a verdade não está acessível. Como assim? Um deles citou uma experiência de sala de aula em que duas opiniões completamente incompatíveis sobre determinado assunto bíblico foram reputadas como válidas. Segundo ele, elas se tratavam de opinões pessoais que mereciam respeito e não análise. Ou o elogio dado a um irmão que afirmara que não sabia sobre um determinado assunto, ao que ele foi elevado à exemplo de humildade perante os demais irmãos. O que há de comum nesses dois exemplos? A busca pela verdade é irrelevante. Parece que temos uma nova EBD surgindo (aqui eu faço menção às Escolas Bíblicas Dominicais por seu significado histórico como um lugar onde se transmite para as novas gerações o ensino bíblico, mas ela pode representar qualquer reunião ou modelo que tenha esse propósito).  E a nova EBD não tem certeza da Verdade. 

Que há uma crise abismal no ensino bíblico brasileiro não restam muitas dúvidas. Há uma fartura de púlpitos mal instruídos, confusos e entediantes, moldados ao espírito da época e limitado a verdades agradáveis a ouvidos com comichões. De professores a pregadores, de recém-convertidos a membros experientes, todos experimentam essa triste marca dos nossos dias. Há ignorância para todos os gostos e tipos. Ela é não é um privilégio de uma só denominação, mas de todas, independente de sua tradição teológica. O antigo evangelho está no porão das nossas igrejas.

Por isso, algumas velhas perguntas precisam ser feitas e respondidas para pensarmos em deixar esse panorama para trás. Primeiro, esse método que torna a verdade irrelevante é bíblico? Segundo, que tipo de cristãos esse tipo de ensino entrega à igreja local? Por fim, qual o modelo bíblico para a instrução bíblica? A resposta para cada uma dessa perguntas não é, obviamente, exaustiva. Meu objetivo é que elas iniciem em nós uma reflexão sobre o exercício do sagrado ministério de ensino numa era que cultua a ignorância, a incerteza e a conveniência. É por semear a dúvida e o ceticismo como virtudes que formaremos discípulos (formar no sentido relacional e não soteriológico) prontos para cumprir o chamado de Cristo à renúncia e à obediência? É certo que não.

Antes, preciso manifestar minha profunda preocupação com o aumento da influência do pós-modernismo dentro das nossas igrejas. E pelo que tenho percebido, ela vem como um Cavalo de Tróia para dentro das nossas congregações. Oramos e incentivamos nossos jovens a conquistarem vagas nas universidades, sem darmos a eles o mínimo preparo teológico para que eles saibam lidar com os desafios intelectuais e questionamentos a que serão submetidos no campus universitário. Muitos desses jovens cristãos que iniciam seu estudo superior são os pioneiros do seu meio eclesiástico e, portanto, tidos como referência para os demais. Sentimentos mesclados de certa superioridade intelectual e espiritual formam a plataforma que muitos desses discipuladores utilizarão para ensinar a outros da sua congregação.

Assim, eles retornam à igreja, via de regra já doutrinados por cosmovisões estranhas, com status de autoridade para ensinar assuntos de caráter teológico referendados, digamos, por seus estudos em geografia. Lamentavelmente isso passa despercebido tanto pelo público que recebe o ensino quanto pela liderança que aprova sua empreitada.

Eu manifestei essa preocupação porque, pelo o que vejo, é essa sistemática que tem sido uma porta de entrada para o pós-modernismo. Em suma, essa filosofia é caracterizada por sua descrença numa verdade objetiva e tangível. Segundo essa linha de pensamento, a verdade é a verdade de alguém em um determinado lugar e cercado por determinadas circunstâncias. Ou seja, a verdade, se é que ela existe, só pode ser relativa. E a minha verdade não necessariamente tem de ser a do meu irmão e vice-versa.

Sem notar, muitos cristãos abraçam e já defendem esta cosmovisão sem, contudo, perceberam quão perniciosa ela é. Ela é a grande responsável pelos dois exemplos que citei no início. O pós-modernismo tanto louva a incerteza quanto a inexistência de uma verdade objetiva. Assim, ela valida o A e o não-A como respostas aceitáveis para uma mesma situação.

O método bíblico de ensino parte do princípio de que há uma verdade objetiva, tangível e que é referência para analisar, aceitar ou rejeitar as demais. Nesse sentido, o trabalho básico do professor cristão, seja na EBD, seja nos pequenos grupos ou em uma pregação, é levar seus ouvintes ao contato com essa verdade. Se ele rejeita a ideia de que há uma verdade, então ele não está à altura do seu chamado e muito menos pode se dizer seguidor de Cristo, que ensinava a verdade sem se preocupar com a aparência ou reação dos seus ouvintes (Mt 22:16). Lucas, o autor do Evangelho que leva o seu nome e do livro de Atos pode nos servir como um exemplo notável. Escrevendo a Teófilo, ele pontua:

“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.” (Lucas‬ ‭1:1-4‬).

Algumas palavras merecem nossa atenção. Com “fatos”, “testemunhas”, “ministros” e “acurada investigação” podemos aprender que o ensino do evangelho jamais será o ensino de uma fábula. A História, a razão e o intelecto compõe o ensino cristão. A lição é direta: o professor, pregador ou discipulador cristão é alguém que entrega aos seus ouvintes verdades sobre Deus e o modo como ele se relaciona conosco através de Jesus Cristo. Por outro lado, com “coordenada”, “exposição” e “ordem” aprendemos que há um método eficaz de transmissão a ser utilizado. Com qual propósito? “Para que tenhas certezas das verdades em que fostes instruído”. Logo, o que o exemplo de Lucas nos ensina é que a convicção e a verdade podem ser alcançadas por todo aquele que se propõe a seguir a Cristo. Portanto, a dúvida e a contradição devem ser tratadas. O cristão é alguém que conhece bem o objeto da sua fé (2Tm 1:12).

Se o que foi mencionado acima for rejeitado (como tem sido, infelizmente), precisamos refletir sobre outra pergunta: que tipo de cristãos esse tipo de ensino produz?

A instrução pautada na incerteza, que entrega uma Bíblia complexa, um Jesus distante e um Deus impessoal só pode produzir uma fé débil. Especificamente sobre os exemplos onde a contradição e a ignorância são tratadas como virtudes, eles geram crentes como uma fé que abraça o relativismo moral, intelectual e religioso. Ao refletir sobre sua fé, esse tipo de cristão é capaz de considerar o cristianismo como uma religião dentre tantas outras válidas, a salvação sendo possível além da fé em Jesus e a moral cristã mais uma opção pela qual se pode viver. Ele, portanto, exerce uma fé trivializada. Ela não move sua vida e muito menos é capaz influenciar outros. É uma fé marginal. Serve apenas para momentos de emergência, como um amuleto contra males invisíveis. Não é uma fé que ocupa todo o espectro da vida e sequer pode responder aos seus dilemas.

Dentro das nossas igrejas, os sintomas são igualmente terríveis. Imaturidade, invejas, disputas e provocações, pouco envolvimento e comunhão frágil. Um cristão que foi educado a considerar suas dúvidas e ignorância bíblica como virtudes espirituais não terá o senso de pertencimento a um Reino que transcende todos os poderes humanos e não será capaz de julgar está vida a partir dos valores eternos tão caros a nós neste mundo caótico. Ele também não se lançará a empreendimentos santos como fazer discípulos ou se envolver em evangelismo. Sem uma fé robusta e uma cosmovisão sólida, não poderá contribuir com o ensino da sua congregação. Ele apenas engordará as estatísticas dos cristãos de vida dupla: dentro da igreja levando uma vida medíocre e fora dele vivendo como se Deus não existisse.

Quando diminuímos a importância de um ensino bíblico que dê conta de responder às questões do nosso tempo e capaz de gerar certezas eternas, o que fazemos, na verdade, é semear no Reino de Deus árvores sem fruto.

Finalmente, quais devem ser as preocupações de um ministro diligente, cuja vontade é ver um maior número de cristãos instruídos e capazes de responder àqueles que lhes pedem as razões da sua esperança (1 Pe 3:15:16)?

Primeiro, há um sentido no texto. Mesmo predominando o pluralismo filosófico e a descrença na verdade, podemos chegar ao sentido que os autores bíblicos pretendiam para os textos que escreveram. Podemos ter certeza disso pela Inspiração e pela Inerrância bíblicas. Deus não nos entregou um livro incoerente, mas todo seu conselho (At 20:27). O episódio do eunuco etíope (At 8:26-40) é uma lição permanente sobre isso. Não apenas há sentido no texto, como qualquer um pode chegar até ele! Não há nada mais decepcionante ver alguém manuseando o texto bíblico com incredulidade e desdém. Geralmente são as mesmas pessoas que exaltam polêmicas sobre o evangelho mas que são incapazes de defendê-lo de forma consistente.

Segundo, todo o texto bíblico transmite verdades das quais podemos nos apropriar com segurança e confiança. “Tu estás perto, Senhor, e todos os teus mandamentos são verdade” ‭‭(Salmos‬ ‭119:151‬). São elas que nos movem e por elas somos avaliados por aqueles que nos ouvem. É impossível não reconhecer quando alguém tenta parecer apaixonado transmitindo verdades que não crê e não vive por elas. É uma experiência terrível presenciar um ministro descrente pregando.

Terceiro, a verdade é sempre atual. Uma tentação recorrente é ver insuficiência nas Escrituras para os mais variados dilemas que testemunhamos. E essa tentação nos empurra para o perigo de abraçar, como um complemento, ideologias anticristãs e ateístas, muitas maquiadas com uma falsa sinceridade, virtude ou coerência intelectual. Outra tentação é buscar uma terceira via que una o cristianismo e outras ideologias a fim de apagar o escândalo do evangelho, mesmo sendo essa via absurda e incompatível com a Bíblia. É lamentável ver cristãos confiando mais nas análises humanistas e naturalistas da sociologia, filosofia, psicologia e antropologia e relegando toda herança teológica de dois mil anos a segundo plano. Antes de todas essas ciências terem sido lançadas a status de inquestionáveis, Deus já conduzia uma civilização inteira sob seus mandamentos. A Bíblia e a História são testemunhas de que os mandamentos de Deus sempre se fizeram presentes como um recurso infalível em meio a dores, sofrimentos e perdas.

Por fim, quando compreendido, o Evangelho nos fornece uma visão sólida que nos permite entender o mundo adequadamente a partir das Escrituras. Ele nos capacita a responder a todo aquele que nos pedir razão da esperança que há em nós. E, convenhamos, a Igreja parece órfã nesses dias de cristãos dessa envergadura. Não apenas chegamos ao nível de conhecimento bíblico mais raso que se tem registro na história da igreja. Antes, passamos a propagandear a superficialidade como modelo de vida cristã. Nossa única certeza é que não se pode ter certeza. Tiramos o mundo para dançar a música do ceticismo apesar da inesgotável riqueza que achamos na Palavra de Deus. Quantos podem repetir com a mesma sinceridade e profundidade o cântico de Paulo em Romanos 11:33-36? Eu duvido que alguém assim possa ser achado em muitas reuniões de domingo de manhã, incluindo as que citei no início do texto.

Pregador, professor, discipulador, líder de grupo: abra a Bíblia para quem confia a você a instrução de sua alma!

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Sou filho de Deus.

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