Breve exposição no Salmo 23 – O testemunho da providência de Deus


23Poucos textos bíblicos são tão conhecidos como o Salmo 23. Mas será que temos a dimensão do que estes versículos significam? Pensando nisso, compartilho com você uma pequena exposição deste precioso salmo. Chamo sua atenção para o fato de Davi estar nos ensinando neles que a experiência com o Deus da Providência é uma experiência diária, baseada em nossa relação com Ele por meio do sacrifício de Cristo.

Além disso, este salmo é uma lição de como devemos lidar com a prosperidade com que o Senhor nos dispensa, algo muito conturbado em nossos dias com a famigerada teologia da prosperidade. Davi demonstra que a razão de sua felicidade, confiança e fidelidade a Deus não era resultado das bênçãos recebidas, mas a sua comunhão com o Pai. Que sigamos este exemplo!

Espero que você seja abençoado.

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.

Aqui se faz válido lembrar quatro coisas para melhor entender este verso:

1. Quanto à composição do Salmo: ele é fruto de uma profunda gratidão de Davi para com Deus em função de o Senhor ser o grande doador das bênçãos que Davi estava desfrutando, tanto em seu reinado quanto na manutenção de sua vida.

2. A experiência de Davi como pastor de ovelhas. Toda a metáfora de Davi neste Salmo referente ao Senhor como seu pastor é pautada em sua própria experiência, como pastor e com o Deus da providência. Davi conhecia o trabalho de um pastor e via esse trabalho em sua perfeita expressão no cuidado de Deus para com ele (1 Sm16:11; 17:34-36).

3. Com o termo “meu” Davi quer apontar que sua relação com Deus é pessoal e pactual. Isso tem duas implicações diretas: ele evidencia o papel do Pastor – que providencia – e o papel da ovelha – que se submete em amor e obediência. A obediência da ovelha ao pastor é a condição para a manutenção da relação pastor-ovelha. Ao lermos sobre as bênçãos da providência de Deus nos versículos subsequentes, é fundamental ter em mente que essas bênçãos se destinam aos filhos do pacto, que submeteram suas vidas ao senhorio de Cristo. O incrédulo em nada tem participação nelas.

“E eles serão meus, diz o Senhor dos Exércitos; naquele dia serão para mim jóias; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve. Então voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve”. (Malaquias 3:17-18).

4. Um ponto também interessante de se ressaltar é o completo significado do versículo um. Ele é uma relação de causa e efeito. É como se Davi dissesse: “O Senhor é o meu pastor, portanto não tenho falta de nada”. A melhor tradução para o verbo faltar é o tempo presente, visto que é o tempo predominante no salmo e também por ser adotado por muitas traduções. Em minha opinião, tal tempo verbal se relaciona melhor com o restante do salmo, além de deixar claro que a providência de Deus é algo que Davi estava experimentando e não o que iria experimentar. Em termos práticos, isso ajuda a corrigir nossa visão da providência de Deus, isso no contexto do salmo, de forma a evitar que a associemos somente aos confortos da vida (bens e riqueza). A providência de Deus não é produto da nossa mente, mas o que o salmista irá realçar mais à frente.

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas.

Aqui Davi traz o primeiro exemplo da providência de Deus em sua vida. No verso um ele associa Deus a um pastor – em referência ao zelo, ao cuidado, à orientação e à manutenção da vida. Aqui ele começa a dizer o que esse pastor tem feito por ele.

Portanto o primeiro exemplo tem a ver com o cuidado de Deus em garantir-nos os elementos essenciais à vida: água e comida. Àquela altura Davi pôde concluir que mesmo dos mínimos detalhes de sua vida, até os mais sutis, Deus cuidou. Ele sabia que estava vivo porque diariamente Deus o sustentou com alimento, sem o qual sua vida não se manteria.

Quanto à qualificação do pasto, verde, e da água, tranquila, ideais para o pleno desenvolvimento das ovelhas, Davi deixa transparecer que Deus está atento às nossas mais simples necessidades (Fl 4:19). Logo, podemos estar seguros em trilhar a vida descansando e tão preciosa verdade. Nós não estamos neste mundo à nossa própria sorte. Deus nos conduz como pastor e garante nossa vida.

Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.

Pelo menos três coisas saltam aos olhos neste versículo. Vimos que no primeiro exemplo, Davi tratou do cuidado de Deus quanto às nossas necessidades mais elementares, água e comida. Agora, Davi prossegue em revelar o cuidado de Deus com sua vida – e com a nossa – deixando claro que este cuidado não se limita às necessidades físicas. Ele também atinge nosso ser e nosso caráter.

Com alma, Davi aponta pelo menos duas características da providência de Deus:

1. A mais importante: Deus não vê apenas nossas necessidades físicas e biológicas. Ele também olha para nossas necessidades espirituais: “refrigera a minha alma”. Isso deve alargar nossa visão da vida e entender que temos necessidades espirituais: precisamos de um relacionamento com Deus (que é espírito), de uma vida de oração e uma vida pautada na Palavra, sem as quais nos tornamos infrutíferos.

Isso também deve nos alertar para o falso evangelho que só se resume a oferecer um deus preocupado com nossas necessidades naturais, principalmente as mesquinhas por dinheiro e saúde. É uma grave distorção ver a providência de Deus apenas em termos materiais.

2. Em termos práticos, “refrigera a minha alma” é uma forma de ver que os cuidados de Deus podem ser facilmente percebidos em nosso cotidiano. Quantas vezes não nos vemos pressionados pela vida – família, saúde, igreja, emprego, educação, metas a alcançar – nos tornando tão áridos quando falhamos em dar conta de alguma responsabilidade? Nosso fervor espiritual cai, nosso envolvimento com o reino de Deus diminui, desanimamos, nossa alma fica seca. Então, em seu cuidado, Deus nos refrigera a alma, trazendo novo fôlego espiritual, novas forças para seguir em frente.

Além de cuidar da nossa alma – nossas necessidades espirituais e do renovo do nosso ser em meio às adversidades – Deus também se preocupa com nosso caráter. E como responsável por guiar e incutir em suas ovelhas a sua vontade, Deus nos guia no caminho que devemos andar. Isso tem muito a ver com Seu caráter santo.

Veredas da justiça significam que Deus tem um caminho de santidade para seus filhos, Deus forja em nós Seu caráter e, na conversão, nos ensina a clamar por justiça, a praticá-la e a amá-la. Ser justo, em poucas palavras, é dar ao outro o que lhe é de direito. Portanto, uma ovelha de Deus tem a clara noção de qual é o seu dever perante seus próximos e perante Deus.

Em Seu sermão do Monte, Jesus traçou o perfil dos habitantes do Reino dos céus. E uma das características desses habitantes é o seu anseio por Justiça. A eles, Jesus garantiu que seriam saciados. (cf. Mt 5:6)

Por fim, não poderia faltar a razão para tudo isso: o amor de Deus. Não há nada em nós que nos torne capazes de “provocar” tão precioso amor por nós. Ele o faz por sua livre vontade, porque decidiu isso para a glória de Seu santo nome. Isso é graça doadora e deve despertar em nós os mais profundos sentimentos de gratidão e rendição a Deus, pois não é por nós mesmos, mas “por amor a seu nome” que ele nos dispensa seus cuidados. Por outro lado, deve repelir qualquer sentimento de orgulho por qualquer bênção recebida. Por nós mesmos, jamais as receberíamos.

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.

Depois de mostrar que a providência de Deus contemplou vários aspectos da sua vida, dos mais simples aos mais amplos, de comida e água às necessidades espirituais e à formação do seu caráter, Davi expressa sua inabalável confiança no Senhor. Agora, para a vida diária.

Chama-me a atenção que Davi não pinta uma relação fantasiosa com Deus, mas extremamente real. O pastor de ovelhas, que tornou-se rei de Israel, não esconde que, nessa vida, a morte, a dor e a tribulação são possibilidades diárias. Mais uma vez, devemos desconfiar de um evangelho que nos oferece o fim do sofrimento. Esse não pode ser o evangelho bíblico, visto que este nos alerta para a realidade dos custos de servir a Cristo.

É difícil precisar o que Davi estava querendo aqui dizer com “vale da sombra da morte”. Calvino, em seu comentário neste salmo, explica que “sombra da morte” (tsalmaveth) é uma palavra composta que pode significar “sombra mortal”, em cuja presença o temor da morte torna-se latente. Talvez a sombra das covas em que habitam animais selvagens. Por outro lado, com a palavra vale, talvez Davi estivesse se relembrando de seu trabalho de pastor, quando precisou  caminhar por lugares sombrios para levar suas ovelhas aos pastos e às águas. Deve ser complicado garantir a integridade da própria vida e das numerosas ovelhas ao se passar por um vale escuro, quando a exposição aos animais selvagens e perigosos pode custar a vida, tanto do pastor como das ovelhas.

Talvez, também, Davi estivesse se lembrando de suas batalhas como rei de Israel. A Palestina é caracterizada por seu território bem acidentado geograficamente, onde a presença de vales é comum. Em uma batalha, combater em vales, quando o inimigo encontra-se em colinas, é extremamente desvantajoso para a tropa, o que coloca a vida de todos em sério risco.

Contudo, seja qual for o significado pretendido aqui por Davi para “vale”, o que precisamos saber é que, assim como Davi, todos nós estamos sujeitos a passar por vales na vida. Podemos entendê-los como o momento em que estamos pra baixo, quando não conseguimos ver razão para a vida, quando as tribulações nos sufocam e a única saída parece ser a morte.

Mas o ponto alto do versículo – e do cuidado de Deus – não é a inexistência de lutas. É a confiança em Deus, acima de tudo. Mesmo que o vale fosse uma realidade e a morte uma certeza, a confiança de Davi permanecia intacta.

De onde vinha toda essa confiança de Davi no Senhor? Vinha justamente da relação pastor-ovelha que ele desfrutava com o Senhor.  Ele podia contar com a orientação de Deus.

Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.

Com este versículo Davi quer concluir que toda sua vida foi resultado da providência de Deus. Em tudo, o cuidado de Deus guiou e conduziu Davi. Quem preparou a mesa, quem ungiu e quem fez o cálice transbordar foi Deus. Tudo foi obra de suas mãos.

Pelo menos duas coisas me veem a cabeça com este versículo para iluminar o significado de toda a frase. A primeira, que eu confesso ser mais incerta, me remete à cena da unção de Davi na casa de seu pai, por ocasião da visita do profeta Samuel. A questão da mesa e da unção me levam à essa imagem. Minha dificuldade é com a palavra “inimigos”. Não é possível fazer tal afirmação dos irmãos de Davi no contexto de 1 Samuel 16. Mas esse mesmo contexto sugere um certo desprestígio de Davi em relação ao seu pai e seus irmãos naquele episódio, pois sua presença à mesa só foi possível com a solicitação feita por Samuel, pois o Senhor o já havia ungido para rei.

A segunda, mais aceitável, pode ser vista a partir da percepção de Davi já estabelecido como rei de Israel, exaltado e próspero. O diálogo e a reunião com inimigos de guerra certamente deve ter acontecido várias vezes. O ato de “ungir a cabeça com óleo” era um costume antigo judaico, onde o anfitrião só considerava sua recepção completada, quando o convidado era banhado com unguento, de ótimo cheiro. Tanto o unguento – óleo precioso – quanto o transbordar do cálice pode indicar a prosperidade com que Deus agraciou Davi em todo seu reinado, dando-lhe mais do que realmente necessitava.

Seja qual for a real explicação para Davi usar tais termos nesse versículo, o que prevalece, como dito anteriormente, é a providência de Deus. Graças a ela, ele foi levantado e mantido rei de Israel.

Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida;     e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

Este precioso salmo não poderia terminar da melhor forma. Depois de haver testemunhado toda a fidelidade de Deus para com sua vida, manifestadamente comprovada na prosperidade que lhe fora servida pelo Senhor em todo seu reinado, Davi deixa claro suas certezas quanto ao seu futuro.

Este homem é um exemplo a ser seguido quanto à maneira de lidarmos com as riquezas e a prosperidade. Ele mostra, neste versículo, que sua felicidade, sua realização e sua satisfação em Deus não estão, nem de longe, condicionadas ao que lhe pode ser ofertado pelo Senhor.

O salário deste mês ou o emprego estarão contigo no próximo? A plena de saúde de hoje poderá ser gozada amanhã? As posses, a prosperidade ou qualquer outra benesse nos acompanharão no futuro?

Sinceramente, não temos respostas para essas perguntas. Muito menos podemos garantir qualquer uma dessas coisas por nossa própria conta, haja vista a incerteza que é a vida neste mundo. Contudo, a lição que Davi deixa é que estas coisas não contam para nosso pleno deleite em Deus. Há algo mais desejável e garantido em nosso futuro. É a graça de Deus, revelada em sua bondade e misericórdia.

Haja o que houver, elas não se apartarão de nós. Onde estivermos e como estivermos, certamente teremos a companhia do Senhor manifestada em sua misericórdia e bondade. Essa era a certeza de Davi. Também deve ser a nossa. Mas ressalto que somente um coração verdadeiramente regenerado é capaz de desejar essas coisas e atribuir a elas, e somente a elas, a sua total realização. Tudo o mais é inútil para nos dar real felicidade. Ela somente pode vir de Deus, e de nosso relacionamento com Ele, por meio de Cristo.

Davi já manifestou o que ele espera de seu futuro. Agora ele manifesta o que deseja fazer nele: habitar na casa de Deus. Por isso podemos entender que seu desejo era a prática de sua piedade, no sacrifício dedicado a Deus no templo, na companhia de outros adoradores. Era sua estadia na Casa do Senhor que completava sua alegria.

Que distinção entre Davi e os ímpios! Enquanto estes desejariam satisfazer seus desejos com os prazeres e as ofertas deste mundo, aquele baseia toda sua felicidade em cultuar a Deus!

Que este seja também o nosso desejo!

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Sobre Blog do Lino
Sou filho de Deus.

2 Responses to Breve exposição no Salmo 23 – O testemunho da providência de Deus

  1. Levy says:

    Queria eu saber interpretar as escrituras Lino.

  2. Blog do Lino says:

    Levy, conversaremos sobre isso pessoalmente. Interpretar a Bíblia é um caminho longo, para que a interpretação seja correta. Mas é um caminho em que cada passo você passa a enxergar coisas espetaculares.

    Estamos juntos nisso.

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