A queda de Adão, Eva e a sua – Por R. C. Sproul


Na obra da criação de Deus, o ato máximo, o auge dessa obra divina, foi a criação dos seres humanos. Foi para os seres humanos que Deus concedeu e selou Sua imagem divina. O fato de sermos criados à imagem de Deus dá a nós o mais alto lugar entre os seres terrenos. Esta imagem fornece aos seres humanos uma capacidade única de espelhar e refletir o caráter de Deus.

No entanto, desde a queda trágica de Adão e Eva no jardim do Éden, essa imagem tem sido sujeitada a graves alterações e à corrupção. Como resultado, nós falamos da “quebra da imagem”. Porém, o termo ‘quebrar’ pode ir longe demais, porque poderia sugerir a ideia de que a imagem está agora destruída e de que nenhum vestígio dela foi deixado em nossa humanidade. Não é esse o caso. Embora a imagem tenha sido radicalmente manchada e corrompida, ainda permanece algum aspecto desta imagem em nossa humanidade, e este vestígio é a base da dignidade humana. A dignidade humana não é inerente, ela é derivada. Não é intrínseca, é extrínseca. Os seres humanos têm dignidade porque Deus, que tem dignidade inerente e intrinsecamente, atribuiu tal dignidade a nós.

Quando falamos da queda e do pecado original, não estamos falando do primeiro pecado cometido por Adão e Eva, estamos falando das radicais conseqüências daquele pecado, as quais seguiram a todas as gerações futuras da humanidade. Em círculos reformados, a doutrina do pecado original tem sido muitas vezes descrita pela frase “total depravity” (depravação total). O motivo de ser chamada de “depravação total” é explicado, em certo sentido, porque a letra “T” se encaixa perfeitamente no histórico acróstico TULIP, que define os chamados “cinco pontos do Calvinismo”.

Entretanto, a palavra ‘total’ que diz respeito à nossa depravação pode seriamente induzir ao erro. Ela poderia sugerir que nossa natureza caída é tão corrupta e depravada quanto possível. Mas isso seria um estado de absoluta depravação. Eu prefiro usar a frase “radical corruption” (corrupção radical), talvez porque a primeira inicial de cada palavra se ajusta tanto ao meu nome, R.C. Sproul, quanto à minha natureza, mas muito mais porque evita o mal-entendido que resulta da expressão “depravação total”. Corrupção radical significa que a queda do nosso estado original nos afetou não apenas na periferia de nossa existência. Não é algo que apenas corrompe uma personalidade que, de outra forma, seria boa; mas sim, é aquela corrupção que vai à raíz, fonte ou núcleo de nossa humanidade, e afeta todas as partes do nosso caráter e ser. O efeito dessa corrupção atinge a nossa mente, nosso coração, nossa alma, nosso corpo – de fato, a pessoa inteira. Isto é o que está por trás da palavra ‘total’ em “depravação total”.

O que é mais significativo com respeito às conseqüências da queda é o que ela fez à nossa capacidade de obedecer a Deus. O problema da nossa capacidade moral depois da queda é um dos temas mais persistentemente debatidos dentro da comunidade cristã. Praticamente todos os ramos da cristandade tem articulado alguma doutrina do pecado original porque a Bíblia é absolutamente clara em afirmar que caímos de nossa condição de criação.

No entanto, o grau da queda e da corrupção que esta continua a ser disputado calorosamente entre os cristãos. Historicamente, essa controvérsia foi acendida pelo debate entre o monge britânico Pelágio e o maior teólogo do primeiro milênio, Santo Agostinho de Hipona. Ao definir o estado de corrupção em que a humanidade caiu, Agostinho estabeleceu alguns paralelos e contrastes entre o estado do homem antes da queda e sua condição após a queda. Agostinho disse que, antes da queda, o homem era posse peccare  e posse non peccare, isto é, o homem tinha a capacidade de pecar e a capacidade de não pecar. Não pecar era uma possibilidade que Adão tinha no jardim.

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Além disso, Agostinho fez distinção entre nosso estado original, que envolveu tanto a posse mori quanto a posse non mori. Esta distinção refere-se a nossa mortalidade. Adão foi feito de tal forma que era possível que morresse. Ao mesmo tempo, ele tinha a possibilidade diante dele de viver para sempre se ele não tivesse caído em pecado. Assim, tanto a possibilidade de pecar e não pecar quanto a possibilidade de morrer ou não morrer existiam como opções para Adão antes da queda, de acordo com Agostinho.

Ele argumentou ainda que a consequência da queda sobre a raça humana pode ser definida da seguinte forma: desde a queda, o homem já não possui a posse non peccare ou a posse non mori. Todos os seres humanos agora perderam a habilidade natural de evitar o pecado e, portanto, de evitar a morte. Todos nós nascemos em estado de pecado e como criaturas mortais, destinados à morte. Após a queda, Agostinho define a nossa condição como possuindo a posse peccare. Nós mantemos a capacidade de pecar, mas agora temos a terrível condição de non posse non peccare. Esta dupla negativa significa que já não temos a capacidade de não pecar. Da mesma forma, temos agora a non posse non mori. Para nós, não é possível não morrer. A todos nós nos é ordenado morrer uma única vez, e então, o julgamento. As únicas exceções a isto seriam aqueles que permanecem vivos até a vinda de Cristo.

Quando chegarmos ao céu, as coisas mudarão novamente. Lá, já não mais teremos a posse peccare posse e anon posse non peccare. Lá, nós somente teremos non posse peccare. Nós já não mais seremos capazes de pecar ou morrer. Tudo se resume a isso, ao problema da capacidade moral. Agostinho estava dizendo que, a parte da obra regeneradora do Espírito Santo que Deus realiza nas almas dos eleitos, nenhuma pessoa em seu próprio poder é capaz de escolher a piedade, escolher a Cristo, ou escolher as coisas de Deus; que a capacidade de vir a Cristo, como nosso próprio Senhor declarou em João capítulo 6, é uma habilidade que só pode ser o resultado do poder regenerador de Deus, o Espírito Santo. Esta posição descrita por Agostinho continua a ser a posição ortodoxa da teologia reformada histórica.

Fonte: Ligonier Ministries

Tradução: Arielle Pedrosa

Fonte: AME Cristo

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