Os mortos Bem-Aventurados – Jonathan Edwards


       Sermão entregue no funeral de David Brainerd, missionário aos índios. Há nesse sermão uma exposição maravilhosa da esperança cristã de estar com Cristo na eternidade desfrutando de sua Glória, comunhão e presença. E isso com detalhes que não vi em outro lugar. 

 “Mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo, para  habitar com o Senhor.” (2 Co 5.8)

        O APÓSTOLO  Paulo  apresenta  uma  razão  por  que  ele  m continuava  com   tamanha     coragem    c  firmeza   imóveis.   em   meio   a  tantas   labutas,  sofrimentos e perigos, no serviço do Senhor, pelos quais seus inimigos, os  falsos mestres entre os coríntios, às vezes o reprovavam por estar fora de si  e  impulsionado     por   um   tipo  de   loucura.   Na   parte   final do   capítulo  precedente,  ele  informa  os  coríntios  cristãos  que  a  razão  por  que  agia  assim,  era  que  ele  cria  firmemente  nas  promessas  que  Jesus  fizera  aos  seus servos fiéis de uma recompensa gloriosa e eterna, e sabia que estas  aflições  presentes    eram   leves  e  apenas    momentâneas      em   comparação  àquele mui excedente e eterno peso de glória. Neste capítulo, ele prossegue  insistindo na razão de sua constância no sofrimento e exposição à morte na  obra do ministério, até mesmo o estado mais feliz que ele esperava depois da morte. Este é o assunto do texto. A alma do cristão, quando deixa o corpo, vai para estar com  Cristo. Isto ocorre nos seguintes aspectos:

I. A alma do cristão vai habitar com a natureza humana glorificada de Cristo no mesmo domicílio abençoado.

Há  um  lugar,  uma  região  particular  da  criação  exterior,  para  onde  Cristo  foi  e  permanece.  Este  lugar  é  o  céu  dos  céus,  um  lugar  além  de  todos os céus visíveis. “Ora, isto — ele subiu — que é, senão que também,  antes, tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é  também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as  coisas” (Ef 4.9,10). É o mesmo lugar que o apóstolo chama de terceiro céu: computando  o  céu  aéreo  como  o  primeiro  céu,  o  céu  estrelado  como  o  segundo  e  o  céu  mais  alto  como  o  terceiro.  Este  é  o  domicílio  dos  anjos  santos; eles são chamados “os anjos dos céus”, uos anjos que estão no céu”,  “os anjos de Deus no céu”. Está escrito que eles sempre vêem a face do “Pai  que está no céu”.

Em outra passagem, eles são representados a estar diante do trono  de  Deus  ou  rodeando  seu  trono  no  céu,  e  de  lá  enviados,  descendo  com  mensagens para este mundo. É para lá que a alma do santo é conduzida  quando  morre.  Ela  não  fica  num  domicílio  distinto  do  céu  superior,  um  lugar de descanso, no qual é guardada até o dia do julgamento, o que uns chamam o Hades dos felizes; mas vai diretamente para céu. Esta é a casa  dos santos, sendo a casa de seu Pai. Eles são “peregrinos e estrangeiros” na  terra, e esta é a “outra e melhor pátria” para a qual estão viajando. Esta é a cidade à  qual eles pertencem:  “A nossa  cidade  [cidadania,  como  significa  corretamente a palavra] está nos céus…” (Fp 3-20). Este é indubitavelmente  o lugar ao qual o apóstolo se refere quando diz: “Nós estamos dispostos a abandonar nossa primeira casa, o corpo, e habitar na mesma casa, cidade  ou país, em que Cristo habita”, que é a significação adequada das palavras  no original. O que pode ser esta casa, cidade ou país, senão a casa que é  falada em outra passagem como a sua casa, a casa do seu Pai, a cidade e país  aos  quais  eles  adequadamente       pertencem,  para  a  qual  eles  estão viajando o tempo em que continuam neste mundo, e a casa, cidade e país,  onde  sabemos que está a natureza humana de  Cristo. Este é o descanso  dos santos, aqui seu coração está enquanto vivem na terra, e aqui está seu  tesouro,   a  “herança    incorruptível,   incontaminável     e  que  se   não  pode  murchar,  guardada  nos  céus  para  vós”,  que  está  designada  para  eles,  reservada no céu (1 Pe 1.4). Eles nunca podem ter seu descanso adequado e pleno até que cheguem ali. Sem dúvida a alma, quando ausente do corpo  (as Escrituras a representam num estado de descanso perfeito), chega ali.

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Os dois santos, Enoque e Elias, que deixaram este mundo para. sem  morrerem, entrarem no descanso em outro mundo, foram ao céu. Elias foi  visto  subindo  ao  céu,  como  Cristo;  e  há  toda  razão  para  pensarmos  que  foram para o mesmo lugar de descanso, para o qual os santos vão quando  pela  morte  deixam  o  mundo.  Moisés,  quando  morreu  no  topo  do  monte,  subiu para o mesmo domicílio glorioso com Elias, que subiu sem morrer. Eles são companheiros em outro mundo, conforme apareceram juntos na  transfiguração de Jesus. Eles estavam juntos naquele momento com Cristo  no monte, quando houve uma representação da sua glória no céu. Não há  que   duvidar  de   que  eles  também  estavam  juntos  com  Ele mais  tarde,  quando com efeito Fie foi glorificado no céu. Lá, incontestavelmente, estava  a alma de Estêvão, que subiu quando ele expirou. As circunstâncias de sua  morte demonstram este fato, segundo o relato que temos. “Mas ele, estando  cheio do Espírito Santo e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos e  o Filho do Homem [ou seja, Jesus em sua natureza humana], que está em  pé à mão direita de Deus. Mas eles gritaram com grande voz. taparam os  ouvidos e arremeteram unânimes contra ele. E, expulsando-o da cidade, o  apedrejavam. […] E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor  Jesus,  recebe  o  meu  espírito”  (At  7.55-59).  Antes  de  sua  morte,  ele  teve uma visão extraordinária da glória que  o Salvador havia recebido  no céu,  não  só para si próprio, mas para todos os seus seguidores fiéis, de modo  que Estêvão se encorajasse com a esperança desta glória para alegremente  entregar   a  vida  por   Ele. Por   conseguinte,    ele morre   nessa    esperança,  dizendo:  “Senhor  Jesus,  recebe  o  meu  espírito”.  Com  estas  palavras  ele  irrefutavelmente queria dizer: “Recebe o meu espírito, Senhor Jesus, para estar  contigo  nessa  glória  em  que  te  vejo  agora  no  céu  à  mão  direita  de  Deus”.

Para lá foi a alma do ladrão penitente na cruz. Cristo lhe disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.43). O paraíso é  o terceiro céu mencionado em 2 Coríntios 12.2-4. O que no versículo 2 é  chamado o terceiro céu, no versículo 4 é chamado paraíso. As almas dos  apóstolos e profetas estão no céu, como está claro pelas palavras: “Alegra-  te sobre ela, ó céu, e vós, santos apóstolos e profetas” (Ap 18.20). A Igreja  de Deus é de vez em quando diferenciada nas Escrituras com estas duas  partes: a parte que está no céu e a que está na terra —  “Jesus Cristo, do  qual toda a família nos céus e na terra toma o nome” (Ef 3-14,15). “E que,  havendo    por  ele  feito  a paz   pelo  sangue    da  sua   cruz,  por  meio   dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra  como as que estão nos céus” (Cl 1.20). Que “coisas que estão nos céus” são  essas pelas quais a paz foi feita mediante o sangue da cruz de Cristo, e que  por  Ele  reconciliou  a  Deus,  senão  os  santos  nos  céus?  Do  mesmo  modo  lemos    sobre   Deus    “tornar   a  congregar    em    Cristo  todas    as  coisas,   na  dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as  que estão na terra” (Ef 1.10). Os “espíritos dos justos aperfeiçoados” estão  na  mesma  “cidade  do  Deus  vivo”  com  os  “muitos  milhares  de  anjos”  e  “Jesus,  o  Mediador  de  uma  nova  aliança”,  como  é  evidente.  A  Igreja  de  Deus é chamada na Escritura pelo nome de Jerusalém, e o apóstolo fala da  Jerusalém “que é de cima” ou ‘que está nos céus” como a mãe de todos nós;  mas se nenhuma parte da Igreja está no céu, ou ninguém, senão Enoque e  Elias,  então  não  é  provável que  a  Igreja  fosse  chamada  a  Jerusalém  que  está no céu.

II. A alma do cristão vai habitar à vista imediata, plena e constante de Cristo.

Quando estamos ausentes de nossos queridos amigos, eles nos estão  fora  de   vista,  mas  quando  estamos  com  eles,  temos  a  oportunidade  e  satisfação  de  vê-los.  Enquanto  os  santos  estão  no  corpo  e  ausentes  do  Senhor,  sob  vários  aspectos  Ele  está  fora  de  nossa  vista.  “o  qual,  não  o  havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso” (1 Pe 1.8). Eles têm neste mundo uma visão espiritual  de  Cristo,  mas  vêem  “por  espelho  em  enigma ‘  e  com  grandes interrupções; mas no céu eles o vêem “face a face”. São bem-aventurados  os puros de coração, porque eles verão a Deus. A visão beatífica que eles  têm de Deus está em Cristo, que é o brilho ou fulgência da glória de Deus,  pela  qual  sua  glória  brilha  no  céu,  à  vista  dos  santos  e  anjos  lá  como  também aqui na terra. Este é o Sol da Justiça, que não só é a luz deste  mundo,  mas  também  o  sol  que  ilumina  a  Jerusalém  celestial,  por  cujos  raios luminosos a glória de Deus brilha, para a iluminação e felicidade de  todos   os  habitantes  gloriosos.      “A  glória  de  Deus    a  tem   alumiado,     e  o  Cordeiro     é   a   sua    lâmpada”      (Ap   21.23)-     Ninguém      vê   Deus     Pai  imediatamente.  Ele  é  o  Rei  eterno,  imortal,  invisível.  Cristo  é  a  imagem  desse Deus invisível pela qual Ele é visto por todas as criaturas eleitas. O  Filho unigênito que está no seio do Pai, Ele o declarou e o manifestou.

Ninguém jamais viu o Pai, somente o Filho; e ninguém mais vê o Pai  de  outro  modo  senão  pela  revelação  que  o  Filho  faz  dEle.  No  céu,  os  espíritos dos justos tornados perfeitos o veem como Ele é. Eles vêem a sua glória. Eles veem a glória de sua natureza divina, que consiste em toda a  glória  da   deidade,    a  beleza   de   todas   as   suas   perfeições;    sua   grande  majestade     e   poder   Todo-poderoso;       sua   sabedoria,    santidade     e  graça  infinitas. Eles vêem a beleza de sua natureza humana glorificada e a glória  que  o  Pai  lhe  deu,  como  Deus-Homem  e  Mediador.  Para  este  fim,  Jesus  desejou que os santos estivessem com Ele, para que vissem sua glória.

Quando a alma do santo deixa o corpo para ir estar com Cristo, ela vê  a  glória  da  obra  de  Redenção  que  “os  anjos  desejam  bem  atentar”.  Os santos  no céu  têm   a  visão  mais  clara  da   profundidade    insondável   da sabedoria e conhecimento de Deus e das demonstrações mais brilhantes da  pureza e santidade de Deus que aparecem nessa obra. Eles vêem de uma  maneira  muito  mais  clara  que  os  santos  aqui  “qual  seja  a  largura,  e  o  comprimento,  e  a  altura,  e  a  profundidade  e  conhecer  o  amor  de  Cristo,  que  excede  todo  entendimento”  (Ef  3-18,19).  Assim  como  eles  vêem  as  riquezas e glória índizíveis da graça de Deus, eles entendem claramente o  amor eterno e  imensurável de Cristo por eles em particular. Em resumo,  eles vêem  tudo  em  Cristo,  o  que  tende  a  acender  e  satisfazer  o  amor  da  maneira mais clara e gloriosa, sem escuridão ou ilusão, sem impedimento  ou  interrupção.  Agora  os  santos,  enquanto no corpo,  vêem  um  pouco da  glória  e  amor  de  Cristo;  como  nós,  no  alvorecer  da  manhã,  vemos  um  pouco  da  luz  refletida  do  sol  misturada  com  a  escuridão.  Mas  quando  separados do corpo, eles vêem o Redentor glorioso e amoroso, assim como  vemos o sol quando está acima do horizonte, pelos seus raios diretos num  hemisfério claro e com dia perfeito.

III.  A  alma  do  cristão  é  levada  a  uma  conformidade  perfeita  com Cristo e união com Ele.

Sua  conformidade  espiritual  começou  enquanto  a  alma  estava  no  corpo.  Aqui.   “refletindo, como    um   espelho,  a  glória  do  Senhor,   [ela  é  transformada] de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito  do Senhor” (2 Co 3-18). Mas quando a alma do cristão vai vê-lo como Ele é  no  céu,  então   torna-se   como   Ele  em   outro  modo.    Essa  visão  perfeita  aniquilará   todos  os  restos   da  deformidade    e  dessemelhança     pecadora, assim como toda  a escuridão é  aniquilada diante  do pleno resplendor da  luz  meridiana   do   sol. É  impossível   que  o  menor    grau  de  obscuridade  permaneça  diante  de  tal  luz;  assim,  é  impossível  que  o  menor  grau  de  pecado  e  deformidade  espiritual  permaneça  diante  de  tamanha  visão  da  beleza espiritual e glória de Cristo, como a que os santos desfrutam no céu. Quando veem o Sol da Justiça sem nuvens, eles mesmos brilham como o  sol e serão como sóis sem mancha. Então Cristo apresenta os santos para  si  mesmo     em   beleza   gloriosa,  ‘sem   mácula,    nem    ruga,  nem    coisa  semelhante, mas santa e  irrepreensível” (Ef 5.27), e  tendo santidade  sem  mancha.  Então  a  união  deles  com  Cristo  é  aperfeiçoada.  Esse  processo  também é iniciado neste mundo. A união relativa é iniciada e aperfeiçoada  imediatamente quando a alma aceita Jesus pela fé. A verdadeira união, que consiste   na  união   do  coração    e do   afeto, é  iniciada   neste  mundo     e  aperfeiçoada no seguinte.

A união do coração do crente com Cristo é iniciada quando o coração  é  atraído  a  Cristo  pela  descoberta  primeira  de  sua  excelência  divina  na  conversão. Consequente a isto, é estabelecido uma união vital com Cristo  por  meio  da  qual  o  crente  se  torna  um  ramo  vivo  da  videira  verdadeira,  vivendo pela comunicação da seiva e líquido vital do tronco e da raiz; um  membro     do  Corpo   místico   de  Cristo,  que   vive  pela  comunicação     das influências vitais c espirituais da cabeça e pela participação da própria vida  de  Cristo.  Mas, enquanto  os  santos  estão  no  corpo,  há  grande  distância remanescente entre Cristo e eles. A união vital é muito imperfeita e, assim,  é  a  comunicação  da  vida  espiritual  e  da  influência  vital.  Há  muito  entre  Cristo  e  os  crentes  que  os  mantêm  separados,  muito  pecado  residente;  muita  tentação;  um  corpo  de  molde  pesado  e  delicado;  e  um  mundo  de  objetos  carnais  para  manter  afastada  a  alma  de  Cristo  e  dificultar  uma  coalescência    perfeita. Mas    quando    a  alma   deixa  o  corpo,   todos  estes  impedimentos são removidos. Todo muro de  separação é derrubado, todo  impedimento é retirado do caminho e toda a distância acaba; o coração é  completa  e  perfeitamente  atraído  e  firme  e  eternamente  unido  a  Cristo  mediante    uma    visão  perfeita  da  sua   glória.  A  união   vital é  levada   à  perfeição. A alma vive perfeitamente em Cristo, sendo perfeitamente cheia  com  o  seu  Espírito  e  animada  por  sua  influência  vital,  vivendo  como  se fosse  somente    pela  vida  de  Cristo,  sem   qualquer    lembrança    da  morte  espiritual ou da vida carnal.

IV. A alma do cristão desfruta um intercurso e convivência gloriosas e imediatas com Cristo.

Enquanto  estamos  presentes  com  nossos  amigos,  temos  oportunidade  de  convivência  livre  e  imediata com  eles,  a  qual  não  temos quando ausentes.   Então,   por  causa    do  intercurso   muito   mais   livre, perfeito  e  imediato com Cristo que os santos desfrutam quando ausentes do corpo,  eles são representados adequadamente a estar presentes com Ele.

O  intercurso  mais  íntimo  torna-se  a  relação  na  qual  os  santos  firmam-se em Jesus Cristo, e sobretudo torna-se a reunião perfeita e gloriosa  para  a  qual eles serão levados com  Ele  no céu.  Eles não são meramente  seus  servos,  mas  seus  amigos,  irmãos  e  companheiros;  sim,  eles  são  o  Cônjuge de Cristo. Eles são os esposados ou noivos de Cristo enquanto no  corpo, mas quando vão para o céu, chega a hora do casamento com Ele, e o  Rei os leva a seu palácio. Cristo, quando estava neste mundo, conversou da  maneira  mais  amigável  com  os  discípulos  e  permitiu  que  um  deles  se  inclinasse no seu peito, mas eles terão a permissão muito mais completa e  livre de conversar com Ele no céu.

Embora Cristo esteja ali num estado de exaltação gloriosa, reinando  na majestade e glória do soberano Senhor e Deus do céu e da terra, dos  anjos   e homens,     contudo   esta   condição   não   impedirá   a  intimidade    e  liberdade do intercurso, mas, antes, a promoverá. Ele foi exaltado, não só  para  si  mesmo,  mas  para  eles.  Ele  é  o  Cabeça  sobre  todas  as  coisas  no  interesse deles, para que eles sejam exaltados e glorificados; e, quando eles  forem para o céu, onde Ele está, eles serão exaltados e glorificados com Ele  e não serão mantidos a maior distância. Eles estarão indizivelmente mais  aptos   para   esta   situação,   e   Cristo   estará   em   circunstâncias     mais  adequadas para lhes dar esta bem-aventurança. A visão da grande glória  do seu Amigo e Redentor não vai lhes infundir temor respeitoso e mantê-los  a  certa  distância,  deixando-os  com  medo  de  se  aproximarem;  mas,  pelo  contrário, com mais vigor os atrairá, os animará e os enredará à liberdade  santa. Eles saberão que Ele é o seu Redentor e Amigo amado, o mesmo que  os amou com um amor agonizante e, pelo seu sangue, os remiu para Deus. ‘Sou  eu;  não  temais”  (Mt  14.27).  “Não  temas;  eu  sou  […]  o  que  vive;  fui morto,  mas  eis  aqui  estou  vivo”  (Ap  1.17,18).  A  natureza  desta  glória  de  Cristo que eles verão será tamanha que os atrairá e os encorajará, pois eles  não   só  verão   a  majestade    e  grandeza    infinitas, mas    também     a  graça,  condescendência, gentileza e doçura infinitas, iguais à sua majestade. Ele  aparece no céu como “o Leão da tribo de Judá” (Ap 5.5), e também como “o  Cordeiro que está no meio do trono”. Este Cordeiro será o pastor que “os  apascentará e lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida” (Ap  7.17).

A  visão  da  majestade     de  Cristo  não  lhes  causará     terror,  mas  só servirá para exalçar o prazer e a surpresa. Quando Maria Madalena estava  a  ponto   de   abraçar   Jesus,   cheia   de   alegria  por  vê-lo   vivo  depois   da  crucificação,  Jesus a  proibiu que  o fizesse  naquele  momento,  porque  Ele  ainda   não   havia   ascendido.    “Disse-lhe   Jesus:   Maria!   Ela,   voltando-se,  disse-lhe:   Raboni    (que   quer   dizer   Mestre)!   Disse-lhe   Jesus:    Não   me  detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos  e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”  (AP 20.16,17).  Foi como se  Ele  tivesse  dito:  ‘Não é  este  o tempo e  o lugar  para  essa  liberdade  que  o  teu  amor  deseja  de  mim.  Isso  está  designado  para o céu, depois de minha ascensão. Eu vou para lá, e tu que és minha  verdadeira discípula deve, assim como meus irmãos e companheiros, logo estar   lá comigo    na   minha    glória”. Esse   é  o  lugar   designado    para   as expressões  mais  perfeitas  de  complacência  e  estima.  Por  conseguinte,  os santos no céu encontram Jesus manifestando essas riquezas infinitas de amor  para  com  eles,  as  quais  Ele  sentia  desde  a  eternidade;  e  eles  são capazes  de  expressar  o  amor  que  têm  por  Ele  de  uma  maneira  infinitamente    melhor    do  que   quando     estavam    no  corpo.   Assim,   eles   serão eternamente envolvidos pelos raios incalculavelmente luminosos, brandos e doces   do   amor    divino,   recebendo    eternamente      a  luz  e  para   sempre refletindo-a para a fonte.

V. A alma do cristão é recebida numa comunhão gloriosa com Cristo na sua bem-aventurança.

Os santos  no  céu  têm  comunhão  com  Cristo  na  sua  glória  e  bem- aventurança no céu nos seguintes aspectos:

1. Os santos no céu participam com Ele das delícias inefáveis que Ele tem no céu no prazer do seu Pai.

Quando     Cristo  ascendeu     ao   céu,  Ele   foi recebido    a  uma    bem- aventurança peculiar no prazer do Pai que, na paixão, escondeu-se da face de Jesus; este prazer tornou-se relação na qual Ele estava com o Pai; e era uma recompensa satisfatória pelo grande e difícil serviço que Ele executara na  terra.  Então  Deus  lhe  mostrou  o  caminho  da  vida,  e  o  trouxe  à  sua presença,  onde  há  abundância  de  alegrias,  para  se  assentar  à  sua  mão direita, onde há prazeres eternamente, como está escrito acerca de Cristo (veja SI 16.11). Então o Pai o fez o mais abençoado para sempre; Ele o fez muitíssimo    contente    com   o  seu   semblante.    Os santos pela união com Cristo participam da relação filial dEle com o Pai e são herdeiros com Ele da felicidade no prazer do Pai, como parece estar insinuado pelo apóstolo e pelo salmista: “Eles se fartarão da gordura da tua casa, e os farás beber da corrente das tuas delícias; porque em ti está o manancial da vida; na tua luz  veremos  a  luz”  (SI  36.8,9).  Os santos  terão  prazer  participando  com Cristo em seu prazer e verão luz na sua luz. Eles participarão com Cristo do mesmo rio de prazer, beberão da água da vida e do mesmo vinho novo no   Reino   do  Pai.  Esse  vinho   novo   é  especialmente    aquela   alegria  e felicidade  que  Cristo  e  os  verdadeiros  discípulos  participarão  juntos  na glória;  que  é  a  compra  do  sangue  de  Cristo  ou  a  recompensa  da  sua obediência até a morte. Cristo, em sua ascensão ao céu, recebeu prazeres perpétuos à mão direita do Pai no prazer do amor do Pai como recompensa da sua obediência até a morte. Mas a mesma retidão é considerada tanto para  a  Cabeça  quanto  para  os  membros:  e  ambos  terão  comunhão  na mesma recompensa, cada um de acordo com sua capacidade distinta.

Os santos, no céu, participaram com Cristo do seu prazer com o Pai. Este  fato  manifesta   a  excelência  transcendente    da  felicidade  deles  e  a realidade   de  eles  serem   admitidos   a  um   privilégio  imensamente     mais elevado em glória do que os anjos.

2. Os santos no céu participam com Cristo da glória daquele domínio ao qual o Pai o exaltou.

Os  santos,  quando  ascendem  ao  céu  e  são  levados  a  se  sentarem junto com Cristo nas regiões celestiais, são exaltados para reinar com Ele. Por meio dEle são feitos reis e sacerdotes, e reinam com Ele e nEle sobre o mesmo Reino.  Como o Pai lhe  designou um  Reino.  assim  Ele  o designou para eles. O Pai designou o Filho para reinar sobre seu próprio Reino, e o Filho designa seus santos para reinar no seu. Os santos no céu estão com os  anjos,  os  ministros  do  Rei,  por  quem  Ele  administra  os  assuntos  do Reino e que estão subindo e descendo continuamente do céu à terra e são empregados     dia-a-dia   como    espíritos  ministradores    a   cada   membro individual da  Igreja;  ao lado da  ininterrupta  subida  de  almas dos  santos que  morrem  de  todas  as  partes  da  Igreja  militante.  Então  os  santos  têm vantagem muito maior de verem o estado do Reino de Cristo e as obras da nova criação, do que tinham quando estavam neste mundo, como alguém que sobe ao topo de uma alta montanha tem maior vantagem de ver a face da terra neste mundo, do que tinha quando estava num vale profundo ou numa  floresta  espessa,  cercado  por  todos  os  lados  com  as  coisas  que impedem e limitam a visão.

Outrossim, os santos não veem tudo como espectadores indiferentes ou   desinteressados     mais    que   o   próprio   Cristo   é  um    espectador desinteressado. A felicidade dos santos no céu consiste, em grande parte, cm   ver  a  glória  de  Deus   que   aparece   na  obra   da  Redenção,    pois  é principalmente  por  isso  que  Deus  manifesta  sua  glória,  a  glória  da sua sabedoria,   santidade,   graça   e  outras   perfeições,  aos   santos  e  anjos, conforme  é  evidente  por  muitas  escrituras.  Por  conseguinte,  não  há  que duvidar  que  muito  da  felicidade  deles  consiste  em  ver  o  progresso  desta obra em sua aplicação, sucesso e os passos pelos quais o poder e sabedoria infinitos os levam à sua meta. Eles estão com vantagens indescritivelmente maiores de desfrutarem o progresso desta obra do que nós, visto que eles estão em maiores vantagens de ver e entender os passos maravilhosos que a sabedoria divina dá em tudo o que é feito e o fim glorioso que Ele obtém; bem como a oposição que Satanás faz e como ele é confundido e vencido. Eles vêem melhor a conexão de um evento com outro e a ordem de todas as coisas  que  sucedem  na  Igreja,  em  épocas  diferentes,  que  nos  parecem confusas.  Não apenas vêem estas coisas e  regozijam-se  nelas como visão gloriosa e bela, mas o fazem como pessoas interessadas, assim como Cristo está interessado, possuindo estas coisas em Cristo e reinando com Ele no seu  Reino.  O  sucesso  de  Cristo  na  sua  obra  de  redenção,  em  trazer  as almas para si mesmo, aplicando os benefícios salvadores pelo seu Espírito e o avanço do Reino de graça no mundo, é a recompensa prometida a Ele pelo  Pai  no  concerto   de  redenção,   pelo  serviço  duro  e  difícil que  Ele executou quando na forma de servo. Mas os santos participarão com Ele da alegria desta recompensa, pois esta obediência, que é recompensada dessa forma, lhes é computada, visto que são seus membros.

Assim Abraão desfruta estas coisas quando acontecem, as quais lhe foram  há  muito  prometidas,  vistas  por  ele  de  antemão  e  nas  quais  se regozijou.  Ele  desfrutará  o  cumprimento  da  promessa  de  que  todas  as famílias  da  terra  serão  abençoadas     na  sua  semente,   quando    esta  for completa. Todos os antigos patriarcas que morreram crendo nas promessas das  coisas  gloriosas  a  serem  cumpridas  neste  mundo,  que  não  tinham recebido as promessas, mas as vislumbravam, foram persuadidos por elas e  as  abraçaram,    desfrutam-nas    de  fato  quando    são  cumpridas.    Davi contemplou  e  desfrutou  o  cumprimento  dessa  promessa  em  seu  devido tempo, que lhe fora feita muitas centenas de anos antes e era toda a sua salvação e todo o seu desejo. Assim Daniel se levantará em sua sorte no fim dos dias apontados por sua própria profecia. Assim os santos de  outrora que morreram na fé, sem terem recebido a promessa, são aperfeiçoados e têm a fé coroada pelas coisas melhores realizadas nestes últimos dias do Evangelho, que eles vêem e desfrutam em seus dias.

3.  Os  santos  no  céu  têm  comunhão  com  Cristo  no  serviço  bem- aventurado e eterno de glorificar o Pai.

Quando Cristo instituiu a Ceia do Senhor e comeu e bebeu com os discípulos   à  mesa,  dando-lhes   nesse   particular  uma    representação    e penhor do futuro banquete com Ele e da bebida do novo vinho no Reino do Pai celeste, nesse momento Ele os conduziu em seus louvores a Deus no hino que cantaram. Não há que duvidar que da mesma forma Ele conduz os discípulos glorificados ao céu. Davi, como o amado salmista de  Israel, conduziu a  grande  congregação do povo de  Deus nos cânticos de  louvor. Nisto,   como    em   outras   coisas   inumeráveis,    ele   tipifica a   Cristo, frequentemente  mencionado na  Escritura  pelo nome  de  Davi.  Muitos dos salmos que Davi escreveu eram cânticos de louvor que ele, pelo espírito de profecia, proferiu em nome de Cristo, como Cabeça da Igreja e conduzindo os  santos  nos  louvores.  Cristo  no  céu  conduz  a  assembleia  gloriosa  nos louvores a Deus como Moisés conduziu a congregação de Israel pelo mar Vermelho,  o  que  está  implícito  nas  palavras:  “Eles  cantam  o  cântico  de Moisés e o cântico do Cordeiro”. João nos fala que ouviu uma voz sair do trono dizendo: “Louvai o nosso Deus, vós, todos os seus servos, e vós que o temeis, tanto pequenos como grandes” (Ap  19.5).  Quem proferiu esta voz que   saiu  do   trono,  senão   “o  Cordeiro   que   está  no   meio   do  trono” conclamando  a  assembleia  gloriosa  dos  santos  a  louvar  o  seu  Pai  e  Pai deles,  o  seu  Deus  e  Deus  deles?  Qual  seja  a  consequência  desta  voz, ficamos sabendo nas seguintes palavras: “E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! Pois já o Senhor, Deus Todo-poderoso, reina” (Ap 19.6).

O assunto que estamos considerando pode ser utilmente aplicado a modo de exortação. Que sejamos todos exortados seriamente a buscar esse grande   privilegio do  qual   falamos,  que   quando   ”[deixamos]  este  corpo, [vamos] habitar com o Senhor” (2 Co 5.8). Não podemos permanecer para sempre neste tabernáculo terrestre. Ele é muito frágil e logo se deteriorará e cairá, c está continuamente sujeito a ser vencido por inumeráveis meios. Nossa  alma  em  breve  tem  de  deixar  o  corpo  e  entrar  no  mundo  eterno. Quão infinitamente  grande  será  o privilégio e  felicidade  dos que,  naquele momento,     irão estar  com    Cristo  na  sua   glória, da  maneira    como   foi representada! O privilégio dos doze discípulos era grande por estarem constantemente com Cristo como sua família no estado de sua humilhação. O privilégio dos três discípulos era grande por estarem com Ele no monte da Transfiguração, onde lhes foi mostrado uma toenue semelhança da futura glória  dEle  no  céu,  como  eles  viram  seguramente  no  atual  estado  fraco, frágil e pecador. Eles ficaram grandemente encantados com o que viram e desejosos  de  fazer  tabernáculos  para  morar  neles  e  não  descer  mais  do monte. Também foi grande o privilégio de Moisés quando esteve com Cristo no monte Sinai e lhe pediu que mostrasse a sua glória, e ele o viu pelas costas quando Ele passou e o ouviu proclamar seu nome. Mas o privilégio de  que  falamos  não  é  infinitamente  maior?  O  privilégio  de  estarmos  com Cristo no céu onde Ele se assenta no trono, como o Rei dos anjos e o Deus do  universo,   brilhando   como   o  Sol  daquele   mundo    de   glória —   para habitarmos  na  visão  plena,  constante  e  perpétua  da  sua  beleza  e  brilho, conversarmos     com   Ele  livre e  intimamente     e  desfrutarmos    seu  amor inteiramente, como amigos e irmãos, compartilharmos com Ele no prazer e gozo  infinitos  que  Ele  tem  no  prazer  do  Pai,  assentarmo-nos  com  Ele  no trono, reinarmos com Ele na posse de todas as coisas, participarmos com Ele da glória da sua vitória sobre os inimigos e o progresso do seu Reino no mundo e unirmo-nos com Ele nos alegres cânticos de louvor ao seu Pai e nosso Pai, ao seu Deus e nosso Deus, para sempre e sempre. Não é este um privilégio digno de ser buscado?

Agora,  como  execução  veemente  desta  exortação,  eu  tiraria  lições proveitosas dessa dispensação aflitiva da providência santa de Deus, que é a ocasião de nossa reunião neste momento — a morte do eminente servo de Jesus Cristo,  cujo enterro deve  ser cuidado  neste  dia juntamente  com  o que era observável nele, na vida e na morte.

Nesta dispensação  da  providência,  Deus  nos  faz  lembrar  da  nossa mortalidade    e  nos   avisa   que   o  tempo    está  próximo,    quando    então estaremos  “ausentes  do  corpo”  e  “devemos  comparecer”,  como  o  apóstolo observa  dois  versículos  mais  à  frente  no  texto:  “Porque  todos  devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal” (2 Co 5.10).

Nele,  cuja  morte  somos  chamados  a  considerar  e  tirar  lições  pro- veitosas, temos não só uma instância de mortalidade, mas também, como possuímos toda razão imaginável para concluir, uma instância de alguém que,   estando   ausente    do  corpo,   está  presente   com    o  Senhor.   Disto ficaremos   convencidos    se  considerarmos     a  natureza   da  experiência   na ocasião  de  sua  conversão,  a  natureza  e  curso  dos  exercícios  interiores  a partir  daquela   data,  sua   conversação    exterior  e prática  de   vida, ou   a estrutura e comportamento durante todo o longo tempo em que ele encarou a morte frente a frente.

Suas convicções de pecado que precedem suas primeiras consolações em Cristo, como consta num relato escrito que ele deixou dos exercícios e experiências   interiores,  eram   sumamente      profundas   e  completas.   Suas dificuldades e tristezas que surgem de um senso de culpa e miséria eram muito grandes e continuamente longas, mas, não obstante, sãs e racionais, não   consistindo    em    pavores   instáveis,   violentos   e  irresponsáveis    e perturbações da mente; mas surgindo das mais sérias considerações e de uma    iluminação    clara  da   consciência    para  discernir   e  considerar    o verdadeiro estado das coisas. A luz entrou em sua mente na conversão, e as  influências  e  exercícios  para  os  quais  sua  mente  foi  sujeita  naquele momento mostram-se  muito agradáveis à razão e  ao Evangelho de  Jesus

Cristo. A mudança foi muito grande e notável, contudo sem a aparência de impressões fortes na imaginação, de vôos súbitos de afetos ou de emoções veementes  da  natureza  animal.  Isso  foi  assistido  com  visões  justas  da suprema  glória  do  Ser  divino,  consistindo  na  dignidade  e  beleza  infinitas das perfeições da sua natureza e da excelência transcendente do caminho de salvação por Cristo Jesus. Isto sucedeu cerca de oito anos atrás, quando ele tinha vinte e um anos de idade.

Deus santificou e formou para seu uso este vaso, que Ele designou fazer  eminentemente  um  vaso  de  honra  na  sua  casa  e  o  qual  fizera  de grande    capacidade,   dotando-o    de   habilidades   e  dons   naturais   muito incomuns. Ele era instância singular de uma invenção pronta, eloqüência natural,    expressão    fluente,   apreensão    vivaz,   discernimento     rápido, memória     forte,  gênio   penetrante,    pensamento      profundo     e  claro   e julgamento perspicaz. Ele tinha um discernimento exato; sua compreensão era,  se  posso   expressá-la,   de  um   faro  rápido,   forte e  distintivo;  sua aprendizagem era muito considerável. Ele tinha grande gosto em aprender e  se  aplicava   aos  estudos    de  maneira    tão  íntima   quando   estava   na faculdade,  que  muito  lhe  prejudicou  a  saúde  c  foi  obrigado,  por  conta disso, durante algum tempo, a deixar a faculdade, desistir de seus estudos e voltar para casa. Ele era reputado alguém que excedia em aprendizagem naquela sociedade.

Ele tinha  conhecimento  extraordinário  das  pessoas,  como  também das coisas, e  perspicácia incomum  da natureza humana. Excedia muitos que  já  conheci  no  poder  de  comunicar  os  pensamentos  e  tinha  talento peculiar de acomodar-se às capacidades, temperamentos e circunstâncias daqueles a quem instruía ou aconselhava.

Ele  tinha  dons extraordinários para  o púlpito.  Nunca  tive  oportuni- dade   de  ouvi-lo  pregar,   mas   muitas   vezes  o  ouvi  orar.  Acho   que   sua maneira  de  se  dirigir  a  Deus  e  de  se  expressar  diante  dEle  era  quase inimitável, fato que raramente vi igual. Ele se exprimia com propriedade e pertinência exatas em expressões significantes, fluentes e pungentes, com tamanha     demonstração     de  sinceridade,   reverência    e solenidade,    e tão grande   distância   de  toda   afetação,   quanto   a  esquecer    a presença    da audiência e estar na presença imediata de  um grande e santo Deus, que poucas vezes vi paralelo. Seu modo de  pregar, sobre o qual muitas vezes ouvi  bons juizes  referirem-se,   era  não   menos    excelente,   sendo   claro, instrutivo,  natural,   vigoroso,  comovente,    penetrante    e  convincente.   Ele repugnava o ruído afetado e a impetuosidade violenta no púlpito, e contudo tinha  grande  aversão  de  uma  entrega  tediosa  e  fria,  quando  o  assunto requeria   afeição  e  avidez.  Suas  experiências    das   influências  santas   do Espírito de Deus foram grandes não só primeiramente na conversão, mas também continuaram assim num curso permanente. Este fato evidencia-se num diário que ele mantinha de seus exercícios interiores desde o tempo em que se converteu até o momento em que ficou incapacitado pela queda de forças poucos dias antes de morrer. A mudança que ele estimava como sua  conversão  foi  não  só  uma  grande  mudança  de  suas  visões,  afetos  e estrutura  de  pensamento,  mas,  evidentemente,  o  começo  dessa  obra  de Deus   no   seu  coração,   que  Deus    continuou    fazendo   de  maneira   muito maravilhosa desde aquele tempo até o dia em que morreu.

Assim  como seu aspecto interior  mostrou-se  ser  do tipo certo e era muito notável quanto ao grau, seu comportamento e prática externas eram igualmente agradáveis. Em toda a sua trajetória, ele agiu como alguém que tinha vendido tudo por Cristo, dedicado-se completamente a Deus, feito a glória dEle o seu mais alto fim e estava determinado a gastar todo o tempo e  força  neste  propósito.  Ele  era  ativo  na  religião  da  maneira  certa,  não meramente ou principalmente em sua língua, para professá-la e falar dela, mas  ativo  na  obra  e  matéria  da  religião.  Ele  não  era  um  daqueles  que procuram    esquivar-se    da  cruz  para   alcançar   o  céu  na   indulgência   da facilidade e indolência. São provavelmente sem paralelo hoje em dia nesta parte do mundo sua vida de labor e abnegação, os sacrifícios que fez e a prontidão  e  constância  com  que  despendeu  suas  forças e  todo  o  seu  ser para  promover  a  glória  do  Redentor.  Muito  disso  pode  ser  percebido  por aquele que lê seu jornal impresso, porem muito mais se aprendeu através de  longas  e  estreitas  relações  com  ele  e  examinando  o  diário  desde  sua morte, o qual ele de propósito escondeu no que publicou.

Não   menos    extraordinário    era  sua   constante    tranquilidade,   paz, certeza e alegria em Deus, durante o longo tempo em que olhava a morte face  a  face  sem  a  menor  esperança      de  recuperação,  continuando  sem interrupção    até  os  últimos    momentos     em    que  a   enfermidade    muito sensivelmente atacava dia a dia seus órgãos vitais e muitas vezes o levava  ao  estado    no  qual   ele  se  considerava    —   e  outros   também     —   estar morrendo. Os pensamentos da aproximação da morte nunca pareciam ao menos  desalentá-lo,  mas  antes  o  encorajavam  e  divertiam-lhe  o  humor. Quanto mais perto a morte chegava, mais desejoso ele parecia de morrer. Pouco  tempo  antes  de  morrer,  ele  disse  que  “a  consideração  do  dia  da morte e o Dia do Julgamento há muito tinha[lhe] sido peculiarmente doce”.

Ele parecia ter extraordinários exercícios de resignação à vontade de Deus. Certa vez, ele me contou que “tinha ansiado pelo derramamento do Espírito Santo de Deus e pelos tempos gloriosos da Igreja e esperado a sua proximidade; e desejaria viver para promover a religião nesta época, se essa tivesse sido a vontade de Deus”. “Mas”, disse ele, “estou propenso que as coisas sejam como são; nem por dez mil mundos eu não teria a escolha de fazer sozinho”.

Com frequência ele falava dos diferentes tipos de vontade de morrer, e mencionava como algo ignóbil e vil a vontade de morrer, por estar propenso a morrer só para se livrar da dor, ou ir para o céu a fim de receber honra c promoção. Seu desejo da morte parecia ser de um tipo totalmente diferente e para fins mais nobres. Quando foi tomado pela primeira vez com um dos últimos   e  mais   fatais  sintomas    da  doença,   ele  disse:  “Agora   o  tempo glorioso   está  chegando!    Almejei    servir  a  Deus    perfeitamente    e  Deus satisfará esse desejo”. Uma vez ou outra na fase final de sua enfermidade, ele articulou estas expressões: “Meu céu é agradar a Deus, glorificá-lo, dar tudo  a  Ele  e  ser  dedicado  completamente  à  sua  glória.  Este  é  o  céu  que desejo,  esta  é  a  minha  religião,  esta  é  a  minha  felicidade  e  sempre  foi, desde que supus ter a verdadeira religião. Todos os que são dessa religião me encontrarão no céu”. “Eu não vou para o céu para ser promovido, mas para dar honra a Deus. É de pouca importância onde serei posicionado no céu, se tenho um assento alto ou baixo, mas vou amar, agradar e glorificar a Deus. Se eu tivesse mil almas, se elas valessem algo, eu as daria todas a Deus. Mas não tenho nada a oferecer quando tudo terminar”.

Depois  que  seu  estado  o  deixou  tão  prostrado  que  já  não  tinha  a menor  esperança  de  recuperação,  sua  mente  vislumbrou  o  futuro  com zelosa preocupação pela prosperidade da Igreja de Deus na terra. É mais do que evidente que isto é proveniente de um amor puro e desinteressado de Cristo e um desejo de sua glória. A prosperidade de Sião era um tema no  qual  ele  se  demorava  muito  e  do  qual  muito  falava,  e  cada  vez  mais assim que a morte se aproximava dele. Quando estava perto do fim, ele me contou  que  nunca,  em  toda  a  vida,  teve  a  mente  induzida  a  desejos  e orações sérias pelo florescimento do Reino de Cristo na terra, quanto desde que ficou extremamente prostrado em Boston. Ele parecia se perguntar por que os ministros e as pessoas não manifestavam mais a disposição de orar pelo desenvolvimento da religião por todo o mundo.

Mas pouco antes de morrer, ele me contou quando entrei no quarto: “Meus  pensamentos  estavam  no  querido  velho  tema:  a  prosperidade  da Igreja  de  Deus  na  terra.  Enquanto  eu  acordava,  fui  levado  a  chorar  pelo derramamento do Espírito de Deus e o progresso do Reino de Cristo, pelo qual o querido Redentor morreu e tanto sofreu. É sobretudo isso que me faz desejar muito a prosperidade da Igreja de Deus na terra”.

Alguns  dias  antes  de  morrer,  ele  quis  que  cantássemos  um  salmo relacionado  à  prosperidade  de  Sião,  que  ele  denotou  ter  engajado  seus pensamentos e desejos acima de todas as coisas. A seu pedido, cantamos parte do Salmo 102. Quando terminamos, embora estivesse tão prostrado que mal podia falar, ele se esforçou e fez uma oração, muito audivelmente, na  qual,  além  de  pedir  pelos  presentes  e  pela  própria  congregação,  orou solicitamente  pelo avivamento e  florescimento da  religião no mundo.  Sua congregação tem lugar especial em seu coração. Era freqüente ele falar dela e,  quando  o  fazia.  era  com  ternura  peculiar,  de  forma  que  sua  fala  era interrompida e afogada em lágrimas.

Assim,  propus-me  a  representar  algo  do  caráter  e  comportamento deste excelente servo de Cristo, cujo sepultamento deve ser cuidado agora. Embora  o  tenha  feito  muito  imperfeitamente,  contudo  empreendi  fazê-lo com  fidelidade  e  como  na  presença  e  temor  de  Deus,  sem  lisonja,  o  que seguramente     deve   ser  de  nenhum     valor  aos  ministros   do   Evangelho, quando    falam  “como    mensageiros    do  Senhor   dos   Exércitos”.  Tal  razão temos   de  satisfazer   para  que   a  pessoa   de  quem    tenho   falado,  agora “ausente  do  corpo”,  está  “presente  com  o  Senhor”,  não  apenas  isso,  mas também com ele está uma coroa de glória de brilho distinto.

Quanto  há  na  consideração  de  tal exemplo  e  de  tão  abençoado  fim para   encorajar   os  que  ainda   estamos    vivos  com   a  maior   diligência  e seriedade,  a  fim  de  que  tiremos  lições  proveitosas  do  tempo  de  vida  e também  possamos  ir  estar  com  Cristo  quando  deixarmos  este  corpo!  O tempo está chegando e logo virá, não sabemos quão próximo está, quando teremos de nos despedir eternamente de todas as coisas deste mundo para entrarmos num estado permanente e inalterável no mundo eterno. Quanto vale  a  pena   laborarmos,    sofrermos    e  negarmos    a  nós   mesmos     para guardarmos  um  bom  fundamento  de  sustentação  e  provisão  contra  esse tempo!  Quão preciosa  é  essa  paz,  quando  ouvimos falar  que  vale  a  pena tais momentos! Quão escuro seria estarmos em tais circunstâncias, sob as aflições externas de uma estrutura consumada e dissolvente, e encarando a morte a cada dia, com corações imundos e pecados não perdoados, sob uma  carga  terrível de  culpa e  ira  divina,  tendo muita  tristeza e raiva em nossa   enfermidade,  e   nada   para   consolar  e  apoiar  nossa   mente,   nada diante  de  nós  senão  um  iminente  comparecimento  perante  o  tribunal  de um  Deus  Todo-poderoso e  infinitamente  santo e  irado, e  uma eternidade para  sofrermos  sua  ira  sem  piedade  ou  misericórdia!  A  pessoa  de  quem estamos falando tinha um grande senso desta realidade. Ele afirmou, não muito   tempo   antes   de  morrer:   “Me  c  doce  pensar   na   eternidade.   Sua infinidade a torna doce. Mas, o que direi quanto à eternidade dos ímpios? Não  posso  mencionar,  nem  pensar!  O  pensamento  é  muito  terrível!”  Em outro momento, falando de um coração dedicado a Deus e sua glória, ele disse: “Quanto é importante ter tal estrutura de mente, tal coração como esse, quando vamos morrer! É isso que me dá paz agora”.

Quanto  há,  em  particular,  nas  coisas  que  foram  observadas  deste eminente ministro de  Cristo para nos impelir —  os que somos chamados para a mesma e grande obra do ministério do Evangelho —  ao cuidado e esforços diligentes, a fim de que da mesma maneira sejamos fiéis em nosso trabalho, como também cheios do mesmo espírito, animados com a mesma chama pura e ardente do amor a Deus e tenhamos o mesmo interesse sério pela  promoção     do  Reino   e  glória  de  nosso    Senhor   e  Mestre   e  da prosperidade  de  Sião!  Estes  princípios  o  tornaram  muitíssimo  amado  na vida e muito bem-aventurado no seu fim!

Que  as  coisas  que  foram  vistas  e  ouvidas  sobre  esta  pessoa  extra- ordinária — a santidade, consagração, trabalho duro e abnegação de vida; sua tão excepcional devoção de si e do seu tudo, no coração e na prática,para   a  glória  de   Deus;   e  a  maravilhosa    estrutura   de   pensamento manifestada de maneira tão firme sob a expectativa da morte e com dores e agonias   que   a  acompanharam.      Que   isso  nos   encoraje   a  todos  nós, ministros e povo, a um senso adequado da grandeza da obra que temos de fazer no mundo, da excelência e afabilidade da religião total na experiência e na prática, da bem-aventurança do fim daqueles cuja morte encerra tal vida e do valor infinito da recompensa eterna, quando “ausente do corpo e presente com o Senhor’; e efetivamente nos leve a empenhos constantes e eficazes que, à semelhança de tal vida santa, entremos afinal para tão bem- aventurado fim! Amém.

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