Os principais objetivos da disciplina eclesiástica


banner“Se me fosse perguntado por que a Igreja encontra-se nesse perigoso estado eu responderia que, em última análise, é porque ela tem falhado em aplicar a disciplina” – Martyn Lloyd Jones

Eu penso que somente quando resgatarmos o valor e o significado da Igreja, como eles são demonstrados nas Escrituras, é que regressaremos à correta disciplina eclesiástica. Como já mencionado em artigos anteriores, a Igreja de Cristo ostenta virtudes que a distinguem completamente de qualquer outra instituição humana. E os objetivos de toda disciplina eclesiástica visam justamente à preservação dessas virtudes. Nesse artigo iremos destacar as principais.

  1. Pureza

“Deus será honrado quando se torna evidente que a Sua Igreja é diferente do mundo. Também é importante não confundir os herdeiros do céu com os do inferno. E não devemos permitir que o mundo pense que Cristo e satanás não estão em conflito, tendo ambos idêntica inclinação para a santidade ou para o pecado” – Richard Baxter

Pela sua santidade visível, a igreja lança ao mundo as fragrâncias do caráter de Deus. É pela santidade que a Igreja mostra ao mundo sua relação com aquele que é Santo. Sua pureza moral e espiritual são seus adereços que honram, glorificam e exaltam o nome de Deus no mundo.

No Antigo Testamento, Deus deu ao povo de Israel – o antítipo da Igreja – um conjunto de leis e mandamentos que visavam à pureza do povo e sua separação dos costumes e práticas pagãs, a fim de que fossem diferenciados dos demais povos e reconhecidos como pertencentes ao povo de Deus, em íntimo relacionamento com Ele. No Novo Testamento, isso não é diferente em relação à igreja. Tendo as Escrituras, a Igreja tem a sua bússola moral e espiritual, seu conjunto de ordenanças que a permitirão caminhar neste mundo imundo e blasfemo sem por ele ser contaminada. Mais particularmente, Jesus ensinou a prática da disciplina. É o que permite à igreja continuar separada do mundo.

Em 1 Coríntios 5 nos é relatado um caso de incesto ocorrendo sob os olhos dos irmãos de lá. Apesar da gravidade do pecado, somos informados da passividade dos coríntios diante do fato. Essa é a grande surpresa de Paulo. Nenhuma ação havia sido tomada para erradicar aquele mal do meio da igreja. Nem o pecado condenado, nem o pecador disciplinado.

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Novamente, isso deve nos servir de alerta para a natureza santa da Igreja. Não significa que ela estará imune ao pecado, mas sim que ela não pode tolerá-lo. A grande preocupação de Paulo era que a passividade dos coríntios indicava que não havia diferença real entre a igreja e as práticas pagãs dominantes naquele contexto social e cultural. Deve ser sempre um motivo de preocupação quando a igreja se torna parecida com o mundo. Quando práticas de lá são toleradas aqui, quando o que é aprovado lá o é aqui também. Quando a igreja chama de correto o que a Bíblia chama de pecado, ou quando a igreja chama de pecado o que a Bíblia chama de virtude (Is 5:20). A pureza da igreja é inegociável. É atemporal. Sobre isso, Pedro é claro:

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

A santidade da igreja é a maior prova que ela pode dar de sua redenção feita por Cristo. E é pela disciplina eclesiástica que o mundo pode perceber a diferença entre o justo e o ímpio (Ml 3:18).

  1. Glorificar o nome de Deus

Qual é o fim da Igreja? É glorificar a Deus. Porque esse é o fim de todo ser humano (1 Co 10:31). Toda evangelização, toda pregação e toda assistência aos necessitados é feita com o propósito último de glorificar o nome de Deus. Esse é o mesmo objetivo da igreja ao exercitar a disciplina. E ao aplicar a disciplina, a Igreja glorifica a Deus pela obediência a Ele.

E a disciplina está prescrita na Palavra de Deus.

(Mat 18:15-20; Rom 16:17; 1Co 5:1-13; 1Th 5:14; 2Th 3:6-15; 1Ti 5:20; 6:3; Ti 1:13; 2:15; 3:10; Rev 2:2, 14-15, 20).

  1. Recuperar o pecador

Este objetivo deve ser o farol que norteia toda disciplina na igreja. A razão da disciplina é, também, o fato de a igreja ser um lugar de restauração. Portanto, toda ação de disciplina só pode ser considerada de sucesso se ela recupera o pecador e o resgata de seu estado de impenitência ou desobediência (1 Co 5:5). Quando a exclusão é inevitável, a disciplina não alcançou seu objetivo (como já vimos, ao recomendar a disciplina, Jesus não deu garantias de que ela sempre culminaria na restauração do pecador). Ela preservou a igreja da contaminação do pecado.

  1. Preservar sua credibilidade

Ao dizer que a Igreja seria sal e luz do mundo, Jesus está ensinando que a sua atuação como uma agência do Reino resultaria em um impacto no mundo. Seja preservando-o (o sal preserva) ou disseminando o conhecimento de Cristo (alusão ao esclarecimento que a luz traz). Quando a igreja é negligente na aplicação da disciplina ela perde justamente essa vocação de impactar o mundo. Ela se torna integrante dele, o que é um desagravo ao Senhor Jesus.

Quando a igreja negligencia a disciplina ela está negociando com o pecado. Logo, uma igreja que negocia com o pecado jamais será ouvida quando for condená-lo. Isso explica, em parte, o grande descrédito que, em geral, se nutre pelo testemunho da igreja. Em nome de um conceito mundano de amor, muitas abrem mão da repreensão e da disciplina. E a imagem externa que construída de si mesmas é de uma instituição que não se importa com os desvios de seus membros.

  1. Ser um ambiente onde as virtudes espirituais sejam estimadas

Um ambiente onde o pecado seja tratado com desleixo e visto como tolerável é ideal para criar hipócritas. Se nossas crianças convivem numa igreja que faz vistas grossas ao pecado, que não repreende e nem exige de seus membros a mínima conformidade às Escrituras, elas entenderão que poderão levar uma vida dupla: pecando lá fora e atuando como crente dentro da igreja. Não é o tipo de vida que muitos levam hoje?

Além disso, essa passividade diante do pecado passa a mensagem de que a virtude não é valiosa. Que a piedade não é importante e que a busca pela santificação não precisa ser constante. Por outro lado, quando o pecado recebe a atenção bíblica, ele passa a ser visto como um peso a ser tirado, tanto da vida da igreja quanto da vida de seus membros.

  1. Afastar a ira

Quando a igreja se afasta da disciplina, ela se aproxima do pecado. Como já vimos, essa aproximação se inicia por uma mentalidade contrária às Escrituras, onde o pecado torna-se um conceito relativizado e o amor bíblico é distorcido.

Essa mentalidade é perniciosa. Ela atrai sobre a igreja a ira de Deus. Escrevendo à Igreja de Tiatira, Jesus adverte a frouxidão moral e espiritual de uma igreja que crescia em obras, denotando sua preocupação com o sustento dos necessitados, mas que não aplicava a disciplina. Apesar de sua preocupação, ela tolerava os pecados sexuais e espirituais ao dar crédito aos ensinos de uma falsa profetisa. A repreensão de Jesus foi grave:

“E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua fornicação; e não se arrependeu. Eis que a porei numa cama, e sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras. E ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda os rins e os corações. E darei a cada um de vós segundo as vossas obras”. (Apocalipse 2:21-23)

Francis Schaeffer, um dos maiores apologetas do Século XX, foi um dos que melhor descreveu o erro da igreja em conformar-se ao mundo. Ele resumiu precisamente a covardia da igreja moderna em contraste com a obediência da igreja primitiva:

“Ninguém pode explicar o poder da igreja primitiva, sua dunamis, sem levar em conta que ela praticava duas coisas simultaneamente: ortodoxia na doutrina e ortodoxia na comunhão no meio da igreja visível, uma comunhão que o mundo podia ver. Pela graça de Deus, portanto, a igreja deve ser conhecida tanto pela pureza de sua doutrina quanto pela realidade de sua comunhão”1.

Perder de vista um desses objetivos é pôr em risco o bem-estar da igreja.

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Referência:

1 – The Church Before the Watching World, page 62.

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