Discernindo os tempos: uma geração que rejeita a disciplina


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“É notável que quando a disciplina sai da Igreja, Jesus vai junto com ela” – J. L. Dagg

No artigo Um tabu infernal: quando a ideologia suplanta a Bíblia, ressaltei o grande prejuízo que a mentalidade da nossa geração tem trazido ao ministério da pregação. Isso se dá pela maneira como parte da Igreja vê esse ofício atualmente. Cercados que estamos por um público que tem “coceira nos ouvidos” (2 Tm 4:3-4), a pregação é pressionada a reproduzir conceitos meramente humanos (psicologia secular2, ideologias políticas, pós-modernismo) a fim de omitir o escândalo do evangelho para um tempo que não suporta ouvir a verdade. Como exemplo principal, abordei o fato das preleções sobre o entendimento bíblico do inferno ser praticamente um tema extinto nos púlpitos modernos.

Entretanto, não é somente a pregação bíblica que é afetada por essa mentalidade. Outro exercício cristão vital à saúde espiritual da Igreja também tem sofrido as consequências dessa geração incapaz de ouvir a verdade. Trata-se da disciplina eclesiástica. Por simples definição, disciplina eclesiástica é o exercício de uma autoridade que a Igreja possui, outorgada por Cristo Jesus, com o objetivo de resguardar a pureza doutrinária, a pureza de vida e a unidade dos seus membros. Desde o primeiro registro da Igreja nas páginas da Bíblia vemos o exercício desse fundamental ministério.

Contudo, não tem sido assim nos últimos dois Séculos. O advento do iluminismo, com a promoção da razão a árbitro das questões humanas, desafiou praticamente todas as áreas do conhecimento humano. A prática religiosa foi uma delas. A Bíblia, sob a ótica dessa mentalidade, tornou-se um livro meramente humano com registros históricos sem qualquer autoridade sobre as questões da vida. Assim, a igreja viu sua influência sobre as mais diversas esferas da vida humana diminuir drasticamente.

Além do Iluminismo, a urbanização e o surgimento de grandes cidades afetaram profundamente a maneira como a igreja passou a enxergar a prática da disciplina. Quem destacou esse efeito foi Greg Wills3, um estudioso da história das Igrejas Batistas americanas. Sobre o panorama dessas igrejas na segunda metade do Século XIX, ele comenta:

“Após a Guerra Civil [travada entre 1861 e 1865, nos EUA], a disciplina eclesiástica estava desmoronando. Seu declínio se explica porque ela se tornou um peso nas grandes igrejas, das grandes cidades, pressionadas pela necessidade de grandes construções e o desejo por música e pregação refinadas….Muitas igrejas batistas assumiram uma nova concepção de igreja, onde a busca pela pureza deu lugar à eficiência”.

O Século XX, por outro lado, viu a completa emancipação das vidas social, profissional e familiar do individuo em relação à sua vida religiosa. Ele se tornou um administrador soberano dessas áreas, não admitindo qualquer interferência externa para conduzi-las. A sua vida religiosa praticamente ficou restrita ao templo. À igreja local, portanto, restaram somente o ensino e o conforto espiritual como tarefas. Ela perdeu a autoridade de exigir um padrão bíblico na maneira de viver de seus membros.

Se o Século XIX viu a disciplina eclesiástica diminuir, o século seguinte a viu praticamente extinta. Com o surgimento de uma cultura altamente individualista, o homem moderno passa a tratar a sua privacidade e autonomia moral como valores inegociáveis, não admitindo sobre eles qualquer influência. Sua vida pública e conduta moral, sua opção ou não pela fidelidade conjugal, a maneira de tratar os filhos ou de ganhar dinheiro tornaram-se esferas livres da autoridade da igreja local.

O Século XX viu a institucionalização da hipocrisia dentro da igreja: agora é possível separar vida espiritual de vida secular. O reinado de Cristo sobre o cristão é, então, relegado ao seu comportamento dentro do templo religioso. O que se pratica fora dele deixa de ser um assunto de interesse da igreja local. Em seu artigo “Dez coisas que você deveria saber sobre a disciplina eclesiástica”, Jonathan Leeman faz uma descrição precisa da igreja do último século: ela se preocupou mais em ser atraente ao mundo do que ser santa4.

Há duzentos anos atrás, ser membro de uma igreja protestante era algo visto com enorme responsabilidade e privilégio. Hoje isso mudou completamente. Parece que os papeis se inverteram: manter um membro sem confrontá-lo ou corrigi-lo é visto como essencial. O privilégio, agora, é da igreja local.

Albert Mohler Jr, no artigo “Church Discipline: The Missing Mark”5, faz uma síntese do estado atual da igreja:

“O declínio da disciplina é, talvez, a mais visível falha da igreja do nosso tempo. Não mais preocupada em manter a pureza de sua confissão ou do seu estilo de vida, a igreja moderna se parece mais com uma associação voluntária de membros autônomos, sem o mínimo compromisso com Deus, muito menos com o próximo”.

Essa nova postura trouxe sérias implicações ao exercício da disciplina eclesiástica. Como veremos mais à frente, isso afetou a pureza interna da igreja e a maneira como ela é vista pelo mundo. A vida entre os membros perdeu a coesão e o comprometimento mútuo, e o seu testemunho viu-se alvo de críticas por quase todos os setores da sociedade.

A igreja dessa nova era passou a produzir e admitir em suas fileiras pessoas cuja trajetória pública nos campos político, empresarial e mesmo o religioso, não condiz com os ensinamentos de Cristo. Ela aderiu a um modelo de discipulado que exportou para o mundo o mesmo tipo de pessoa encontrado lá. Tendo abandonado a disciplina bíblica, ela colocou-se na defensiva e perdeu sua capacidade de ser referência moral e social, uma agência de transformação de pessoas.

Mas os problemas não pararam por aí. A partir do pós-guerra, novas concepções de igrejas se somaram à citada anteriormente. Além da ideia de que a vida privada dos membros está fora dos limites da disciplina da igreja, os cristãos da geração de 1945 pra cá viram nascer e se desenvolver dentro dela a mentalidade do pragmatismo religioso, com seu método de crescimento minimamente bíblico, com ênfase na quantidade e não a qualidade dos “novos” cristãos. Agora, produz-se nas igrejas crentes como se fabricam carros.

Isso levou a igreja a abandonar uma postura que sempre a distinguiu: a confrontação dos pecados públicos. Os ensinos, discipulados, pregações e aconselhamentos ministrados no seio da igreja relegaram isso ao segundo plano. Questões como satisfação pessoal, autoajuda e macetes comportamentais para viver o mundo assumiram posição de destaque nos ensinos ministrados por muitos púlpitos nas últimas décadas, fazendo seus membros mergulharem em profunda ignorância bíblica e insensibilidade para com os mandamentos de Jesus. A igreja passou a ser uma muleta de apoio para viver esse mundo e não um baluarte para desejar o próximo.

Os últimos anos viram o racionalismo iluminista ceder lugar ao triunfo terapêutico e ao pluralismo religioso, com seu amor ingênuo e imoral. O conceito de pecado sofreu uma ressignificação profunda a fim de permitir a esse tipo de cristianismo um lugar ao sol na arena religiosa pós-modernista. Não há mais o pecado, conforme ensinado na Palavra de Deus. As pessoas não pecam mais, elas fazem escolhas erradas, tornam-se vítimas de uma cultura opressora e moralmente rígida e sofrem com distúrbios psicológicos. Adultério, pedofilia, furto e roubo, mentira e engano, ganância e corrupção são explicados à luz das novas teorias de comportamento como resultado de descompensações químicas no cérebro, ou provenientes de traumas passados (a crítica aqui não é no sentido de anular essas possibilidades, mas no fato de tudo se resumir somente a elas).  A culpa e a responsabilidade individual são eliminadas e transferidas para um conceito abstrato chamado “cultura”.

Se não existe mais o pecado, então a disciplina perde sentido. Se não há mais o pecado, a cruz de Cristo é esvaziada de seu significado. A palavra pecado, em um discurso público, foi mencionada pela última vez, conforme registros, por um presidente americano na década de 1950. O conceito sumiu da vida pública do homem moderno. Mas seus efeitos se intensificam dia após dia.

O pluralismo religioso com sua bandeira do amor inclusivista e imoral transformou a disciplina eclesiástica num ato constrangedor para quem o pratica. Repreender o pecado, falar em reparação por um pecado praticado, submeter um membro acusado de pecado a um processo de disciplina com vistas à sua restauração, dentre tantos outros, tornaram-se exercícios reputados como insensíveis, sem amor e excludentes. Nunca o “não julgues” ganhou tanto destaque na história da Igreja. Toda a Bíblia parece ter sido resumida a esse “novo” mandamento (vale lembrar que Mateus 7:1 nada tem a ver com a disciplina eclesiástica).

Com esse amor moderno invadindo as fileiras da igreja, algumas objeções à disciplina eclesiástica ganharam status de irrefutáveis e praticamente enterraram esse importante exercício. Dentre tanto, podemos destacar alguns:

Primeiro, o exercício da disciplina causa divisão na igreja. Embora isso seja possível (na verdade, a disciplina visa à separação entre o ímpio e o convertido), os que sustentam esse argumento mantêm-se cegos para o fato de a indisciplina produzir uma unidade superficial dentro da igreja, onde o escândalo passa a fazer parte do convívio dos membros. Muitos se lamentam pelo aumento dos péssimos testemunhos pessoais dentro da igreja, mas poucos fazem algo para corrigi-los.

Segundo, o argumento do julgamento. Para muitos, “não julgues para que não sejas julgado” é a senha para a não aplicação da disciplina. Sob uma ignorância bíblica, avaliam não ser papel da igreja buscar os casos de desvios doutrinários e morais dentro  da congregação. Dizem ser um caso de oração apenas, de entregar nas mãos de Deus. Entretanto, por essa mesma ignorância bíblica, muitos se esquecem de que a Igreja não julga ninguém. O que ela faz, ao exercitar a disciplina, é transmitir à parte ofensora o julgamento já prescrito por Jesus em sua Palavra para aquele pecado. A igreja não julga. Quem o faz é a Palavra de Deus.  A igreja apenas o transmite.

Terceiro e último, não podemos disciplinar porque somos igualmente pecadores. Um pecador, pensam, disciplinando outro pecador é um ato hipócrita. O erro desse argumento se dá pelo fato de a disciplina eclesiástica não se aplicar a todos os pecadores indistintamente. Realmente, todos nós pecamos. A disciplina visa ao pecador impenitente, àquele que não reconhece o seu pecado e nem pretende abandoná-lo. Se você é um desses e se esconde atrás desse argumento, então a disciplina é para você também.

Espero não ter deixado dúvidas de que esse assunto precisa ser novamente trazido à discussão. Os tempos modernos infligiram à igreja pesadas acusações de hipocrisia, mentiras, imoralidades que, parece, nos acostumamos a tolerar. E a causa é clara: abandonamos a disciplina e rejeitamos a autoridade delegada por Cristo à sua igreja, a afim de que ela se mantivesse sal e luz do mundo. A Terceira Marca6 foi substituída por valores mundanos no trato entre os membros.

Os próximos artigos tratarão os textos bíblicos (dois textos serão analisados à parte) que fundamentam a disciplina eclesiástica, como a igreja praticou esse exercício ao longo do Novo Testamento, as palavras do próprio Jesus sobre o assunto, a sequência de ações para uma correta aplicação da disciplina, conforme Mateus 18 e os efeitos desejados nela. E, por fim, as áreas que a igreja deve dedicar especial vigilância em virtude dos tempos que vivemos.

Ao contrário do que fomos ensinados a pensar, é a falta de disciplina que marca a falta de amor. É típico do amor cristão levar o próximo à reconciliação com Deus. O amor mundano é aquele insensível ao estado atual e futuro da alma do que é incapaz de reconhecer e abandonar os seus pecados. O amor cristão não suporta ver uma alma que passou a perecer sob a escravidão do pecado.

No próximo artigo entenderemos o que é a disciplina eclesiástica, conforme ela é ensinada nas Escrituras.

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Referências:

1 – https://tiagolinno.wordpress.com/2017/08/07/um-tabu-infernal-quando-a-ideologia-suplanta-a-biblia/

2 – Por psicologia secular eu me refiro à psicologia que tende a ver o cristianismo como um mero repositório moral e a Bíblia como insuficiente para lidar com as questões humanas.

3 – Democratic Religion by Greg Wills

4 – https://www.crossway.org/articles/10-things-you-should-know-about-church-discipline/

5 – https://www.the-highway.com/discipline_Mohler.html

6 – Conforme o 29º artigo da Confissão Belga, as três marcas da verdadeira igreja são: a pregação fiel do evangelho, a ministração dos sacramentos e a prática da disciplina eclesiástica.

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