Pastores isentos


silencio1Tenho percebido em minha timeline no facebook quão perniciosa é a pastores e teólogos uma fé dissolvida pela ideologia política. Refiro-me exclusivamente àqueles que ergueram as bandeiras da moral socialista quanto ao emprego, à desigualdade social e à política. Picados que foram pelo mosquito da superioridade moral (sentem que sua teologia e pregação são mais refinadas e puras por dar a elas uma moldura socialista), não hesitam em vociferar contra as mazelas deste mundo tenebroso em que vivemos.

Seus posicionamentos são claros, articulados e direcionados a toda hipocrisia das pessoas com o pobre e o necessitado, mesmo que esta resida no seio da igreja (nem vou comentar o esforço silencioso e hercúleo dessa mesma igreja anônima). Contudo, essa clareza e objetividade se perdem tão logo são obrigados a comentar assuntos que evidenciam a separação entre a cosmovisão cristã e a esquerdista. Por exemplo, um conhecido pastor que não esconde sua opção pelo marxismo emitiu uma nota sobre a questão dos transgêneros que é qualquer coisa menos uma nota de posicionamento. Ler dez vezes talvez não seja suficiente para concluir qual é a visão do referido pastor sobre o assunto.

Este artigo é uma crítica à seletividade moral de muitos líderes cristãos que arrastam atrás de si uma multidão de pessoas.

Como eles pensam

Em geral, esses pastores militam na TMI – Teologia da Missão Integral. É uma teologia difícil de definir dada a diversidade de seus interlocutores. Na mesma TMI, há pastores ortodoxos e liberais, confessionais e contra a igreja institucionalizada, calvinistas e arminianos, progressistas e conservadores. Logo, definir o pensamento desses pastores é mais difícil do que entender o guarda-chuva teológico que une a todos.

Mas essa diversidade não é o problema, assim eu vejo, da TMI. É-o a sua tentativa de dar uma nova roupagem à Teologia da Libertação, de criar uma irmã gêmea dela nos arraiais protestantes. Sem qualquer cerimônia, admite que se apoia nas premissas marxistas para a solução das disfunções socioeconômicas presentes na América Latina.

O referencial marxista, somado ao descompromisso com a ortodoxia cristã, formam o terreno fértil para a ambiguidade intelectual, ou mesmo uma suposta isenção, nos assuntos em que a ética cristã colide frontalmente com a agenda moral da esquerda cultural. Além disso, não se pode descartar o fato de que a TMI aglutinar em seus limites os ditos cristãos progressistas, que abraçaram a dialética marxista e militam por um cristianismo desprovido de verdades, aberto às novas interpretações e a uma hermenêutica baseada nos conflitos sociais.

Isso explica, por exemplo, pastor defendendo o casamento homossexual, o feminismo, o aborto e a legalização das drogas. Para eles, a Bíblia é um livro cheio de problemas, como o machismo e o preconceito sexual, e precisa ser depurada pela ótica marxista.

Assim, é difícil definir qual é visão teológica da TMI. É mais fácil citar as diferentes correntes teológicas que ela admite como ferramentas para sua luta. É, a meu ver, uma teologia que sustenta sua unidade pelo erro e não pela verdade.

O que eles dizem, ou não dizem

Como sigo diversos pastores e teólogos que dialogam ou representam a TMI, consigo já perceber uma tendência em seu discurso, sobretudo em função dos últimos acontecimentos e polêmicas das redes sociais, que puseram em lados opostos cristãos e esquerdistas. E essa tendência é a ambiguidade, ou a isenção. São os pastores isentões. Como eles falam para um público diverso, que não possui um consenso definido em questões morais e políticas, eles acabam por optar pela neutralidade – pelo menos tentam. E fazem isso para tentar poupar sua reputação de questionamentos. Contudo, não percebem que mesmo o silêncio fala muito alto.

Nas questões econômicas, dizem-se a favor do livre mercado, mas apelam a um estado com mão forte; no cenário político brasileiro, negam-se a dizer “Fora Temer”, mas gritam disfarçadamente “foi golpe”. Não se dizem de esquerda, mas flertam com partidos e políticos que exaltam o regime de Nicolas Maduro. Dizem ser a favor da vida, mas afirmam que a mulher é soberana sobre seu corpo. Alguns dizem ser contra o aborto para posteriormente justificá-lo com a realidade da saúde pública brasileira. Mantêm silêncio diante do casamento homossexual e reagem a perguntas sobre o assunto acusando a igreja de maior pecado, o da hipocrisia com os seus próprios. Quando questionados sobre a arte pedófila do Queer Museu, retrucam com os episódios lamentáveis de pastores presos por pedofilia. Isto é, a moralidade esquerdista é automaticamente redimida pelos pecados da igreja.

Essa estratégia sintética é bem característica. Cristiano Machado, pastor da Igreja do Armazém, declarou o seguinte: “Em termos teológicos, você vê alguns momentos em que Paulo se opõe à homossexualidade, Moisés também cita que a homossexualidade é pecado. Eu compreendo, mas não sei explicar por que é pecado”1. Então, ele questiona: “Se o [Marco] Feliciano pode subir ao púlpito e pregar, por que o homossexual não poderia?”. Perceba que a crise que o Cristiano enxerga não é a sua ignorância teológica, mas o fato do Feliciano pregar. Novamente, nesse raciocínio, um pecador tem o seu pecado justificado por outro.

Essa mesma postura torna suas pregações ricas em temas como a justiça e a desigualdade social, com acusações ao descontrole da violência e com a política de combate às drogas, mas nada têm a dizer sobre os fundamentos da fé cristã. São contra a pobreza, mas se esquivam de textos que vão de encontro com revolução afetiva; são contra o púlpito que prega a moralidade cristã para o casamento e a família, mas abrem exceção para a agenda moral esquerdista. Citam a carreira de profetas do Antigo Testamento que acusava a indiferença de povo em relação ao pobre, à viúva e ao órfão, mas omitem que os mesmos profetas denunciavam a epidemia da imoralidade sexual e da idolatria que reinava em Israel. Citam Habacuque, mas se esquecem de João Batista. São apegados à parábola do Bom Samaritano, onde o ferido ganha várias personalidades – desde um homossexual vitima de homofobia até a uma mulher que não pode abortar – mas tapam os olhos para o endosso que o próprio Jesus fez ao casamento heterossexual. São pregadores de moralidade manca.  Sentem-se felizes em denunciar a pobreza e a escravidão, mas desconfortáveis em manifestar-se sobre a homossexualidade. David Platt sintetizou bem esse zelo seletivo:

“Todavia, embora eu me sinta profundamente encorajado pelo zelo manifestado por tantos cristãos em relação a certas questões sociais, preocupo-me com a falta de zelo entre esses mesmos cristãos (especialmente, embora não só, entre os evangélicos mais jovens) por outras questões sociais. Certas questões que têm mais apelo popular, como a pobreza e a escravidão, em relação às quais a ação social costuma render aplausos e elogios aos cristãos, rapidamente nos mobilizam e nos levam a erguer a voz. Contudo, em questões polêmicas, como a homossexualidade e o aborto, pelas quais, nós, cristãos, costumamos ser criticados, contentamo-nos em ficar mudos e de braços cruzados. É como se tivéssemos decidido quais questões sociais confrontar e quais tolerar. E as escolhas que fazemos são as mais cômodas – e menos custosas – para nós em nossa cultura”2.

Problemas

Eu vejo três grandes problemas na tentativa de alguns pastores preservarem sua reputação por meio de uma pretensa neutralidade diante de temas controversos.

Primeiro, ela é uma ilusão. Porque a neutralidade é um mito. Tentando não tomar partidos, muitos pastores estão indicando, mesmo sem emitir opinião, preferências ideológicas e políticas contrárias a Bíblia. Em geral, quem costuma dizer que não é nem de esquerda e nem de direita, prescreve os mandamentos socialistas. Pelo que já pude perceber, quem diz não ser nem de Marx nem de Burke costuma considerar como remédio para as mazelas sociais as receitas marxistas. Tentando parecer isentos, muitos pastores denunciam as causas que realmente defendem.

Segundo, ela denota covardia. Porque a Bíblia nos chama a combater as obras do mal (Efésios 5:11), sejam elas quais forem e mesmo que estejam escondidas sob a capa da virtude moral. Ao abraçar a neutralidade, esses ministros castram os seus ministérios de qualquer traço de luta contra os principados e potestades a serviço de Satanás. Porque a tese de que nem todo ser humano cabe na moralidade cristã, para justificar uma postura alheia aos temas polêmicos, significa dizer que alguns estão fora dos olhos de Deus, o que é uma mentira. O Evangelho chama a todos ao arrependimento da autonomia de Deus.

Terceiro, é uma idolatria. A maioria dos pastores que acompanho pelo Facebook já possuem um ministério consolidado, com uma reputação construída há décadas e já fidelizados a uma audiência diversificada e que extrapola os limites da sua denominação. Têm livros escritos, são famosos no Youtube e têm púlpito garantido quase todo final de semana. Internamente, construíram sua reputação combatendo os excessos do neopentecostalismo e da teologia da prosperidade, mostrando certa desenvoltura para comentar os problemas mais comuns da igreja brasileira. Externamente, conquistaram o público avesso à religião institucionalizada com críticas aos desvios de propósito da igreja atual em contraste com a prática da igreja do período apostólico, com o intuito de resgatar a simplicidade da vida cristã.

A fim de não desagradar um público tão diverso em propósito e visão, viram no politicamente correto um bom abrigo para defenderem sua reputação. Porque ela se tornou em um deus. Ela é a medida de seus esforços ministeriais. A defesa do pobre e a ambiguidade de posicionamento na questão dos transgêneros são, na verdade, esforços para manter o número de seus seguidores virtuais.

Embora sejamos testemunhas de uma mudança avassaladora na vida pública, que desafia enormemente o papel e a atuação da igreja nesse tempo, o básico não podemos esquecer jamais: “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2 Co 13:8).

 Referências

  1. http://www.socialistamorena.com.br/evangelicos-progressistas-gracas-a-deus/
  2. Contracultura, David Platt. Editora Vida Nova. Pag 15.
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