Cristianismo Pós-moderno 


Vivemos em um período de pluralismo de ideias, com uma ética própria. É a ética do pós-modernismo, movimento que, na prática, nega, ou questiona a validade dos valores fixos que trouxeram nossa sociedade até aqui. Ele advoga o fim de valores ou verdades absolutos. Tudo o que soe como objetivo ou concreto é desprezado. 

No que tange às religiões, o pós-modernismo possui uma ética bem definida: o pluralismo religioso. É a crença de que todas as religiões são válidas e de mensagens semelhantes, mesmo que estas se contradigam. Portanto, sob essa ótica, não há uma religião verdadeira e nem uma só concepção de Deus. Todas as religiões, então, têm contribuição a oferecer ao dilema da existência humana e devem ser ouvidas, ou não devem ser confrontadas.

“Na pós-modernidade não há espaço para Deus, ou ao menos para um Deus soberano e onipotente; Logo, verdades absolutas e imutáveis podem ser questionadas sem remorso algum” (Vinicius Salem).

Essa visão já molda boa parte do ideário evangélico, sobretudo aquele que não preza pelos absolutos cristãos, como a inerrância e inspiração das Escrituras. Na teologia pós-moderna prevalecem as dúvidas e a alta crítica como validadores do conhecimento. Bem ao estilo pós-moderno, esse setor rejeita posições doutrinárias firmes (dogmas), ou mesmo excludentes. Tacham-nas de retrógradas. Afirmações ou assuntos bíblicos que são vistos como intolerantes pelo politicamente correto (inferno, pecado, soberania de Deus, a centralidade de Cristo na salvação, etc) sequer fazem parte de sua agenda de reflexões. A historicidade tem mais autoridade do que as Escrituras. É uma teologia apaixonada por um jesus à lá Freund, Marx e Darwin.

Seu prejuízo é abrangente. Não só recriminam a autoridade da Bíblia como a entregam à cultura, à história e à ciência. Isso explica, em parte, uma prática cristã nada ortodoxa em nossos dias. Estamos vendo, por exemplo, surgir cristãos dizendo-se seguidores de Cristo, mas defendendo posições ou ideologias diametralmente opostas à ética do Reino sem a menor percepção de suas implicações. Seguem ventos doutrinários sem saber para aonde estão sendo conduzidos.

Talvez a principal característica de um cristão pós-moderno seja a sua recusa por uma cosmovisão cristã. Ele é alguém que não é capaz de entender e avaliar o mundo e sua trajetória sob a ótica bíblica. Sua percepção é superficialmente influenciada pelas Escrituras. Exemplificando o que citei no parágrafo anterior, tornou-se comum ver cristãos (muitos de denominações de visão doutrinária historicamente ortodoxa) defendendo a diversidade sexual, a legalização do aborto ou mesmo governos e partidos de viés ideológico contrário ao cristianismo histórico. E em geral, reputando sua própria defesa como uma evidência de boa espiritualidade.

Além de desqualificar o sentido da pregação bíblica, focada em verdades e sempre exigindo dos seus ouvintes uma resposta prática e real, o pós-modernismo tem trazido cadeias à evangelização bíblica. Exposto aos pecados de seu tempo, o cristão pós-moderno vê pouca utilidade na capacitação bíblica, na proclamação corajosa, na persuasão e no convencimento como ferramentas iniciais para despertar a consciência do incrédulo quanto à sua situação de condenação diante de Deus e os perigos a que sua alma está submetida enquanto ignorante sobre a oferta de salvação em Cristo Jesus.

A evangelização pós-moderna, portanto, foca nas emoções, nos eventos religiosos; ela apresenta a igreja como um clube, a fé como uma moeda supersticiosa e a experiência (ou o experiencialismo) como um juiz que define a autenticidade do seu discipulado. Nada sobre as verdades fundamentais do evangelho. Nada que contrarie ou mesmo ofenda a consciência. O objetivo supremo é deixar a pessoa bem consigo mesma, mesmo que isso custe seu relacionamento com Deus. Esse discipulado é mantido à base de mensagens terapêuticas, de caráter triunfalista e focado em finanças, mesmo sabendo que a longo prazo esse “novo” irmão engrossará as fileiras dos crentes imaturos e infrutíferos, tão comuns em nossas igrejas hoje e quase sempre envolvidos em problemas de relacionamento.

E quanto a piedade do cristão pós-moderno? Sem uma cosmovisão bíblica, ele é facilmente forjado no subjetivismo (verdade é o que é bom pra mim). Abre mão da razão, da coerência e abraça o sentimentalismo como prática religiosa. E, numa espécie de secularismo cristão, restringe a profissão de sua fé às paredes de sua igreja local. Não vê problema algum em dizer-se cristão na igreja e, no trabalho ou na faculdade, apoiar ideias condenadas pela ética cristã.

Quanto a prática restrita às paredes da igreja local, se ele for ligado a uma, vale ressaltar. Isso porque cresce os ditos crentes desigrejados, igualmente frutos da mentalidade pós-moderna. Contra toda estrutura institucional, advogam uma religiosidade sem compromisso e comprometimento, com forte rejeição ao que remeta à organização e seja formal. Nutrem aversão à subordinação e a uma vida em comunidade. Optam pelo individualismo como um refúgio contra a confrontação de seus próprios pecados. Bem ao estilo melindroso da época. Mais pós-moderno do que isso, impossível.

Seja aonde for e como for, o cristianismo (ou um cristão) pós-moderno é algo sem Cristo, sem cruz. É irrelevante, sem sal. É inútil. Por ter abandonado o evangelho da cruz, esse cristianismo segue correndo atrás da mais nova tendência cultural e social. Seu discurso é facilmente moldado pela mais recente problematização, por uma agenda escusa e impura. Jamais a agenda do Reino. É facilmente cooptado porque não possui raízes próprias e bem fundadas nas Escrituras. Sua prática religiosa visa à “relevância”, aquela prática que pareça engajada e atraente ao mesmo mundo pós-moderno. Ser relevante é ser um mero repetidor da ética pós-moderna.

O evangelho da cruz é absoluto em suas afirmações. Não está preso ao tempo, à cultura e muito menos à política. Ele jamais negocia seus pilares para parecer atraente à sua época. Aonde a mensagem do reino chega, ela muda o ambiente. Jamais o contrário. Isso porque o evangelho visa atingir o homem. E ele permanece o mesmo: destituído da Glória de Deus até a luz de Cristo resplandeça sobre ele.

PS.: A imagem do post é um bom exemplo da arte pós-moderna. Só tem sentido se não fizer sentido.

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Sou filho de Deus.

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