Para refletirmos a Glória de Deus – Mark Dever


Refletir o caráter de Deus conforme ele é revelado em sua Palavra implica, naturalmente, começarmos pela Palavra de Deus. Por que devemos recorrer à Bíblia, e não a quaisquer outras “obras”, para determinar o que as nossas igrejas devem ser e fazer? Escrevendo a Timóteo, o pastor da igreja em Éfeso, Paulo disse, em sua segunda epístola, que a Bíblia o tornaria “habilitado para toda boa obra”. Em outras palavras, não havia qualquer boa obra para a qual a Escritura não prepararia Timóteo — ou a nós. Se houvesse algo que nossas igrejas acham que deveriam ser ou fazer, e isso não estivesse nas Escrituras, o apóstolo Paulo estaria errado, porque, nesse caso, não poderia ter dito que as Escrituras nos preparam “para toda boa obra”. Estou dizendo que não devemos usar os bons cérebros que Deus nos deu? Não, estou dizendo apenas que vamos começar pelas Escrituras e observar o que encontramos. Consideraremos, de modo breve, seis momentos na linha histórica da Bíblia que nos ajudarão a perceber que desejamos igrejas que refl itam incessantemente o caráter de Deus, conforme ele é revelado em sua Palavra. Você sabe que a Bíblia conta realmente uma história. Essa história tem inúmeros enredos secundários, mas todos fazem parte de uma única e grande história. Nosso alvo é perceber se podemos discernir o que Deus pretende para a igreja nessa linha histórica.

1.Criação

Em Gênesis, Deus criou as plantas e os animais “segundo as suas espécies”. Cada macieira é formada segundo cada outra macieira; e cada zebra é formada de acordo com cada outra zebra. Quanto à raça humana, as Escrituras dizem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). O homem não é formado segundo cada outro homem. Ele é formado segundo a imagem de Deus. Ele é o único que reflete a Deus ou se parece com Ele.

Visto que fomos os únicos criados à imagem de Deus, os humanos devem ser os únicos que refl etem a imagem e a glória de Deus para o restante da criação. À semelhança de um fi lho que age como seu pai e segue os passos profi ssionais de seu pai (Gn 5.1, seg.; Lc 3.38), o homem foi idealizado para ser um refl exo do caráter e do governo de Deus sobre a criação: “Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1.26).

2. Queda

No entanto, o homem decidiu não refl etir o governo de Deus. Ele se revoltou contra Deus e começou a trabalhar para manifestar seu próprio governo. Por isso, o Senhor deu ao homem aquilo que ele desejava e o baniu de sua presença. A culpa moral do homem implicou que ele não podia mais, por si mesmo, aproximar-se de Deus.

Os homens ainda preservam a imagem de Deus, mesmo depois da Queda? Sim, Gênesis reafirma que o homem ainda é feito à “imagem” de Deus (Gn 5.1; 9.6). Contudo, tanto a imagem como o refl exo dessa imagem estão distorcidas. O espelho é curvo, você poderia dizer, e uma falsa imagem é refl etida, como uma imagem grotesca, distorcida. Mesmo em nosso pecado, refl etimos algo a respeito de Deus — coisas verdadeiras e falsas misturadas. Na linguagem dos teólogos, o homem se tornou “culpado” e “corrupto”.

3. Israel

Em sua misericórdia, Deus estabeleceu um plano para salvar e usar um grupo de pessoas a fim de cumprirem seus propósitos originais para a criação — a manifestação de sua glória. Ele prometeu a um homem chamado Abrão que o abençoaria, bem como os seus descendentes. Eles, por sua vez, seriam uma bênção para todas as nações (Gn 12.1-3). Deus os chamou de “nação santa” e “reino de sacerdotes” (Êx 19.5-7), significando que eles haviam sido separados especialmente para mediar ou refletir o caráter e a glória de Deus às nações, por obedecerem à lei que lhes fora dada (como Adão deveria ter feito). Mostrem ao mundo como Eu sou, Deus estava dizendo a Israel. “Santos sereis, porque eu… sou santo” (Lv 11.44; 19.2; 20.7).

Ele até chamou esta nação de seu “fi lho”, pois se espera que os filhos sigam os passos de seus pais (Ex 4.22-23). E prometeu habitar com esse fi lho na terra que lhes estava dando, um cenário em que a nação poderia manifestar a glória de Deus (1Rs 8.41-43).

No entanto, Deus advertiu esse fi lho de que, se ele falhasse em obedecer e demonstrar o seu caráter santo, Ele o lançaria fora da terra. Encurtando a história, o fi lho não obedeceu, e Deus o expulsou de sua presença e da terra.

4. Cristo

Uma das principais lições que o antigo Israel nos ensina é que seres humanos caídos, entregues a si mesmos, não podem refl etir a imagem de Deus — embora tivessem as vantagens da lei, da terra e da presença de Deus. Como deveríamos, todos nós, ser humilhados pela história de Israel! Somente Deus pode refl etir a sua própria imagem, e somente Ele pode nos salvar do pecado e da morte.

Por isso, Ele enviou seu Filho para nascer “em semelhança de homens” (Fp 2.7). Esse Filho amado, em quem o Pai teve prazer, submeteu- se completamente ao governo ou ao reino de Deus. Ele fez o que Adão não fez — resistiu à tentação de Satanás. “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4), disse Jesus ao tentador, quando jejuava no deserto.

Jesus fez também o que Israel não fez. Ele viveu totalmente de acordo com a vontade e a lei do Pai: “Nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou” (Jo 8.28; ver também Jo 6.38; 12.49).

Esse Filho que vivenciou plenamente a imagem de seu Pai podia dizer ao discípulo Filipe: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14.9).

Tal Pai, tal Filho.

Olhando para trás, os autores das cartas do Novo Testamento se referiram a Ele como “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15) e o “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1.3). Na qualidade de último Adão e o novo Israel, Jesus Cristo redimiu a imagem de Deus no homem.

E Cristo não somente refletiu a gloriosa santidade de Deus, por meio da obediência à lei, mas também demonstrou a gloriosa misericórdia e amor de Deus, ao morrer na cruz em favor dos pecadores, sofrendo a penalidade da culpa que eles mereciam (Jo 17.1-3). Este sacrifício substitutivo de Cristo era algo para o qual o Antigo Testamento apontou durante toda sua história. Pense nos animais que foram mortos para cobrir a nudez de Adão e Eva, depois de haverem pecado. Pense na maneira como Deus providenciou um carneiro nos arbustos para Abraão e Isaque, salvando assim Isaque. Pense em José, o filho que foi sacrificado e mandado embora por seus irmãos, de modo que um dia se tornasse mediador para a nação. Pense nas pessoas de Israel passando o sangue de um cordeiro nas portas de suas casas, a fim de pouparem os filhos da morte. Pense nas famílias israelitas que traziam suas ofertas ao átrio do templo, colocavam as mãos sobre a cabeça do animal e cortavam sua garganta — “O sangue derramado do animal é meu”. Pense no sumo sacerdote entrando no Santo dos Santos, uma vez por ano, para oferecer um sacrifício de expiação por todo o povo. Pense na promessa do profeta Isaías: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).

Tudo isso e muito mais apontava para Jesus, que foi à cruz como o cordeiro sacrifi cial de Deus. Conforme Jesus disse aos seus discípulos, no cenáculo, Ele foi à cruz para estabelecer uma “nova aliança” no seu sangue [Mt 26.28; Mc 14.24; Lc 22.20; 1Co 11.25], em favor de todos os que se arrependeriam e creriam.

5. A Igreja

Nós, que estávamos mortos em nossos pecados, fomos vivifi cados quando fomos batizados na morte e na ressurreição de Cristo. Por isso, Paulo disse: “Todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes” (Gl 3.26-27); e: “Porque vós sois fi lhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6-7).

O que esses muitos fi lhos de Deus devem fazer? Manifestar o caráter, a semelhança, a imagem e a glória do Filho e do Pai, que está no céu!

Jesus nos diz que sejamos “pacificadores”, visto que o Pai fez a paz entre Ele mesmo e nós por meio do sacrifício de seu Filho (Mt 5.9).

Jesus nos diz que amemos os nossos inimigos, porque nosso Pai celeste nos amou embora fôssemos seus inimigos (Mt 5.44; Rm 5.8).

Jesus nos diz que amemos uns aos outros, visto que Ele deu sua própria vida por amar-nos e, por amarmos uns aos outros, mostramos ao mundo como Ele é (Jo 13.34-35).

Jesus orou pedindo que sejamos “um”, assim como Ele e o Pai são um (Jo 17.20-23).

Jesus nos diz que sejamos “perfeitos”, como o é nosso Pai celestial (Mt 5.48).

Jesus nos diz que sejamos “pescadores de homens” e façamos discípulos de todas as nações (Mt 4.19; 28.19). Ele nos envia assim como o Pai O enviou (Jo 20.21).

Tal Pai, tal Filho, e tais fi lhos.

Purificado de seu pecado mediante a obra de Cristo, tornado uma nova criação e possuidor de um coração nascido de novo, pela obra do Espírito, o povo de Deus começou a recuperar a perfeita imagem de Deus. Cristo é as nossas primícias (1Co 15.23). Ele retirou o véu e abriu o caminho para que a igreja contemple novamente a imagem do Pai (2Co 3.14, 16). Contemplamos a imagem dEle pela fé e “somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3.18).

Você quer ver o propósito de Deus para a Igreja resumido em apenas dois versículos? Paulo declarou:

Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor (Ef 3.10-11).

Como a igreja torna conhecida a multiforme sabedoria de Deus? Somente um Deus onisciente poderia idealizar uma maneira de reconciliar seu amor com sua justiça e, ao mesmo tempo, salvar um povo pecaminoso, que estava alienado dEle e uns dos outros. E somente um Deus onisciente poderia criar uma maneira de tornar nosso coração de pedra em coração de carne, para amá-Lo e louvá-Lo. Que os poderes cósmicos, em todo o universo, vejam e se admirem.

6. Glória

Refletiremos mais perfeitamente a imagem de Deus quando O contemplarmos com perfeição na glória — “Amados, agora, somos fi lhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2). Santos como Ele é santo, amando como Ele ama. Unidos com Ele. Esse versículo não é uma promessa de que todos seremos deuses. É uma promessa de que nossa alma resplandecerá sobremaneira com o caráter e a glória dEle, como espelhos perfeitos cujas faces estão voltadas para o sol.

Você acompanhou a história? Eis uma recapitulação. Deus criou o mundo e a humanidade para manifestarem a glória de seu Ser. Adão e Eva, que deviam refl etir a imagem do caráter de Deus, não o fi zeram. Nem o povo de Israel. Por isso, Deus enviou seu Filho para manifestar seu caráter santo e amável e remover a sua ira contra os pecados do mundo. Em Cristo, Deus veio ao mundo para revelar-se a Si mesmo. Em Cristo, Deus veio ao mundo para salvar-nos.

Agora, a igreja, que recebeu a vida de Cristo e o poder do Espírito Santo, é chamada a manifestar o caráter e a glória de Deus a todo o universo, testemunhando em atos e palavras a grande sabedoria de Deus e a sua obra de salvação.

O que você está procurando em uma igreja? Boa música? Um lugar onde as coisas acontecem? Uma ordem tradicional de culto? Que tal…

 

Um grupo de rebeldes perdoados…

Que Deus pretende usar para manifestar a sua glória…

Diante de todas as hostes celestiais…

Porque eles falam a verdade a respeito dEle…

E se parecem cada vez mais com Ele — sendo santos, amáveis e unidos?

Extraído do excelente livro do pastor Mark Dever O que é uma Igreja Saudável, publicado pela Editora Fiel. 

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