O desaparecimento da Disciplina Eclesiástica – R. Albert Mohler Jr.


disciplinaO declínio da disciplina é talvez a falha mais visível da igreja contemporânea. Sem se preocupar com a manutenção da pureza na confissão ou estilo de vida, a igreja contemporânea parece em si mesma uma associação de membros autônomos com a mínima responsabilidade para com Deus, muito menos para com o próximo.

A ausência da disciplina não é mais notável – geralmente nem é percebida. Disciplina reguladora e restauradora na igreja já não é mais, para muitos membros, uma categoria significativa ou mesmo uma memória. A presente geração de ministros e membros da igreja está virtualmente sem experiência bíblica de disciplina eclesiástica. declínio da disciplina é talvez a falha mais visível da igreja contemporânea. Sem se preocupar com a manutenção da pureza na confissão ou estilo de vida, a igreja contemporânea parece em si mesma uma associação de membros autônomos com a mínima responsabilidade para com Deus, muito menos para com o próximo.

Na verdade, a maioria dos cristãos introduzidos ao ensino bíblico referente à disciplina eclesiástica enfrentam a questão da disciplina eclesiástica como uma ideia que eles nunca encontraram antes. Na primeira audiência, a questão parece antiquada e estrangeira como a Inquisição Espanhola1 ou a série de audiências e processos movidos contra pessoas acusadas de bruxaria na colônia de Massachusetts entre fevereiro de 1692 e maio de 1693. A única familiaridade deles com o ministério disciplina da igreja é frequentemente uma invenção literária tal como A Letra Escarlate2.

Contudo, sem uma recuperação da disciplina funcional da igreja – firmemente estabelecida sobre os princípios revelados na Bíblia – a igreja continuará em seu deslize na desintegração moral e no relativismo. Os evangélicos tem reconhecido a disciplina como a “terceira marca”3 da verdadeira igreja. A autêntica disciplina bíblica não é uma opção, mas uma marca necessária e integrante do Cristianismo autêntico.

Como isso acontece? Como a igreja pôde abandonar tão rápida e incisivamente uma de suas mais essenciais funções e responsabilidades? A resposta está nos desenvolvimentos interno e externo da igreja.

Simplificando, o abandono da disciplina eclesiástica está associado à acomodação rasteira da igreja americana à cultura de seu país4 . Logo se iniciou o século XX, a acomodação da igreja tornou-se cada vez mais evidente como a sua concordância com a cultura do individualismo moral.

Embora o Século XIX não tenha sido uma era de ouro para o evangelicalismo americano, esse Século viu a consolidação da teologia evangélica e dos padrões da igreja. Manuais de disciplina eclesiástica e registros congregacionais indicam que a disciplina foi aplicada regularmente. Igrejas protestantes exerceram a disciplina como um ministério natural e necessário aos membros da igreja, como um meio de proteger a integridade moral e doutrinária da congregação.

Assim como os ardentes congregacionalistas5, os batistas abandonaram um registro particularmente instrutivo da disciplina do Século XIX. O historiador Gregory A. Willys6 comentou com propriedade: “Para um batista que viveu antes da guerra, uma igreja sem disciplina dificilmente seria considerada uma igreja”. Igrejas realizavam reuniões denominadas “dias de disciplina”, quando a congregação se reunia para curar as violações de comunhão, admoestando membros desobedientes, repreendendo aquele que insistia no erro, e, se fosse necessário, excomungar aqueles que resistiam à disciplina. Ao fazerem isso, as congregações entendiam estar seguindo um padrão bíblico apoiado por Cristo e pelos apóstolos para a proteção e correção dos discípulos.

Nenhuma esfera da vida era considera fora da responsabilidade da igreja. Membros eram conduzidos em suas vidas e testemunhos em harmonia com a Bíblia e com os princípios morais estabelecidos. Dependendo da política da denominação, a disciplina era codificada através de convenções nas igrejas, livros de disciplina, manuais congregacionais e confissão de fé. A disciplina envolvia tanto a conduta quanto a doutrina. Membros eram disciplinados por comportamentos que violavam princípios bíblicos ou convenções congregacionais, mas também por violações de doutrinas e credos. Membros eram ensinados a estar debaixo da autoridade da congregação e a serem responsáveis uns pelos outros.

Na virada do século, contudo, a disciplina eclesiástica entrou em declínio. Com o surgimento do iluminismo, a crítica à Bíblia e às doutrinas da ortodoxia evangélica foram muito difundidas. Mesmo as denominações mais conservadoras começaram a mostrar evidências de que a atenção à teologia ortodoxa estava diminuindo. Ao mesmo tempo, a cultura moveu-se de forma mais ampla à adoção de um individualismo moral autônomo. O resultado desse desenvolvimento externo e interno foi o abandono da disciplina eclesiástica, assim como uma porção maior da vida do membro da igreja foi considerada fora dos limites da congregação.

Esse grande desvio na vida da igreja seguiu as profundas transformações culturais do início do século XX – uma era do pensamento “progressivo” e liberalização moral. Na década de 1960, apenas uma minoria das igrejas aparentava praticar uma disciplina regular em suas congregações. De forma significativa, a responsabilidade confessional e moral foram abandonadas de forma generalizada.

A categoria teológica do pecado foi substituída, em muitos círculos, pelo conceito psicológico de terapia. Como Philip Reiff7 argumentou, o “Triunfo da Terapêutica” é agora uma fixação da moderna cultura americana. Os membros da igreja podem fazer más escolhas, deixar de viver de acordo com as expectativas de uma cultura opressiva, ou serem inadequadamente auto-realizados, mas eles não pecam mais.

Os indivíduos agora reivindicam uma enorme área de privacidade pessoal e autonomia moral. A congregação – redefinida como uma mera associação voluntária – não tem o direito de se intrometer nesse espaço. Muitas congregações foram privadas de fazer qualquer confronto até ao pecado mais público de seus membros. Consumidas pelos métodos pragmáticos de crescimento de igreja e de administração congregacional, muitas igrejas deixaram as questões morais para o campo da consciência individual.

A grande noção de vergonha foi descartada por uma geração que considera a vergonha um impedimento desnecessário e repressivo à satisfação pessoal. Mesmo os observadores seculares tem notado a falta de vergonha da cultura moderna. Como James Twitchell comenta, “temos tentado, nessa última geração, empurrar a vergonha de lado; os movimentos de potencial humano e recuperação da memória em psicologia; o relativismo moral de parte da cristandade; a transformação da livre penalidade e a concepção de que todas as ideias são boas na mais alta instrução; o surgimento do comportamento sem culpa perante a lei; as frequentes distorções ultrajantes na narrativa da História de maneira que certos grupos sintam-se melhores em si mesmos; e o ‘eu estou livre de me sentir envergonhado, mas você deveria estar envergonhado por si mesmo’ tom de discurso político são apenas alguns dos casos em que isso pode ser visto8.

Twitchell vê a igreja cristã contribuindo e cúmplice dessa transformação social e do abandono da vergonha – que é, primeiramente, um produto natural do comportamento pecaminoso. “Olhando para a igreja cristã hoje, você só pode perceber uma escura pintura que foi uma vez pintada com cores vivas. O cristianismo simplesmente a tem perdido. Já não articula o ideal. O sexo está à solta. Dias de vergonha estão findados. O diabo sumiu com o pecado. Como Twitchell lamenta, “vá e não peques mais” foi substituído por “não julgue para que não sejas julgado”.

A demonstração desse abandono moral é principalmente vista através de uma rendição do Protestantismo a uma ética de liberação sexual. O Protestantismo liberal perdeu qualquer crédito moral na esfera sexual. A homossexualidade não é condenada, mesmo sendo claramente condenada na Bíblia. Pelo contrário, os homossexuais conseguem bancada especial na assembleia denominacional e suas próprias publicações e direitos especiais.

Os evangélicos, embora ainda aleguem adesão aos padrões bíblicos de moralidade, de forma esmagadora se renderam à cultura do divórcio. Onde estão as congregações que mantém os casais responsáveis por seus votos de casamento? Em grande escala, os evangélicos estão apenas um pouco atrás do protestantismo liberal em acomodar a cultura do divórcio e em aceitar o que equivale à monogamia serial – a fidelidade momentânea a um parceiro conjugal.

Vinculada à preocupação em ofender os membros da igreja está a ascensão da “cultura de direitos”, que vê a sociedade somente em termos de direitos individuais, em vez da responsabilidade moral. Mary Ann Glendon10, da Escola de Direito de Harvard registra a substituição da “liberdade de expressão” pelo discurso moral. Incapazes ou relutantes em tratar com categorias morais, homens e mulheres modernos se utilizam da única linguagem moral que conhecem e entendem: a alegação desembaraçada para “direitos” que a sociedade não tem autoridade em negar ou limitar. Contudo, essa “liberdade de expressão” não é limitada apenas na sociedade secular. Membros de igrejas estão tão comprometidos com sua própria versão de “liberdade de expressão” que algumas congregações aceitam quase que qualquer comportamento, crença ou “estilo de vida” como aceitáveis, ou pelo menos “fora” dos limites da sanção congregacional.

O resultado disso é a perda do padrão bíblico para a Igreja e o iminente colapso da autenticidade da igreja nessa geração. Como Carl Laney lamenta, “a igreja de hoje está sofrendo de uma infecção que tem permitido-a apodrecer. Como uma infecção enfraquece o corpo ao combater seus mecanismos de defesa, assim a igreja foi enfraquecida por essa terrível ferida. A igreja perdeu sua eficiência em servir como um veículo de social, moral e espiritual. Essa doença é, em parte, devido à negligência da disciplina eclesiástica.

1 Inquisição Espanhola – Uma corte estabelecida na Igreja Católica Romana Espanhola em 1478 para investigação e punição daqueles que eram considerados heréticos, que eram reprimidos com crueldade. Essa perseguição também incluiu Prostestantes.
2 The Scarlet Letter – Livro de Nathaniel Hawthorne de 1850, uma estória de ficção o qual retratava a vida de uma jovem adúltera que foi obrigada por uma côrte a usar uma letra A vermelho escarlate em sua roupa, que é considerado um exemplo de severidade puritana. 
3 Terceira Marca – A identificação da correta disciplina como a terceira marca da igreja remonta pelo menos à Confissão Belga (1561 – consultar a referida confissão). De igual modo, os Princípios Resumidos da Confissão de Fé do Seminário Teológico Batista do Sul (1858) identifica as três marcas essenciais como verdadeira ordem, disciplina e adoração.
4 Esse artigo reflete a posição do autor em relação à igreja de seu  país, EUA. Contudo, essa tendência é universal e é difícil negar que seja também uma característica da igreja brasileira.
5 Congregacionalistas – Aqueles que acreditam que as igrejas locais e individuais são autônomas em seu governo e estão sob a liderança de Cristo.
6 Gregory A. Willys – Democratic Religion: Freedom, Authority, and Church Discipline in the Baptist South 1785-1900 (New York: Oxford University Press, 1997)- Professor de História da Igreja no Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, KY.
7 Philip Reiff (1922-2006) – The Triumph of the Therapeutic: Uses of Faith after Freud (Chicago: University of Chicago Press, 1966) – foi um sociólogo e autor.
8 James B. TwitchellFor Shame: The Loss of Common Decency in American Culture (New York: St. Martin’s Press, 1997) – professor da Universidade da Flórida.
9 Mary Ann Glendon – Rights Talk: The Impoverishment of Political Discourse (New York: Free Press, 1991) – Professora de Direito da Universidade de Harvard.

 

Fonte: The Disappearance of Church Discipline—How Can We Recover?, partes 1-4 – usada com permissão do autor http://www.albertmohler.com/

Traduzido por Tiago Lino

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