Cristo determinou a disciplina na Igreja


bannerA Igreja de Cristo, olhando estritamente seu aspecto humano, é uma organização como outra qualquer. Todas as instituições possuem requisitos de admissão, manutenção e exclusão de seus membros. Um clube social, por exemplo, exige o pagamento de joia para aquele que propõe se associar a ele. Muitos outros exigem algum tipo de conformidade à atividade exercida pelo grupo, seja ela de cunho social, religiosa ou econômica.

Lembro-me de um partido político que é conhecido por sua bandeira inclusivista, tolerância religiosa e de promoção dos direitos humanos. Um de seus filiados, dizendo-se cristão, propôs uma alteração na Constituição. Logo no início, ela afirma que “todo poder emana do povo”. O deputado, baseando-se em sua fé em Deus, queria alterar a palavra “povo” para “Deus”. Em função disso, o partido tolerante não tolerou essa iniciativa e o expulsou de suas fileiras. Esse exemplo ilustra bem que qualquer instituição, por mais que se diga tolerante, mantém seus próprios critérios de escolha de seus membros. A tolerância aos desvios de seus filiados não é um valor absoluto.

Ao ensinar sobre a disciplina, Jesus estava ensinando sua igreja a manter sua ordem interna e o bem-estar de seus membros. Pertencer à Igreja de Cristo é um privilégio ímpar. É ser parte do Seu corpo, significa ser filho de Deus e herdeiro dos céus. É gozar da mais alta bênção que um ser humano pode possuir: o relacionamento com Deus. Nenhuma outra instituição humana pode oferecer isso. Assim, questões como admissão, manutenção e exclusão de membros tornam-se questões de disciplina. Não no sentido negativo que pretendem dar ao termo (rigidez, insensibilidade, etc), mas no seu sentido mais positivo (reverência, obediência). Com a disciplina bíblica, a igreja demonstra seu amor e temor a Cristo.

Isso posto, vamos analisar os três textos clássicos da disciplina eclesiástica. Comum a todos é o fato deles serem mandamentos do Senhor Jesus.

  1. Mateus 16:18-19

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

Nesse episódio, os discípulos foram questionados por Jesus sobre o que eles diziam a respeito de Sua Pessoa. Isso em função de haver naquele momento certa confusão em torno da identidade de Jesus, levando muitos a vê-lo como alguém que Ele não era. Desnecessário é dizer que uma cristologia saudável é marca da igreja de Cristo. As doutrinas bíblicas que tratam de Sua pessoa (encarnação, morte, ressurreição, dupla natureza, etc) devem, ou deveriam, ser assuntos livres de quaisquer dúvidas. Nada ameaçou tanto a Igreja, em toda sua história, quanto as heresias em torno da Pessoa de Cristo.

É ainda mais interessante o fato de Jesus ter feito sua primeira menção à Igreja num contexto onde a visão dos discípulos sobre Ele havia se mostrado correta. A Igreja de Cristo o conhece (Jo 10:14,27).

  1. Mateus 18:15-18

“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.

Nesse texto, Jesus dá todas as diretrizes que devem ser seguidas no processo de disciplina bíblico. Sobre elas falaremos mais tarde em um artigo próprio. Por enquanto, basta o fato de Jesus concluir sua admoestação aos discípulos com as mesmas palavras ditas a Pedro na referência anterior: o simbolismo da chave.

  1. João 21:21-23

“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos”.

Aqui, Jesus está proferindo suas últimas palavras aos seus discípulos. Em breve, eles não mais teriam sua companhia física. É, portanto, tanto uma despedida quanto um envio. Também é notório o simbolismo presente nas referências anteriores: em lugar da chave, entra a linguagem do pecado como algo que une ou separa as pessoas de Deus.

É óbvio que Jesus não está conferindo aos discípulos a capacidade de perdoar ou condenar os pecados dos outros, algo que só Ele pode fazer. Jesus está fazendo referência à autoridade da Igreja em corrigir as práticas de pecado dentro de seu convívio.

Disciplina instituída

A chave, o ligar e desligar, o perdoar e reter formam juntos um só significado, onde cada um dos três interpretam os demais. Os três são conceitos paralelos.

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Falando a Pedro, Jesus garante que a porta da Igreja não seria ameaçada pelas investidas de Satanás. Entretanto, essa porta teria uma chave, significando que ela não estaria aberta a todos irrestritamente. E essa chave estaria nas mãos da liderança da igreja1, aqui representada na pessoa de Pedro. De imediato, concluímos que a responsabilidade da disciplina eclesiástica recai sobre os ombros da sua liderança.

Ao concluir como um irmão, uma liderança e uma igreja local devem conduzir a disciplina eclesiástica, Jesus conclui com o mesmo simbolismo chave. Nesse caso, ela está ligando ou desligando algo. Está claro no texto que Jesus está falando sobre a admissão e exclusão de membros na igreja local. Porque essas palavras são ditas após ele determinar que seja tratado como gentio ou publicano todo aquele que rejeita a disciplina praticada pela igreja, ou seja, uma exclusão.

Contudo, o ensino de Jesus nessa mesma referência vai além. Ele afirma que as decisões da igreja quanto à admissão e exclusão de seus membros seriam chanceladas, confirmadas, no céu. “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Essa declaração reforça tanto a seriedade que o assunto exige quanto ao tamanho da responsabilidade que repousa sobre os ombros da liderança local. Está fora do escopo desses artigos tratar da necessidade de termos lideranças genuinamente bíblicas, mas podemos vislumbrar que um dos fatores que explicam o abandono da disciplina por parte de muitas igrejas é que muitas delas não possuem uma liderança que reflete o chamado de Jesus.

Por fim, a terceira referência faz menção exatamente ao que motiva a prática da disciplina: o pecado. Pela dinâmica de perdoar e reter, Jesus está simbolizando um aspecto de seu sacrifício, que é a reconciliação entre Deus e os homens mediante o perdão dos pecados oferecidos por Ele. Se não pode haver comunhão entre Deus e os homens até que estes reconheçam seus pecados e se arrependam buscando em Jesus a expiação por eles, também não pode haver comunhão entre a igreja e alguém que se mantém impenitente, de coração duro.

“Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos”.

Ao afirmar isso, Jesus está dando autoridade à liderança da igreja em avaliar e decidir sobre a admissão ou exclusão dos seus membros, conforme o arrependimento ou a falta dele na vida de alguém (sobre quais circunstâncias a liderança irá legislar, ler o artigo anterior).

Conclusão

A igreja local tem a autoridade, que lhe foi conferida por Jesus, de prezar pelo seu bem-estar e o de sua membresia. E ela o faz zelando pela disciplina eclesiástica. Isso, portanto, diz respeito a como ela admite, mantém e exclui seus membros. Vimos que isso é prática comum de qualquer instituição. Todas estabelecem critérios para seus associados. Com a Igreja não pode ser diferente. Não porque o mundo faz, mas porque foi o próprio Jesus quem determinou que se fizesse assim.

E os textos que analisamos norteiam a maneira como a igreja local conduz a disciplina em seus próprios termos. Sempre para o seu próprio bem, visando a saúde espiritual de seus próprios membros.

No próximo artigo, relembraremos alguns aspectos bíblicos na admissão e exclusão de membros. Isso se faz necessário porque a mentalidade moderna parece ter destruído na mentalidade da igreja a noção de que somos uma comunidade separada do mundo.

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Referência:

1 – Albert Mohler Jr faz um interessante comentário sobre a diferença de interpretação e aplicação da disciplina eclesiástica entre o protestantismo e o catolicismo romano no artigo “Church Discipline: The Missing Mark” – https://www.the-highway.com/discipline_Mohler.html

 

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