500 anos da Reforma: a Palavra fez tudo


luteroA Reforma Protestante se sustentou em cinco pilares, conhecidos como Cinco Solas. São eles: Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Soli Deo Gloria.

A primeira reconhece somente a Bíblia como fonte de autoridade da verbum Dei (voz de Deus), sobre qual todas as outras devem ser testadas. Nenhuma palavra humana, nenhuma tradição eclesiástica ou mesmo promessa tem valor superior às Escrituras. O primeiro Solas é a afirmação da inerrância e da suficiência da Palavra de Deus.

A segunda é o permanente protesto contra o pluralismo religioso dos nossos dias. “Cristo é o único caminho de salvação para os que foram, são e serão salvos”, disse Zwinglio, o reformador suíço contemporâneo de Martinho Lutero. É o Solas que nos lembra que somente Cristo é o mediador entre Deus e os homens dizendo que “não há salvação em nenhum outro, porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).

Afirmando o terceiro Solas, os reformadores refutaram o ensino católico romano de que a salvação é um processo sinergístico, isto é, que envolve tanto a participação humana quanto a divina. O terceiro Solas, portanto, resgata o ensino bíblico e a glória de Deus na salvação dos homens ao afirmar que a salvação é somente pela Graça de Deus, do início ao fim. “A salvação pertence ao Senhor” (Jn 2:9).

O Sola Fide, como disse Lutero, é “a pedra angular e o topo. Somente ela concebe, nutre, edifica, preserva e defende a Igreja de Deus. E sem ela, a igreja de Deus não pode existir nem mesmo por uma hora”. Lutero está se referindo à doutrina que deu corpo à Reforma: a justificação pela fé. É somente quando o pecador confia e se apropria da justiça de Cristo pela fé que ele pode ser reconciliado com Deus. Quando entendeu essa questão, Lutero se sentiu entrando nas portas do Paraíso.

Por fim, o Soli Deo Gloria. É a paixão pela glória de Deus, conforme ela é revelada nas Escrituras. Foi esse Solas que formatou os objetivos e as ações dos reformadores, por meio de uma vida que em todos os seus aspectos deveria promover a exaltação do nome de Deus. Com os reformadores aprendemos que glorificar a Deus é o principal propósito da existência humana. É o que nos confere completude existencial.

O objetivo desse artigo é nos lembrar os princípios do primeiro Sola e como ele é o nosso guia em tempos de profunda confusão espiritual. O fato de a Reforma Protestante não ter sucumbido a reis e ao papado romano, mesmo sob um ambiente altamente cerceador de ideias que expusessem a hipocrisia e a corrupção papal, tem uma explicação teológica: o evangelho é o poder de Deus (Rm 1:16). Sendo as Escrituras o repositório fiel do Evangelho, logo é por meio dela que o poder de Deus se espalha pelo mundo.

Isso explica como a descoberta libertadora de Lutero sobre o significado da Justiça de Deus em Romanos 1:17, aparentemente simples e de cunho pessoal apenas, ter se tornado na força motriz que libertou a Europa e o Ocidente do jugo da religiosidade morta da Igreja Católica Romana. Não havia motivação econômica ou mesmo política que fosse capaz de sustentar um movimento de tamanha envergadura por tão longo período até a sua plena autonomia, quando a Igreja já não podia mais contê-lo e limitou-se a defender seus fiéis da influência reformadora. Quem poderia imaginar que 95 teses afixadas na porta de uma igreja próxima a um castelo fossem culminar naquilo que conhecemos como a Reforma Protestante, impulsionando a remodelação espiritual, social e cultural que se seguiu após na Europa e na América desde então? Como prever que um monge aprisionado num castelo, traduzindo a Bíblia para língua do seu povo levaria a uma revolução sem armas e sem exércitos e livraria o povo do pensamento único imposto pela Igreja Romana? O resgate das Escrituras é o fato que explica como um homem com um papel na mão pôde mudar para sempre o mundo.

“A Palavra fez tudo”, concluiu Lutero. A mesma Palavra que trouxe do nada à existência todo universo e seus habitantes, que sacudiu o Egito, que dividiu o mar vermelho e que levou gregos, judeus e gentios a Cristo. A mesma palavra que era escândalo para os judeus e loucura para os gregos, da qual Paulo disse não se envergonhar, essa mesma Palavra liderou o processo de libertar o povo de Deus do misticismo, da idolatria e da prisão do mérito próprio como meio de se alcançar a salvação.

A Reforma marcou o fim do desespero que as pessoas nutriam por Deus; pôs fim à insegurança que elas sentiam quanto a sua condição espiritual, a qual vitimava profundamente a mente de Lutero; ela permitiu às pessoas o acesso a Deus sem a mediação de homens, igualmente falhos, unicamente confiando em Jesus. Ela ensinou aos crentes o Sacerdócio Universal, ensinando-nos que todos temos acesso livre ao Pai por meio de Jesus, que nossa vida inteira, e não apenas nossos atos religiosos, constitui-se num culto permanente a Deus. Ela liberou a Bíblia para a análise de todos sem exceção qualquer, permitindo-nos reaver o espírito bereano, onde cada ensino precisa passar pelo crivo das Escrituras. A Reforma Protestante destronou o Papa e entronizou a Bíblia.

Após ela, Deus pôde ser visto novamente como o Pai amoroso, que perdoa e justifica aquele que deposita sua confiança em Jesus. Ela lançou fora o medo de Deus e devolveu a esperança em Seu amor que nunca falha. Com a Bíblia novamente aberta, reaprendemos o amor de Deus e inevitável foi a conclusão de que esse amor é infalível e imutável: quando Deus ama alguém, ele ama até o fim (Jo 13:1). E não há pecado, dor ou circunstância que o altere. Isso torna a vida cristã numa constante festa. Tudo isso, repito, a partir do momento em que as páginas das Escrituras puderam ser abertas novamente.

Ao devolver a autoridade à Bíblia, os reformadores liberaram ao mundo os oráculos santos de Deus, retidos pela heresia romana. Então, a cristandade pôde novamente cantar: “Então a nossa boca encheu-se de riso e a nossa língua de cantos de alegria. Até nas outras nações se dizia: ‘O Senhor fez coisas grandiosas por este povo’. Sim, coisas grandiosas fez o Senhor por nós, por isso estamos alegres” (Salmos 126:2-3). A Babilônia estava novamente no passado.

Contudo, as Escrituras seguem sofrendo ameaças à sua autoridade. Seja por meio heresias modernas que buscam dar às novas revelações a mesma importância do Cânon Sagrado ou por meio do ceticismo acadêmico (teológico e científico) que busca dar a ela o rótulo de mito. Mesmo assim, ela segue inabalável sob a promessa do próprio Cristo: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mateus 24:35).

Baseados na experiência de Martinho Lutero, o que precisamos relembrar nesses tempos de escuridão em que vivemos, onde, interna e externamente, a Palavra de Deus sofre ataques incessantes?

  1. Não é por força e nem por violência

“Esta é a palavra do Senhor para Zorobabel: ‘Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 4:6).

Nenhuma força humana – pessoal, política ou financeira – pode levar pessoas a Cristo. Comentando os resultados que se seguiram às suas teses, Lutero disse que não havia feito nada, apenas se limitou a ensinar e a proclamar as verdades da Palavra de Deus. Então, “a Palavra fez tudo”, disse ele. Impérios, estruturas religiosas e poderes humanos implodiram com o avanço da Palavra.

“Eu me opus às indulgências e aos papistas, mas nunca pela força. Eu simplesmente ensinei, preguei e traduzi a Palavra de Deus; fora isso, não fiz mais nada. E enquanto eu dormia ou bebia a cerveja de Wittenberg com meus amigos Phillip e Amsdorf, a Palavra enfraqueceu o papado de tal forma que nenhum príncipe ou imperador jamais seria capaz”, disse Lutero.

O tempo presente nos ensina que precisamos adulterar a conteúdo e a mensagem do evangelho para remover o que essa geração de coceira nos ouvidos considera como ofensivo e preconceituoso. O que a experiência de Lutero nos ensina é que somente a fidelidade às Escrituras, e mesmo que isso soe ao mundo como extremismo religioso, é o caminho para colocar as pessoas em contato com as Boas Novas de salvação.

Os ensinos de Lutero sobre o evangelho foram fundamentais para o sucesso do movimento que ele desencadeou meio que sem querer. Sem esses ensinos, as mentes das pessoas permaneceriam cativas na escuridão espiritual na qual a Igreja as mantinha.

Não é ameaçando, cerceando ou oprimindo as pessoas a um sistema religioso que as libertará do jugo do pecado. É tão somente a pregação fiel e o ensino dedicado das Escrituras que farão isso. Comentando Atos 17, Lutero concluiu:

“Quando Paulo chegou em Atenas, uma cidade poderosa, encontrou no templo muitos altares antigos, e foi andando entre todos eles, mas não derrubou nenhum deles a chutes. Pelo contrário, se levantou no meio do mercado e disse que eles não eram nada além de objetos de idolatria, e pediu que as pessoas os abandonassem; veja, ele não destruiu nenhum pela força. Quando a Palavra tomou conta de seus corações, eles mesmos os abandonaram por conta própria”

  1. A conversão dos homens é obra do Espírito

“Eu não posso carregar ninguém ao céu, nem mesmo sob pauladas” — Lutero

O mesmo tempo que nos ensina a necessidade de “contextualizar” o ensino bíblico à geração do pluralismo religioso e da diversidade sexual, é o que nos faz diminuir a importância da pregação e tenta incutir a necessidade de substitutos a ela como estratégia. Isso explica tanta gente recorrendo a métodos e artimanhas para alcançar um número maior de convertidos, como se eles dessem conta disso. É uma terrível contradição ver um anseio por mais pessoas convertidas ao mesmo tempo em que se discute alternativas à Bíblia como forma de alcançar essas pessoas.

O que a experiência de Lutero nos lembra é que a conversão dos homens é um milagre de Deus e que Ele já definiu o meio pelo qual ele exerceria esse milagre: “agradou a Deus salvar aqueles que creem por meio da loucura da pregação” (1 Co 1:21).

Precisamos retornar às Escrituras, ao discipulado bíblico e à pregação centrada na pessoa de Cristo como única maneira de ter qualquer esperança na conversão das pessoas. Quando substituímos a Bíblia por métodos apenas porque eles dão resultados e não nos preocupamos com a qualidade e a veracidade das conversões, estamos, portanto, agindo contra os ideais da Reforma. Estamos colocando a Bíblia novamente numa prateleira empoeirada e entregando aos outros nossas próprias doutrinas (aquilo que julgamos ser a necessidade das pessoas) na esperança de que elas reconheçam a Cristo.

“Devemos deixar a Palavra correr livre, sem adicionar nossas obras” — Lutero

             3. A Palavra é o abrigo seguro da consciência humana

Quando somos movidos pela certeza de que à Bíblia somente devemos nossa irresoluta obediência, todo o temor dos homens é dissipado. Mesmo que essa obediência ameace nossa própria existência, como ocorre a muitos cristãos vivendo em países cuja ideologia política é inimiga do evangelho, a confiança em Deus nos move à perseverança. Pelas Escrituras somos impulsionados a continuar.

Quando o Imperador Carlos V intimou Lutero a se retratar das suas teses, sob ameaça de ser condenado como herege e excomungado, ele exigiu uma refutação daqueles que o acusavam de heresia. Pediu que alguém lhe mostrasse nas Escrituras a parte que ele não havia entendido e que exigia sua retratação. Sem existir tal pessoa, uma vez que suas teses estavam em conformidade com a Palavra de Deus, e diante do veredito de voltar atrás, a resposta de Lutero entrou para a história como o exemplo de uma consciência submetida à autoridade das Escrituras:

“Posto que vossa graciosa majestade e vossos senhores me pedem uma resposta, então a darei ‘sem chifres ou dentes’1: A menos que se me convença por testemunho da Escritura ou por razões evidentes – posto que não creio no papa nem nos concílios somente, já que está claro que eles têm se equivocado com frequência e têm se contradito entre eles mesmos -, estou acorrentado pelos textos escriturísticos que tenho citado e minha consciência é uma escrava da palavra de Deus. Não posso nem quero retratar-me em nada, porque não é seguro nem honesto atuar contra a própria consciência. Que Deus me ajude. Amém.”

Com esse discurso e testemunho, Lutero nos ensinou que somente quando a Palavra de Deus nos absorve por completo é que seremos capazes de escolher desobedecer a homens quando a nossa obediência a Deus estiver sob ameaça (At 4:19-29; 5:29). A Reforma é, portanto, a decisão de obedecer incondicionalmente a Deus e glorificá-lo por meio dessa obediência.

Conclusão

Num cenário de crescente misticismo que volta a rondar a igreja de Deus, onde as adulterações à Palavra não são apenas feitas, mas reputadas como corretas e a experiência pessoal (como eu vejo, como eu sinto e como eu entendo) é elevada ao status de árbitro da vida cristã, precisamos retornar à suficiência das Escrituras. Porque quando aceitamos outra autoridade além das Escrituras como regra de fé e prática, estamos consentindo com o erro, permitindo o reinado da vontade humana e validando a confusão espiritual. Relativizar a autoridade das Escrituras significa romper com o ensino do Senhor Jesus e o dos apóstolos. Significa cair em terrível juízo (Ap 22:18-19).

Considero-me, portanto, feliz por herdar esse pilar da Reforma. Porque é a autoridade inerente das Escrituras que me livra da tentação de maquiar o ensino bíblico de forma a torná-lo palatável a quem me ouve; ela me enche de esperança quando me coloco à frente de pessoas para ensiná-las, mesmo não tendo elas qualquer contato prévio com a Bíblia; ela me despede para casa com a consciência tranquila e crendo que Deus pode levar pessoas à fé tão somente se eu me dedicar ao seu ensino fielmente; é ela que me impulsiona ao trabalho de estudá-la a fundo e ir em busca do significado do texto até encontrá-lo. Porque sei que encontrá-lo é o mesmo que encontrar um tesouro que faz todas as outras coisas perderem valor.

“Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir” — Lutero.

1 – termo poético que significa ir direto ao ponto

 

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Sou filho de Deus.

One Response to 500 anos da Reforma: a Palavra fez tudo

  1. Pr. Marcelo Ignácio says:

    Parabéns, o artigo ficou muito bom, além de histórico nos leva a refletir o significado da reforma.

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