Por que não sou ateu


MORTOPrimeiro, eu gostaria de esclarecer que este artigo não é um argumentum ad hominem, mas uma crítica ao ateísmo enquanto cosmovisão. Sei que é desnecessário, mas em tempos de profundo melindre intelectual, faço questão deixar registrado meu respeito pelo ateu sincero, aquele que se julga incapaz de crer na existência de Deus, seja porque não encontrou coerência intelectual em tal crença, seja porque não julga as evidências disponíveis suficientemente convincentes para nutrir uma crença nele.

O grande fracasso do ateísmo, a meu ver, é que ele é intelectualmente incapaz de refletir a existência humana, se levar à cabo as implicações morais de sua cosmovisão. A ele só resta o silêncio diante da imensidão do universo associada ao dilema da vida. O ateu é alguém que não consegue relacionar o fato de “não ter vindo de lugar algum e não ir para lugar algum” com uma vida que faça sentido. Alias, sentido, propósito e valor não são adjetivos que ele possa associar a vida. O artigo é para tentar explicar isso.

Negar a existência de Deus é tão desafiador quanto afirmá-la. Ambas empurram seus  respectivos defensores à busca por definições sobre questões sensíveis e que intrigam o ser humano há milênios. Tanto o crente quanto o ateu se deparam com questões como imortalidade, a existência do mal, a moral, a existência do universo, de todos os seres viventes e, claro, de nós mesmos, sendo pressionados a se posicionar sobre cada uma delas. Este último aspecto é interessante: somos os únicos nesse universo capaz de fazer a pergunta “por que eu existo?”.

Comentando sobre isso, Blaise Pascal afirmou nossa grandeza. Somos miseráveis e sabemos disso. Somos como poeira se comparados ao tamanho do universo. E sabemos disso. Nosso conhecimento adquirido nos permite concluir que a qualquer hora podemos ser esmagados por forças infinitas de um universo infinito. Nós sabemos disso. O universo, não. E isso nos faz diferentes. Pequenos e grandes ao mesmo tempo.

Isso, portanto, nos leva a fazer as indagações que todos já se fizeram um dia: “Por que nasci?”, “De onde vim?”, “Para aonde vou?”. Se todos já se fizeram essa pergunta, nem todos foram em busca das respostas. Muitos desistiram no meio do caminho: optaram pelo entretenimento e pelo conformismo para não serem vencidos pelo desespero.

Então, sobre o quê o ateísmo é incapaz – daí o seu fracasso – de discursar? Sobre o sentido, o valor e o propósito da vida. Não são conceitos superficiais, mas falarei sobre eles sucintamente sob a ótica ateísta para finalizar com a resposta do cristianismo e fundamentar minha recusa pelo ateísmo como cosmovisão.

SENTIDO

Steven Weinberg, ateu famoso e Nobel, escreve em sua obra sobre cosmologia The first three minutes:

“Quanto mais o universo parece compreensível, mais parece sem sentido”.

Se Deus não existe, logo a única explicação para o universo é o nada. Nada, nenhum sentido há por trás de sua existência. Ele é apenas o produto improvável de forças impessoais numa combinação improvável que permitiu toda essa estruturação que conhecemos. Sem qualquer sentido ele “nasceu” e assim ele caminhará até sua morte – aliás, a morte do universo é a grande convicção da ciência moderna.  Se é assim com ele, também o é conosco. Já que o universo acabará em nada, ele é nada. O ser humano é um nada cósmico, igualmente.

Portanto, não faz diferença se você se esforçou para uma vaga na universidade, lutou pela erradicação da fome na África, socorreu refugiados ou lutou contra Hitler. Não importa o estilo, sua vida terminará no túmulo e será relegada ao esquecimento eterno. Ela não tem sentido. O ateísmo, alguém já disse, é a descoberta de que o ser humano caminha sozinho e indiferente na imensidão universo.

Pensando nesse dilema, ateus famosos e intelectuais criaram seus falsos sentidos, numa espécie de salto de fé (salto porque não é possível dar sentido ao que não tem): creram em algo que é  impossível. É o que tentaram fazer ao inventar um sentido para o ser. Alguém pode argumentar: “eu já defini o sentido para a minha vida: ajudo na preservação do meio ambiente”. Entretanto, outro pode dizer: “O sentido da minha vida está em explorar os recursos naturais para enriquecer e aproveitar ao máximo o meu dinheiro”.

Definir valor para os dois sentidos acima é um exercício moral. Contudo, surge um problema: sobre qual base moral o ateu pode definir que este ou aquele sentido é correto/bom? “Se Deus não existe, tudo é permitido”, afirmou Dostoiévski. Ou seja, a moral é relativa quando se nega um Princípio superior. Os comunistas costumavam dizer: “Deus não existe, não existe além, não existe punição para o mal. Podemos fazer o que quisermos”. Uma moral relativa é solo fértil para a morte.

Relativizar é afirmar que há sete bilhões de sentidos para a existência humana, todos igualmente válidos. Porque se Deus não existe, perde-se a referência última para análise. Mas sabemos que ao dizer que existem sete bilhões de sentidos, é porque não há um sequer efetivamente.

Porque o universo não passa a ter sentido apenas porque eu lhe atribuo algum. Sem Deus, o universo e o homem não têm sentido fundamental. O que, então, resta ao ateu? O autoengano: ele precisa fazer de conta que há algum. Isso é um escape à implicação que a inexistência de Deus traz. É uma solução superficial demais.

VALOR

Se o universo não possui um Autor, então o nada impera, de novo. O nada, uma alternativa vazia para a admissão de Deus, trouxe o universo até aqui e o levará até ao túmulo. Assim será com toda a vida presente nele. Isso inclui eu e você. Salomão já captou a conclusão disso há milênios:

Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade.Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó. (Eclesiastes 3:19,20)

Qual a implicação disso?

Não há diferença se alguém viveu como Hitler ou como Mahatma Gandhi. A vida não pode ser avaliada segundo seu valor. Porque esse conceito não cabe num universo impessoal e indiferente. Se nossa conduta e ações não podem ser avaliadas sob um prisma moral sólido e superior à nós, então qualquer avaliação é relativa e, claro, sem valor fundamental. É social, cultural e politicamente condicionada. Logo, o que é bom para um não necessariamente o é para o outro. Se o relativismo moral é verdadeiro – logicamente, o ateísmo o força a isso – então Hitler, condicionado ao seu tempo, ao seu território, à sua cultura e à cosmovisão ariana, agiu corretamente. A vida de um judeu, sob essa ótica, não pode ser valorara a ponto de ser considerado crime a perseguiçãoa ele. O pacifismo e a importância de Gandhi dependem de quem os avalia: se um indiano ou um inglês. Porque a moral é relativa. Logo, o bem e o mal não existem. São apenas construções sociais, fatos vistos sob ângulos diferentes.

Resumindo, num universo sem Deus somos juízes subjetivos. Então, qual opção coerente resta ao ateu? Viver inteiramente para si. Resta-lhe somente, portanto, o egoísmo. Viver para o outro, para ajudar ao outro, em última análise, é viver par si. Porque a motivação só pode residir nele. Se Deus não existe, a vida é uma grande ilusão – uma vaidade, no vocabulário de Salomão.

PROPÓSITO

Aqui reside, a meu ver, o grande dilema do ateísmo. Aqui o ateu se vê preso em armadilhas insolucionáveis. Ou ele um coerente infeliz ou é um feliz incoerente. Ele não consegue unir jamais coerência e felicidade sob o ateísmo.

Se a vida termina no túmulo, que importância há no modo de vida escolhido por alguém? Se a existência é um acidente de percurso e a inexistência o padrão – já que a imortalidade é um mito – qualquer adjetivação da vida é uma tentativa desesperada de não se deparar com o vazio existencial que o ateísmo traz. Se Deus não existe, então todos não passamos de um aborto da natureza, vivendo sem propósito num universo sem propósito.

Retornando à Salomão, vir à existência como um vírus é tão insignificante quanto ter descoberto a cura para o câncer. Não há diferença em se viver alguns dias ou setenta anos.  De se viver como Stalin ou como São Francisco de Assis. Porque o túmulo iguala a todos. No entanto, é válida a ressalva aqui: não é a imortalidade que traz propósito, mas Deus. Imagine-se vivendo eternamente vagando pelo universo como um cometa, sem ter para Quem viver. É o inferno.

São inúmeras as tentativas de ateus se livrarem do dilema coerência-felicidade. Não suportando o desespero lógico de um universo sem Deus, criam-no a seus próprios moldes. Natureza, Cosmo, Destino, Sorte, etc, são alguns deuses forjados por uma mente que não suporta o vazio de um ser supremo.

Outros, contudo, inventam (autoengano) propósitos para serem felizes. Abrindo mão, claro, da coerência. Apelam ao “não desperdice sua vida”. A questão é: qual o fundamento que define que uma vida é vivida em desperdício ou não? Por que morrer de overdose, viver isolado numa tribo sem contato com o mundo civilizado e descobrir a cura para a AIDS podem ser qualificadas como diferentes? Todo propósito, todo sentido ou todo valor sempre será subjetivo num cenário sem Deus.

Voltando ao autoengano como alternativa única do ateísmo, é válida a proposta de L. D. Rue: para se evitar o hospício, o totalitarismo (forçar a todos um só pensamento de vida) ou o suicídio, a única alternativa é apegar-se à “Mentira Nobre”. Invente um propósito e diga que ele é importante, ao menos para você. E busque felicidade nele, nem que seja para se definir como uma borboleta, apesar de seu biótipo humano. Escolher a coerência é casar-se com a infelicidade. Escolher a felicidade é casar-se com a incoerência. A história mostra que os ateus têm optado por esta e não àquela. São ateus mas admitem absolutos morais (qual ateu concordaria com o Holocausto, por exemplo?).

CRISTIANISMO

Se Deus existe, então o universo (e nós mesmos) veio a existir segundo um propósito, sentido e valor bem definidos eles residem no próprio Deus. Se Deus existe e ele é infinitamente superior à sua criação, então Ele tem de ser eterno. A coisa criada nunca é da mesma natureza daquele que a criou. E se Ele é eterno, então a vida não termina no túmulo. Essa síntese fixa o valor da vida humana. E a vida só tem valor porque Alguém superior lhe pode conferir tal atributo. E se ela tem valor, então há fundamento para avaliá-lo. Se há fundamento, a moral não pode ser relativa.

Essa rápida síntese das afirmações centrais do cristianismo triunfam justamente onde o ateísmo fracassa. Até aqui nenhum esforço no sentido de demonstrar que o cristianismo bíblico é verdadeiro foi empreendido. Apenas a descrição da impossibilidade do ateísmo como cosmovisão coerente.

Então quais as conclusões lógicas para a existência de Deus?

  1. O Holocausto e o Apartheid  foram malignos como o é toda a tentativa de relativizar a vida humana.
  2. A maneira como você vive importa muito, porque a vida possui valor intrínseco.
  3. O valor da vida não pode ser arbitraria ou subjetivamente definidos. Há um fundamento maior que o define.
  4. Se a vida não termina no túmulo, então a eternidade se descortina para quem deixa este mundo. Se aqui a moral existe, então ela ecoa na eternidade (a maneira como você vive importa, de novo).
  5. Se o mal e o bem existem, então deve haver um desfecho final em que um seja punido e o outro recompensado. A moral exige isso. Na verdade, a santidade de Deus dará cabo de fazê-lo.

Por fim, eu gostaria de terminar com a conclusão implícita de Nietzche, que resume muito bem os últimos duzentos anos de desespero, tédio, desesperança e medo que o iluminismo nos trouxe ao (tentar) expulsar Deus da existência humana. Nem todo o avanço científico foi capaz de eliminar esses efeitos terríveis.

“Onde está Deus?”, ele grita. “Eu lhes direi. Nós o matamos – vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. E como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desamarramos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem parar? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Restou alguma coisa em cima ou embaixo? Não estamos vagando como que por um nada infinito? Não estamos sentindo a respiração do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está chegando cada vez mais a noite? Não estamos tendo de acender lampiões de manhã? Não ouvimos apenas o barulho dos coveiros que estão sepultando Deus? […] Deus está morto […]. E nós o matamos. Como nós, os maiores de todos os assassinos, iremos consolar a nós mesmos?”

Sem Deus, o homem fica sem horizonte, vaga perdido e sem destino. É um astronauta sem gravidade na imensidão do universo. E pior: ele está sozinho. Com a morte de Deus, somos as únicas vítimas: como seremos consolados?

 

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Sou filho de Deus.

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