Quando os pregadores desonram a Palavra de Deus – por John Piper


pregaçãoA Reforma Protestante foi uma recuperação do púlpito, e mesmo após quinhentos anos existem pregadores protestantes que involuntariamente desonram a Bíblia no púlpito. O que norteia a pergunta de hoje*, vinda de um pastor anônimo:

“Pastor John, eu faço parte da liderança da minha igreja e tenho percebido, nos últimos dois meses, uma tendência na pregação do meu pastor. Primeiro, eu faço questão de dizer que nada do que ele diz poderia ser considerado como errado. A questão é que ele costuma abordar temas genéricos das Escrituras em seus sermões. Via de regra, ele prega a verdade, mas seus tópicos raramente são retirados do texto lido no início da pregação. Isso é um problema? O que está em jogo? Esse fenômeno é comum ou é uma anomalia?”

Em resumo, a resposta para essas três perguntas é (1) Sim, é um problema, (2) É muito comum, tragicamente, e (3) pelo menos seis coisas estão em jogo.

O texto fala

Primeiro, a pregação que não mostra ao povo o que o texto significa e quais são as implicações dele para nossas vidas está falhando em honrar a natureza do texto, ou seja, a gloriosa revelação de Deus da qual nós precisamos conhecer e como ela se relaciona com a nossa vida.

Ela falha em honrar o texto como falha em honrar as pessoas na congregação para quem seriam mostradas, pela pregação, como elas mesmas podem ver as gloriosas verdades do texto e como ele é relevante para suas vidas.

Paulo disse em Efésios 3.4: “Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo”. A pregação que mostra o resultado da leitura – que vê o mistério de Cristo no texto e ajuda os outros a verem também – é a verdadeira pregação. Pregação é a proclamação dos frutos da leitura que enxerga o mistério de Cristo no texto e ajuda outras pessoas verem como nos vemos.

Os pastores que não pregam dessa jeito estão perdendo o privilégio de serem um instrumento nas mãos de Deus para ajudar verdadeiramente as pessoas a verem por elas mesmas as glorias dos mistérios de Cristo sua importância para a vida.

Um sinal nada saudável

Segundo, os pregadores que não exultam na exposição daquilo que eles viram no texto bíblico estão agindo como testemunhas (1) da sua própria preguiça porque eles não gastaram tempo suficiente no texto para ver nele os mistérios de Cristo, (2) sua insensibilidade ao texto porque eles não são capazes de perceber, ou (3) suas próprias incapacidades emocionais porque eles veem algo no texto, mas não podem sentir nada de especial sobre ele. Então, por que eles falariam sobre isso? Como alternativa, eles irão destacar aquilo que eles mesmos consideram especial. E isso é algo do qual não eles podem se orgulhar. Isso não pode ser considerado criatividade.

Essas são fraquezas que devem ser corrigidas e superadas. Nós devemos orar fervorosamente pelos nossos pastores para que a preguiça, a insensibilidade ao texto e a fraqueza emocional sejam vencidas. Em outras palavras, isso não é apenas prejudicial à igreja. É profundamente prejudicial ao pastor.

De quem é a autoridade?

Terceiro, pregar sobre temas que ignoram o texto e que não estão evidentemente baseados nele diminui a autoridade da passagem e a autoridade da mensagem. Evidentemente baseado ou obviamente baseado é a frase chave aqui. A única autoridade que o pastor possui é derivada de sua fidelidade em transmitir a palavra de Deus. Ela não vem dele mesmo.

Isso é importante. Guarde isso. Quando maior a dificuldade que as pessoas têm de ver presente no texto os tópicos abordados pelo pastor, menor garantia elas terão para acreditar no que ele diz. Porque é o texto que tem a autoridade final e decisiva. Se as pessoas não podem ver no texto o que o pastor está dizendo, então não há razão pela qual elas deveriam acreditar nele.

E a situação pode piorar. O pastor pode efetivamente querer desviar a autoridade do texto para si mesmo e por isso alargar sua própria influência pessoal. Então ninguém poderá questioná-lo porque ele desviou a autoridade da palavra – a qual todos têm acesso – para ele mesmo, a fim de que ninguém possa questioná-lo.

Oh! Eu amo a liderança enraizada no texto bíblico e no púlpito em que o pastor diz: “eu não a autoridade final e decisiva. Qualquer um que veja a palavra mais claramente do que eu pode me corrigir”.

Ventos de doutrina

Quarto, um pastor que prega temas que não estão presentes no texto está conduzindo seu povo a uma apostasia bíblica e doutrinária em um futuro breve.

Se as pessoas são habituadas a basear seus julgamentos bíblicos e doutrinários sobre aquilo que é correto, verdadeiro e belo a partir das declarações de homens mais do que elas mesmas veem nas Escrituras, então essas pessoas serão levadas pelos vários ventos de doutrinas que sopram em nossa cultura (Ef 4:14).

Crentes frouxos

Quinto, uma colocação diferente mas quase idêntica à anterior, um pastor que prega sem prestar atenção aos detalhes do texto, como uma garantia e base para os seus tópicos, acabará por treinar sua congregação a ser negligente e desatenta aos ensinos morais e espirituais que as Escrituras têm para sua vida.

Esse comportamento do pastor produz um povo (e eu tenho visto isso) que se mostra negligente e frouxo em seus julgamentos morais. Eles se acostumaram às generalidades e à imprecisão. E a generalidade e imprecisão nas questões morais mais difíceis produzem crentes frouxos que não têm estrutura nem os principais argumentos para um defender os ensinos das Escrituras em relação aos temas controversos.

Alegria de Jesus

Por fim, e sexto, esse tipo de pregação, que cria seus temas sem o fundamento do texto lido, acaba por roubar do povo um tipo de alegria que Jesus pretende para ele quando Ele diz, em João 15:11, “Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo”.

Esse texto não quer dizer que o incomparável gozo de Jesus se tornará nosso quando o pastor está fazendo comentários interessantes sobre questões importantes no mundo, mas que não é aquilo que Jesus tinha em mente quando ele proferiu suas palavras. São as palavras de Jesus, e o seu real significado, que transmitirão a nós o seu gozo.

Sim, muita coisa está em jogo quando um pastor costuma construir sua mensagem com temas que não são respaldados pelo texto e muito menos representam a intenção dele.

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* Essa pergunta foi apresentada no programa “pergunte ao pastor John Piper”, disponível no site desiringGod.org.

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