Asafe: da inveja para a graça 


O salmo 73 é um testemunho pessoal de um crente em Deus que teve sua vida arruinada, por um momento, pelo pecado da inveja. Seu nome era Asafe. Ele era músico e compositor e exercia uma posição importante no culto e no pensamento religioso de sua época, pois expressava, por meio de canções, as obras de Deus na vida diária de seus filhos.

Mesmo nessa posição, deixou-se dominar pela inveja. Por misericórdia divina, não sucumbiu a ela. No verso dois ele diz que quase se desviou, tamanho o estrago que ela fez a ele e à sua fé em Deus. No verso dezessete ele relata o início da sua restauração.

Sendo assim, à luz do do que Asafe vivenciou, o que podemos refletir sobre esse período de sua vida e os problemas de olhar a vida sob a ótica da inveja? 

Primeiro, ela é pecado. Desperta-nos a cobiça e a inimizade em relação ao próximo. (1 co 3:3).

Segundo, é pecado quanto a seus efeitos: ela começa por desviar nossos olhares de Deus – sua excelência, amor e caráter – para a vida do meu próximo, no caso de Asafe, o ímpio. Que tombo na visão ela promove!

O que perturbou Asafe foi assistir a prosperidade dos soberbos, dos ímpios, e logo ter todo seu sistema teológico entrar em colapso diante de um velho dilema judaico: como coisas boas podem acontecer a pessoas más?

Mas a inveja não apenas desviou seu olhar, fazendo-o olhar exageradamente para o curso de vida do ímpio. Ela distorceu sua visão da realidade, esmagou seu senso crítico a ponto dele perder o juízo e a capacidade de analisar os fatos. Com isso, ela o leva ao erro de achar que só o que os outros fazem possuem valor.

Uma mente confusa

Com seu olhar fixado no soberbo, ele passa a tirar conclusões próprias, de forma que entra num ciclo vicioso: quanto mais conclui, mais observa o ímpio. Quanto mais observa, mais dominado pela inveja se torna.

Ao olhar, ele se admira com o fato de a morte parecer não ser um problema ou motivo de preocupação para o ímpio, afirmando que ele vive como se ela não existisse (v.4). Ele conclui que a morte não visita os ímpios, até que aproveitem o melhor da vida e do tempo. Os ímpios são livres das aflições da vida, e não são atribulados (v.5). Suas vidas de pecado e arrogância são seu deleite e lhes recompensam diariamente (v. 6). São vitoriosos em seus propósitos e conseguem trazer à realidade todos os desejos de seu coração caído (v.7).

Asafe prossegue em admirar-se com o aparente triunfo de que gozam os ímpios. São tão firmes, pensa ele, que se dão ao luxo de revoltarem-se contra Deus, de mesmo o amaldiçoarem e de ridicularizarem a existência de um Ser soberano, sem nenhum prejuízo ao curso de suas vidas por praticarem tais atos. Os ímpios progridem alimentados por sua ignorância de Deus.

Na análise contida nos versículos 8 a 12, Asafe parece mais cônscio da realidade, embora seu senso crítico permaneça afetado. A descrição que ele faz da atitude do ímpio para com Deus reflete, sim, a realidade (desprezo, ignorância, zombaria e incredulidade). Mas ele falha em sua análise final, ao afirmar que tais atitudes fortalecem ainda mais o modus operandi de suas vidas (v.12).

A perda da felicidade e o foco errado 

De tanto observar o ímpio, ele passa a olhar para si mesmo com desprezo, seus esforços como inúteis e sua vida como sendo fadada ao fracasso. (v.13-14). Ele condena a si mesmo. No seu imaginário, ele é o retrato do fracasso.

Esse é o ápice da atuação da inveja. Ele começa com a perda da felicidade em Deus. Quem Ele é, o que Ele faz, o que Ele promete já não constituem mais a base da felicidade do crente. O conhecimento de Deus não lhe provoca regozijo, alegria e contentamento. Os assuntos espirituais perdem interesse. A busca por santidade e uma vida de serviço ao Reino parecem, agora, inúteis e uma grande perda de tempo. A inveja assalta o coração com uma dose poderosa de tédio e insatisfação. Deus não desperta mais seus afetos. A inveja, então, exige um substituto para prosseguir em sua obra: o próximo.

Uma vítima da inveja é alguém que sabe tudo sobre o outro (numa aplicação mais ampla, esse outro não necessariamente é um ímpio, mas pode ser um irmão de fé, uma pessoa próxima e amada, ou alguém que nem mesmo se conheça pessoalmente) e nada sobre si mesma. Ela tem detalhes exagerados sobre seus afazeres, sobre seus objetivos e sobre suas conquistas. Ela conhece seus gostos e suas preferências. Tudo isso, infelizmente, ao custo da própria existência.

Nesse estado, a própria vida não faz nenhuma diferença. Isso porque a inveja já elegeu um substituto a Deus. Então, toda felicidade, através dos sonhos, dos planos e das preferências está projetada no outro. Sua felicidade, imagina ela, seria real se tivesse o que o outro tem, estando na sua posição e fazendo o que ele faz.

Contudo essa felicidade jamais será satisfeita. Antes, nela, ela se converterá em amargura constante, pois uma vida paralisada já se estabeleceu enquanto gasta-se à observação. A inveja atrofia a capacidade de agir, de ir atrás do que se deseja. É uma lástima.

“Quando pensava em compreender isso, fiquei sobremodo perturbado” (v.16).

Ao dedicar sua vida a entender os caminhos do ímpio, a admirar o rumo de suas vidas, Asafe ganhou uma profunda depressão. Não restou mais nada.

A virada 

Asafe, então, testemunha como chegou ao fim desse martírio que a inveja lhe causou. Ele volta à casa de Deus (v.17). Esse voltar não se resume ao retorno ao lugar de adoração (o que muitos poderiam definir como uma frequência maior de cultos ou a reconciliação, caso a inveja provocasse o abandono da fé). É mais do que isso.

O tabernáculo representava o lugar de adoração, mas também o lugar de encontro, o lugar do pacto entre Deus e o povo, de reconhecimento da grandeza e do Seu poder, de Sua glória e santidade, de Sua graça e amor. Era lugar de restauração, de reflexão da lei e de confissão. Era ali que Deus se revelava.

O que aprendemos com isso? Ao entrar no tabernáculo, Asafe teve sua visão do ímpio corrigida porque, primeiramente, sua visão de Deus fora restaurada. Somente a partir desta que aquela pôde ganhar forma. “Então eu entendi o fim deles” (v.17). Agora, tanto o olhar quanto o senso crítico de Asafe estão restabelecidos.

Tudo isso após ver Deus! Ah! Como os nossos problemas, os nossos desânimos, as nossas frustrações seriam logo dissipadas tão logo nós nos puséssemos a contemplar a beleza de Deus! Quão menos suscetíveis seríamos se vivêssemos da contemplação diária dos atributos de Deus! Eles são um remédio infalível contra a inveja!
Com sua vista e razão em dia, Asafe conclui a brevidade e o fim dos ímpios. Ele projeta e compara o que lhe aguarda na eternidade e o que espera o ímpio. Como somos curados quando os valores eternos do reino de Deus passam a formar nossa visados vida e do mundo!

Os ímpios serão destruídos. Sua felicidade é aparente e instável. Estão privados de esperança nesta vida. Não tem quem os socorrer no dia da angústia. Estão sozinhos, apesar da riqueza e da segurança atuais. São assaltados pelo medo quando veem seu castelo de areia desmoronar (v.17-19).

Que diferença para o Asafe que se encantou pelos ímpios no início!

Asafe prossegue celebrando os benefícios de sua vida com Deus. Sabe que em vida terá a companhia de Deus para todos os momentos e que ao fim desta jornada será recebido nos céus, onde gozará de eterna alegria.

Por fim, ele testemunha a restauração do seu objeto de deleite. A inveja tinha roubado o lugar do Senhor e o substituído pela frágil vida do ímpio. Agora, contudo, Asafe é capaz de voltar-se para Deus com a pergunta típica de alguém que tem nEle todas as fontes de sua vida, que O tem em mais elevada estima, que vê no Senhor a fonte de sua felicidade:
“A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti” (v.25)

Verdadeira felicidade. Verdadeira vida. Completude existencial. Satisfação real e além das circunstâncias. Tudo o que a inveja roubou e que não pode oferecer, Asafe reencontrou em Deus.

Por fim, sua comunhão com o Deus todo-poderoso é reestabelecida também. É um rumo natural após ser curado. É conclusão óbvia após ter seu senso crítico devolvido: “mas para mim, bom é aproximar-me de Deus”.

É o fim de uma vida focada no ímpio, na efemeridade de sua prosperidade e nas suas obras. É o fim da amargura por projetar a própria felicidade na do outro. É o fim de uma vida paralisada por apenas ficar olhando o outro viver.

É um reinício. É o retorno ao terreno seguro da comunhão com Deus, da sua graça, onde os pés sempre estarão firmes e as mãos seguras. É o reencontro com a esperança do Reino, que nos satisfaz as necessidades dessa vida e gera uma maravilhosa expectativa pela a que aguarda todo aquele que encontrou Deus.

E você? Vai ficar vivendo a vida do outro ou vai viver a vida de Deus?

Asafe, um dos maiores salmistas e líder religioso de seu tempo reencontrou Deus, que corrigiu o curso de sua vida e deu-lhe verdadeira visão. Não lhe faltou perdão. Assim é com todo aquele que vai ao Senhor: de maneira nenhuma será lançado fora. Antes, encontrará a vida e a cura para o coração.

Tiago

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Sobre Blog do Lino
Sou filho de Deus.

One Response to Asafe: da inveja para a graça 

  1. jonan gregorio da silva says:

    que bela mensagem , abracos.JONAN

    Date: Thu, 21 May 2015 06:15:54 +0000 To: jonangregorio@hotmail.com

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