Um tabu infernal: quando a ideologia suplanta a Bíblia


Resultado de imagem para infernoTalvez a grande característica da pregação evangélica pós-moderna é a sua seletividade. Um pregador desse naipe é facilmente reconhecido não pelo o que ele prega, mas justamente pelo o que ele não prega. Sobram lições subjetivas extraídas de histórias bíblicas – em grande parte, fruto de aplicações mal feitas. Falta exposição clara e sincera do texto bíblico, sobretudo daqueles que ofendem a consciência. E a ausência desses assuntos está longe de ser acidental. É uma consequencial natural de uma mentalidade que foi forjada pelos ditames desse século e não pela Palavra de Deus.

A grande faceta da mentalidade pós-moderna é sua repulsa à verdade. Tudo o que soa firme, exclusivo e definidor é excluído e tachado como intolerante. É uma mentalidade encurvada a uma verdade conveniente, inofensiva, tolerante, subjetiva e contraditória. Logo, relativa. Paulo definiu muito bem esse público e alertou Timóteo sobre seus vícios contrários à Bíblia:

“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” (2Timóteo 4:3-4).

Esse público já está presente na igreja. E ele parece crescer. Talvez às custas de pregadores mais à Freud, Marx e Sartre do que discípulos de Cristo. Esse público tem sua audição treinada no secularismo e exige da pregação – e dos pregadores – uma perfeita sujeição a ele. Tudo para evitar uma consciência ofendida. Esse público quer ouvir falar de um amor imoral, ingênuo e sentimentalista. Quer uma graça que justifique o pecado e o valide, que não justifique o pecador. Quer ouvir falar de um reino que seja radical em questões ambientais, que seja inflexível em denunciar a desigualdade social, que seja avivado em denunciar o imperialismo americano, que faça um levante contra a moral judaico-cristã e que debata a aceitação das novas configurações familiares. Jamais um reino que pregue o arrependimento. Justamente um reino que não é deste mundo, não é visível e tem como prioridade em sua agenda a conversão de pecadores.

O que, então, melhor exemplifica o efeito pernicioso dessa mentalidade atualmente? É o inferno. Ou melhor, sua extinção dos púlpitos. O inferno, tal como ensinado nas Escrituras, não cabe numa consciência banhada no politicamente correto. E isso é visível na tentativa dos mestres pós-modernos em desconstruí-lo. A ponto dele deixar de existir. Se antes, a realidade do inferno era inquestionável e quase onipresente nas preleções bíblicas, hoje a ignorância em torno dele é quase unânime. Seja pelo esforço em distorcê-lo ou pelo silêncio que o cerca. Para a mente pós-moderna, o inferno é um tabu e deve sê-lo sempre. Quanto mais for, melhor. Portanto, a prova de que há algo errado com alguns setores evangélicos é o fato do inferno receber o mesmo tratamento que o tema sexo recebia não muito tempo atrás. Tornou-se, repito, um tabu.

Em geral, os defensores de um inferno não literal e temporário valem-se de um malabarismo hermenêutico, a fim de esvaziar o significado das palavras que são traduzidas como inferno e relativizam o contexto histórico no qual elas foram empregadas. Em suma, um trabalho hercúleo para negar o óbvio. Como se um matemático tentasse provar que dois e dois não são quatro porque dois não representa dois nem quatro representa quatro.

Entretanto, basta uma visão simples de teologia bíblica para concluir que o conceito de inferno, como uma punição, está fortemente presente nas Escrituras. E de forma clara. Há a arca, a destruição de Sodoma e Gomorra, a maldição sobre Faraó, a terra engolindo os israelitas murmuradores, a dispersão do povo judeu pelos babilônicos. E, claro, todo ensino de Jesus ao longo dos evangelho. Este tão patente, que faz de Jesus, ironicamente a maior expressão do amor de Deus, o maior comentarista do assunto em toda a Bíblia (Jo 3:17,18,36; Mt 5:21,22,27,30; 13:30, 40-43, 49,50; 18:6-9; 23:15,33; 24:51, etc). Exaltar o amor de Deus e a doçura de Cristo e sentir-se constrangido em falar sobre o inferno significa ter uma cristologia aleijada. Uma visão sobre o Filho de Deus que não é bíblica.

E o que a transformação do inferno em um tabu evangélico tem gerado? Confusão. Cristãos sem um conceito bíblico de inferno são míopes em sua visão do amor de Deus, sua justiça, santidade e Graça. E isso torna-se notório por meio de um evangelismo ou pregações que dizem proclamar um deus de amor, mas que é impotente, líquido e assimétrico em seus atributos.

Ao negar o inferno, não são poucos que se veem em problemas sérios para compreender a encarnação, crucificação e ressurreição de Cristo. Esses eventos, centrais para a experiência cristã, perdem sentido num terreno onde o pecado não é grave e nem será punido. E a história tem mostrado que a relativização do inferno só faz transformá-los em objetos de lições de autoajuda para enfrentar esse mundo cruel ou em aplicações subjetivas de sabedoria e paz interior. Todo o poder (Rm 1:16) é esvaziado.

Por fim, negar o inferno é negar a autoridade bíblica. É afirmar o que a Bíblia nega. É negar o que a Bíblia afirma. Se reconhecer a autoridade das Escrituras é submeter-se ao seu ensino, por mais duro e impopular que ele seja, negar o inferno, quando a Bíblia o afirma categoricamente, é opor-se a ela e arbitrar sobre seu conteúdo, filtrando somente o que é conveniente ao ouvido pós-moderno (2 Tm 4:3-4). Isso é insubordinação pecaminosa.

Antes de finalizar, contudo, é de bom tom deixar clara a importância do correto entendimento sobre o inferno. Ao contrário do que os teólogos pós-modernos afirmam, ele não ofusca o amor de Deus, mas amplia seu brilho. Não mancha sua Graça, mas a coloca num pedestal. Não produz medo nem espalha o terror, mas cria corações tementes (Ec 12:8). Ou não é magnífico saber que muitos serão poupados da punição eterna sem qualquer mérito pessoal? Se aplaudimos uma operação contra corrupção no Brasil, que alegria não sentiremos quando, no último Dia, vermos todo sangue inocente ser vingado?

Resumindo: o mal será punido porque Deus é santo. O inferno é um consolo contra o império do mal. Um dia ele cessará. A mentira, a dor, a morte e a injustiça serão dissolvidos diante do juízo de Deus. Porque ele é justo. E Deus será eternamente louvado por lábios infinitamente gratos por não terem recebido a recompensa que seus atos mereciam, mas que adentraram o céu pelo mérito de Jesus, santo e justo. O inferno faz menção à beleza do caráter de Deus tão quanto a sujeira faz de um bom banho algo desejável.

Nunca foi tão urgente falar sobre o inferno. Foi justamente esse o conselho que Paulo deu a Timóteo:

“Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.” (2Timóteo 4:5).

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

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Sou filho de Deus.

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