Sobre a admissão e exclusão de membros


banner“Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33).

No artigo anterior, vimos a importância que há no correto entendimento sobre a membresia da igreja. Não é um entendimento que caiba somente à liderança local, mas que deve ser de todos os seus integrantes. É um mecanismo de defesa.

Uma das marcas que a crise do discipulado trouxe sobre a igreja moderna é justamente um entendimento errado sobre como se constrói uma membresia saudável e bíblica. Essa falha se inicia já por meio de um discipulado (a diferença entre disciplina e discipulado já discutimos anteriormente) que não incute nas pessoas a observância dos mandamentos do Senhor Jesus e nem por eles ensina nutrir amor.

Temos a noção de que o discipulado consiste em ensinar às pessoas a cantarem os louvores que cantamos, a vestirem-se e a frequentarem os mesmos lugares que frequentamos. A ostentarem trejeitos e vocabulários específicos de “crentes”.

Isso tende a produzir membros que separam suas vidas privadas da sua vida congregacional. Para muitas igrejas e muitos de seus membros, o que uma pessoa faz fora do templo não diz respeito a mais ninguém além dela mesma. Um membro prestar contas à igreja local por algum pecado que cometeu é inimaginável em muitos lugares. Soa constrangedor.

De que maneira isso se relaciona com a disciplina e a admissão de membros? Antes de responder, vamos analisar um acontecimento vivenciado pela igreja de Atos, por ocasião da conversão de Paulo:

“E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo. Então Barnabé, tomando-o consigo, o trouxe aos apóstolos, e lhes contou como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e como em Damasco falara ousadamente no nome de Jesus. E andava com eles em Jerusalém, entrando e saindo” (Atos 9:26-28).

Nesse episódio, a conversão do outrora perseguidor da igreja tornou-se motivo de temor para muitos crentes em Jerusalém. A razão era óbvia: soava como uma estratégia de Paulo infiltrar-se dentro da igreja para prender seus líderes e, com isso, dispersar seus membros até que estes abandonassem a ideia de criar uma nova religião.

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Diante desse temor de seus irmãos em Jerusalém, Barnabé traz Paulo aos apóstolos. Paulo, então, faz um relato detalhado de como ocorrera sua conversão, da ousadia com que pregou o evangelho de Jesus em Damasco e como saiu de lá, sob risco de morrer. Por fim, Lucas conclui que Paulo deixou de ser visto com desconfiança e passou a integrar a membresia da igreja de Jerusalém.

No discipulado, a igreja local leva o novo convertido a compor as fileiras de sua membresia. Por isso essa atividade é tão importante. Repito, a igreja, por meio do discipulado, deve preparar as pessoas para a obediência a Cristo. Nada comprova melhor o verdadeiro discipulado do que a capacidade do discípulo de obedecer a Cristo, mesmo que até a morte (Lc 14:26).

Tendo sido, digamos, discipulado antes de voltar para Jerusalém, Paulo é instado a dar evidências de sua conversão à liderança apostólica. Somente após isso, o seu convívio no meio da igreja é autorizado e consentido pelos demais. Isso traz outro aspecto importante do discipulado cristão, que tem a ver com a admissão de membros na igreja local: o verdadeiro discipulado leva as pessoas a darem evidências de sua conversão. Ela precisa confessar publicamente e com obras que nasceu de novo (Rm 10:9).

Essa postura de alguém demonstrar publicamente a profissão de sua fé era um costume da igreja do Novo testamento. Há pelo menos dois casos exemplificados dentro dos próprios evangelhos. A mulher samaritana e o endemoniado gadareno.

“Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo? Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele. E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher” (João 4:28, 29, 39).

“Jesus, porém, não lho permitiu, mas disse-lhe: Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti. E ele foi, e começou a anunciar em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera; e todos se maravilharam”. (Marcos 5:19,20)

Como os samaritanos e os gadarenos foram convencidos de que seus conterrâneos haviam encontrado Jesus e experimentado uma nova vida? Pelo testemunho pessoal de cada um.

O discipulado bíblico deve ensinar ao novo convertido o amor e o prazer em servir à igreja local. Entretanto, esse desejo deve ser demonstrado publicamente por meio de um testemunho pessoal que confirme sua conversão. Mas como isso será possível onde a mentalidade reinante é aquela que despreza que a vida cristã é uma só, vivida plenamente dentro e fora do templo? Como é possível cumprir a Bíblia e exigir evidências de conversão de alguém se acreditamos que sua vida privada não diz respeito à igreja local? Está claro que essa mentalidade leva, naturalmente, à desobediência, além de trazer problemas sérios ao bem-estar e à saúde espiritual da igreja local.

Assim, concluímos que o discipulado bíblico e a admissão de novos membros são processos que andam de mãos dadas. O primeiro visa ao segundo. O segundo somente é exitoso se o primeiro for bíblico e não abraçar a mentalidade do mundo.

Após a sua admissão como membro de uma igreja local, a pessoa precisará “perseverar até o fim” (Mt 24:13) a fim de que seja contada como filha de Deus. Sabemos, porém, que a perseverança é uma virtude cunhada somente no caráter do nascido de Deus. Por isso, em virtude da possibilidade de falsas conversões ocorrerem e se instalarem no meio da igreja (Lc 3:17; Mt 13:26), a necessidade de demonstrar, por suas próprias obras, a veracidade de sua conversão permanece. E essa evidência sempre faltará ao que não nasceu de novo, pois não pode frutificar.

Para esses, por meio das obras da carne que sempre produzirão, restará à igreja a vigilância e observância da disciplina. Mesmo que tenha que ser levada até a última consequência, a exclusão. Porque se a igreja aplica princípios bíblicos para admitir alguém, ela também deve fazê-lo para manter e excluir. E os princípios bíblicos são obtidos a partir dos textos que nos advertem quais os tipos de membros que não podem permanecer no gozo da comunhão dos santos.

O herege

“Ao homem hereje, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado” (Tito 3:10,11).

O impuro

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5:11).

O insubmisso às Escrituras

“Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu […] Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe” (2 Tessalonicenses 3: 6, 14)

O contencioso

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles” (Romanos 16:17)

Observando esses princípios, a igreja segue zelando pela pureza de sua vida interna e honrando o nome de Jesus diante dos homens.

“Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”. (Mateus 5:16)

No próximo artigo, analisaremos quais são as etapas que toda disciplina bíblica deve cumprir.

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