O Sangue do Pacto – Douglas Kelly


Um dos pontos principais do cristianismo evangélico que era mais ofensivo para os modernistas protestantes nos grandes debates contra o fundamentalismo no início do século XX era a centralidade do sangue de Cristo para a salvação. Muitos pretensos modernistas “sofisticados” procuraram definir o coração do cristianismo tradicional como “uma religião do matadouro.” Presumivelmente, seria substituir a confiança no sangue purificador com fé em suas próprias boas obras, sabedoria humanista e realizações políticas. O declínio drástico dessa visão cristã ocidental se deve ao fato de terem desdenhado daquilo que Deus, o Pai, mais valoriza.

Fingir que alguém pode chegar a Deus sem o sangue expiatório de Cristo significa simplesmente que este alguém não está chegando ao único Deus verdadeiro, o Deus da Bíblia, o Deus vivo das Sagradas Escrituras. Sim, alguns inventaram um deus conveniente de “amor” que não é motivado por seu caráter imutavelmente santo. Mas este é apenas um ídolo da mente, que pode ser usado para fazer a licitação de seus inventores iludidos. Você não vai encontrar esse “deus” nas Escrituras. Pelo contrário, o verdadeiro Deus de amor infinito é ao mesmo tempo um Deus de infinita santidade. É por isso que Hebreus 9:22 diz: “sem derramamento de sangue não há remissão [de pecados]“.

De Hebreus 9:11 até ao 10:22 o inspirado autor exalta o valor supremo do sangue derramado do Senhor Jesus Cristo como o único caminho para dar aos pecadores o dom inestimável de uma consciência completamente limpa (Hebreus 9:14, 10 : 22) e acesso imediato à presença santa e amorosa do Deus Todo-Poderoso (Hebreus 10:19-22). Ele exalta o poder eficaz do sangue de Cristo para purificar a nossa natureza pecaminosa e para garantir nossa aproximação a Deus (Hebreus 10:19), contrastando com o sangue de bodes e bezerros, touros e novilhas (Hebreus 9: 12 – 13). Mas antes de explorar esta diferença significativa entre os dois tipos de sacrifício, devemos primeiro compreender sua semelhança subjacente.

O sacrifício de animais pode ser rastreado até o tempo de Abel (Gn 4:4), e ainda há quem o siga até a provisão da parte de Deus de peles de animais para cobrir Adão e Eva, agora pecadores (Gn 3:21). Mas o sistema regular de sacrifícios substitutivos de animais para cobrir o pecado humano foi instituído como parte da economia mosaica. O livro de Levítico é o manual mais detalhado dos sacrifícios de animais e rituais. Embora muito complexo em seu resultado, o princípio básico é simples. De acordo com Levítico 17:11: “Porque a vida da carne está no sangue: e eu dei a vocês sobre o altar, para fazer expiação por vossas almas, pois é o sangue que fará expiação pela alma.” O sacrifício é uma maneira de reconhecer que a vida deve ser dada para que a mortalidade possa ser revertida.

Assim, o ritual Levítico, com seu derramamento de sangue de cordeiros e cabritos, e o sacrifício feito de uma vez por todas pelo Senhor Jesus Cristo no Calvário em certo grau possuem princípios semelhantes, que estão em conformidade com o caráter amoroso e santo de Deus e “sem derramamento de sangue não há remissão.” Devemos notar aqui que o derramamento de sangue para a graciosa remissão dos pecados – se de substitutos animais ou do próprio Filho de Deus – é uma disposição do amor de Deus, não uma causa de Seu amor. João 3:16 nos diz que “Deus amou o mundo que deu o seu Filho unigênito ….” Por causa do amor de Deus, Ele mesmo oferece o sacrifício que o Seu caráter santo exige para o pecador ser salvo. Em nenhum sentido o sacrifício de sangue é a causa de Deus  nos amar. Pelo contrário, o amor de Deus provê o sacrifício por meio do qual os pecadores podem ser perdoados e transformados para viver mais uma vez no amor divino. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4:10). “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).

O autor de Hebreus mostra que o sangue dos animais não conseguiu fazer o que Cristo fez no Santo dos Santos celestial, onde – com a aceitação divina do sacrifício completo de Seu próprio sangue precioso – uma vez crucificado, ressuscitou de entre os mortos e obteve eterna redenção para todo o Seu povo (Hebreus 9:12). Ele mostra que o sacrifício de animais não podia  de forma perfeita expiar os pecados(Hebreus 10:14), apenas o sacrifício único e perfeito de Cristo, poderia fazer tal coisa.

Por que, então “não é possível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados?” (Hb 10:4). Anselmo pode nos ajudar aqui. Como ele apontou em Cur Deus Homo (Por que Deus se fez homem?), uma vez que Deus é uma Pessoa infinita, o pecado contra Ele envolve o pecador em culpa infinita. Mas nenhum ser humano (ser finito) pode limpar fora essa culpa infinita. Duas coisas seriam necessárias, ao mesmo tempo para fazê-lo. Primeiro, o pecado deve ser pago na mesma natureza em que foi cometido (personalidade humana) – e, portanto, sacrifícios de animais não são suficientes. Em segundo lugar, a pessoa humana que expia a culpa infinita deve ser infinita em si mesma, a fim de que seu sacrifício tenha efeitos ilimitados. E isso é precisamente o que o Senhor Jesus é: uma pessoa infinita – Deus infinito em uma pessoa humana verdadeira. O sangue animal, sem dúvida, poderia cobrir temporariamente os pecados, mas apenas o sangue de Jesus Cristo poderia remover totalmente os pecados.

É um sinal claro de regeneração, quando valorizamos o que Deus ordena. Hebreus 9 e 10 mostram-nos que por esta razão devemos estimar infinitamente o sangue de Cristo em nossos corações.

Fonte: Ligonier Ministries via AME Cristo

Tradução: Alisson Pedrosa

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