Justificação pela fé: o legado da Reforma Protestante. Pra quem?


FIDE

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:1-2)

O assunto da justificação pela fé é um dos pilares do cristianismo, sem o qual a fé cristã não pode se sustentar. Ela é o coração do Evangelho. A descoberta desse assunto, escondido por séculos de domínio da teologia católica a respeito da salvação, selou a Reforma Protestante com Lutero e trouxe à luz preciosas verdades a respeito da salvação do pecador, sem as quais nenhuma esperança de reconciliação com Deus vinga. Olhando para a história, a justificação pelas obras apenas gerou medo, insegurança e religiosidade nos crentes.

Contudo, apesar de quase 500 anos após Lutero pendurar suas 95 teses na porta da igreja de Winttenberg, esse assunto ainda soa muito estranho aos cristãos de nossa era, de forma que alguns chegam a rejeitar a justificação pela fé somente.

Justificação é um termo forense, comumente utilizado em tribunais. Justificar é declarar alguém justo. Diante de um juiz, um réu apenas tem duas opções quanto ao seu futuro: ser declarado culpado ou justo. No primeiro caso, o réu é oficialmente declarado devedor da lei, tendo, portanto, que quitar sua dívida para com ela. No segundo, ele é declarado livre de qualquer obrigação perante o tribunal, não tendo culpa.

Quando pensamos que o juiz é Deus e que o réu somos todos nós, pecadores, passamos a ter uma noção da gravidade e da importância do assunto. O pecado nos colocou em dívida com a Lei de Deus, o que exige nossa pronta condenação. A desobediência de um só ponto da lei faz do infrator culpado, fazendo com que a justiça de Deus exija a condenação e a morte – esse é o salário do pecado – do transgressor. Agora, ponha-se a imaginar a multidão de pecados praticados em um dia somente por uma pessoa. Vá mais além e some os pecados de uma vida inteira! Esse é o real cenário de todo ser humano perante Deus, terrivelmente santo e justo. Não há dúvidas de que a justiça divina será feira e a pena aplicada a todo aquele que pecar.

Por isso não pode haver relacionamento entre Deus e o homem à parte da justificação. Eles sempre estarão em litígio e permanecerão sobre o pecador a ira e a inimizade de Deus (Rm 5:10; Ef 2:3). Nenhuma obra humana, boa ação ou compensação pode ser feita para que esse quadro se reverta. O que a Bíblia diz é que a iniciativa tem de ser – e só pode ser – de Deus. “É Deus quem os justifica” (Rm 8:33).

O que Paulo argumenta a partir do capítulo 3 de sua carta aos Romanos, é que a justificação é uma obra da graça de Deus, sem qualquer participação do homem, sendo recebida por este pela fé. (cf. Rm 3:20, 24, 28; 4:2; 5:1, 9; 8:30). Isto é, Deus, em sua infinita bondade, decide declarar o homem justo e, portanto, quite com a sua Lei, removendo a dívida e a culpa que o pecado impõe. Deus é a fonte da justificação do homem. Através disso, não há mais condenação; a relação outrora litigiosa torna-se pacífica – “temos paz com Deus” (Is 53:5; Rm 5:1); a aceitação do homem torna-se plena. Em outras palavras, Deus não está mais contra nós – Ele é por nós. Essa é uma das bênçãos.

Há de se ressaltar ainda a base da justificação. Baseado em quê Deus diz que pecadores não possuem mais dívida com Sua lei? A resposta é a cruz. O Antigo Testamento assevera que Deus jamais absolve um ímpio e que tal atitude sendo feita por alguém é abominável aos seus olhos. “porque não justificarei o ímpio” (Êxodo 23:7). “Quando houver contenda entre alguns, e vierem a juízo, para que os julguem, ao justo justificarão, e ao injusto condenarão” (Deuteronômio 25:1). “O que justifica o ímpio, e o que condena o justo, tanto um como o outro são abomináveis ao Senhor” (Provérbios 17:15). Como, então, pode fazer algo que Ele mesmo condena?

A resposta é a cruz. É por ela que a nossa justificação não é algo injusto, contraditório ou imoral. Os nossos pecados não passaram despercebidos aos olhos santos de Deus. Eles foram devidamente condenados na cruz. De uma vez por todas, há dois mil anos, o escrito de dívida que pesava sobre nós foi pago e a nossa justificação pôde ocorrer. “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus (1 Pedro 3:18). A nossa culpa e condenação foram imputadas a Cristo; a Sua justiça foi imputada a nós. Nessa substituição, Deus nos declara justos. Repito: sem a cruz nada disso poderia ocorrer. Daí é direta a conclusão de que a justificação jamais pode ser por nossas obras. Somente pelas de Cristo.

Além da paz com Deus, outra bênção da justificação é a segurança. “No qual estamos firmes”. Tendo visto que o fundamento da nossa justificação é a obra de Cristo consumada na cruz, não resta mais temor quanto aos resultados dela. Nossa justificação não é temporária ou condicional, pois não se baseia em nossas obras. Ela é eterna e perene, pois Cristo é a nossa justiça. Agora e sempre. Por isso podemos confiar que a paz com Deus jamais findará, uma vez que fomos justificados; que jamais seremos tratados conformes os nossos pecados, mas conforme os méritos de Cristo; que jamais nossos pecados insinuarão “novas” dívidas, pois Deus é justo. Ele já julgou e condenou nossos pecados ao punir Seu bendito filho em nosso lugar. O cálice já foi tomado. Ao declarar-se indigno por ser pecador, a Bíblia diz que o publicano em Lucas 18 “desceu justificado para sua casa” (v.14). Não foi algo parcial. Foi completo.

É fácil entender porque essas verdades caíram como uma bomba no arraial legalista que imperou até Lutero. É fácil entender o senso de liberdade experimentado por todos aqueles que tiveram contato com tão preciosas palavras, àquela época com mais de 1500 anos de registro. Toda a dúvida, todo temor, toda insegurança se esvaíram pela certeza de que Cristo é a nossa justiça e de que nele estamos seguros eternamente. “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).

Infelizmente, a heresia e o humanismo não cessam de assolar a igreja e distorcem a pregação, o ensino e a compreensão da Palavra de Deus atualmente, limitando o alcance e o poder transformador dessas verdades entre os que professam fé em Jesus. Muitos ainda são tentados a incluir suas obras na justificação; incrivelmente muitos combatem o “sola fide”. E o que podemos esperar? Confusão, confusão e confusão. A beleza do Evangelho é ofuscada e a glória de Deus é atacada quando insinuam a participação humana na salvação do pecador. E, apesar de 497 anos de Reforma Protestante completados em 31 de outubro de 2014, os resultados são os mesmos da época de Lutero: escuridão espiritual.

Que o senhor livre o seu povo do engano!

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Sou filho de Deus.

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