Exposição sobre João 3:16 – J. C. Ryle (1816-1900)


Nós temos nos versículos abaixo a segunda parte da conversa entre o nosso Senhor Jesus Cristo e Nicodemos. Uma lição sobre a regeneração é seguida de perto por uma lição sobre a justificação! Toda a passagem deve sempre ser lida com afetuosa reverência. Ela contém as palavras que trouxeram vida eterna a miríades de almas.

“Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o nosso testemunho. Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu. E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.”

Estes versículos nos mostram, em primeiro lugar, que pode haver grosseira ignorância espiritual na mente de um grande e erudito homem. Vemos um “mestre de Israel” não familiarizado com os primeiros elementos da religião salvadora. Ao ouvir sobre o novo nascimento, Nicodemos logo exclama: “Como pode ser isso?” Se tal era a escuridão de um mestre judeu, qual deveria ser o estado do povo judeu? Certamente era o devido tempo para a vinda de Cristo! Os pastores de Israel haviam cessado de alimentar o povo com conhecimento. O cego estava a guiar outro cego, e ambos estavam caindo no barranco. (Mateus 15:14.)

Ignorância como a de Nicodemos é infelizmente muito comum na Igreja de Cristo. Nós nunca devemos nos surpreender se encontrarmos isso onde poderiamos razoavelmente esperar o conhecimento. Instrução, classe e alto ofício eclesiástico não são provas de que um ministro é ensinado pelo Espírito. Os sucessores de Nicodemos, em cada época, são muito mais numerosos do que os sucessores de Pedro. Em nenhum ponto a ignorância religiosa é tão comum como na obra do Espírito Santo. Aquela velha pedra de tropeço, na qual Nicodemos tropeçou, é tanto uma ofensa a milhares de pessoas nos dias de hoje como era nos dias de Cristo. “O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus.” (1 Cor 2:14..) Feliz é aquele que tem sido ensinado a provar todas as coisas pela Escritura, e não chamar nenhum homem de mestre sobre a terra. (1 Ts 5:21;.Mat 23:9)

Estes versículos nos mostram, em segundo lugar, a fonte original da qual brota a salvação do homem. Essa fonte é o amor de Deus, o Pai. Nosso Senhor disse a Nicodemos: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Este versículo maravilhoso, foi corretamente chamado por Lutero de “A Bíblia em miniatura”. Nenhuma parte dele, talvez, seja tão profundamente importante quanto as primeiras palavras: “Deus amou o mundo de tal maneira”. O amor do qual se fala aqui não é aquele amor especial com o qual o Pai considera seus eleitos, mas aquela poderosa piedade e compaixão que Ele tem em relação à totalidade da raça humana. Seu objetivo não é apenas o pequeno rebanho que Ele tem dado a Cristo desde toda a eternidade, mas o “mundo” todo dos pecadores sem qualquer exceção. Há um profundo sentido no qual Deus ama o mundo. Ele considera todos aqueles que criou com piedade e compaixão. Ele não pode amar seus pecados – mas ama suas almas. “Suas ternas misericórdias são sobre todas as Suas obras.” (Salmo 145:9.) Cristo é o dom gratuito de Deus para o mundo todo.

Devemos tomar cuidado para que nossas visões do amor de Deus sejam bíblicas e bem definidas. Sobre esse assunto abundam erros por ambos os lados. Por um lado temos de ter cuidado de opiniões vagas e exageradas. Devemos manter firmemente que Deus odeia a impiedade, e que o fim de todos os que persistem na impiedade será a destruição. Não é verdade que o amor de Deus é “menor do que o inferno.” Não é verdade que Deus amou o mundo de tal maneira que toda a humanidade será salva no fim, mas que Ele amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho para ser o Salvador de todos que crêem. Seu amor é oferecido a todos os homens livremente, completamente, honestamente e sem reservas, mas é somente através do canal único de redenção de Cristo. Aquele que rejeita Cristo, corta a si mesmo fora do amor de Deus, e perecerá eternamente.

Por outro lado, devemos tomar cuidado com opiniões estreitas e contraídas. Nós não devemos hesitar em dizer a qualquer pecador que Deus o ama. Não é verdade que Deus não se importa com ninguém, a não ser seus eleitos, ou que Cristo não é oferecido a ninguém, a não ser aqueles que são ordenados à vida eterna. Há “bondade e amor” em Deus com relação a toda a humanidade. Foi em conseqüência desse amor que Cristo veio ao mundo, e morreu na cruz. Não sejamos sábios acima do que está escrito, ou mais sistemáticos em nossas declarações do que a própria Escritura. Deus não tem prazer na morte do ímpio. Deus não quer que ninguém pereça. Deus quer que todos os homens sejam salvos. Deus ama o mundo. (João 6:32; Tito 3: 4; 1 João 10; 2 Ped 3:9. 1 Tim 4; Ez 33:11)

Estes versículos nos mostram, em terceiro lugar, o peculiar plano pelo qual o amor de Deus proveu salvação para os pecadores. Esse plano é a morte expiatória de Cristo na cruz. Nosso Senhor disse a Nicodemos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Por ser “levantado”, nosso Senhor quis dizer nada menos que Sua própria morte na cruz. Porque a morte, Ele queria que nos soubessemos, foi designada por Deus para ser “a vida do mundo.” (João 6:51) Foi ordenada desde toda a eternidade para ser a propiciação e satisfação pelo pecado do homem. Foi o pagamento, por um Substituto e Representante Todo-Poderoso, da enorme dívida do homem a Deus. Quando Cristo morreu na cruz, nossos muitos pecados foram colocados sobre Ele. Ele foi feito “pecado” por nós. Ele foi feito “maldição” por nós. (2 Cor 5:21, Gal 3:13). Por sua morte Ele adquiriu o perdão e a completa redenção para os pecadores. A serpente de bronze, levantada no acampamento de Israel, trouxe saúde e cura ao alcance de todos aqueles que foram mordidos pelas serpentes. Cristo crucificado, da mesma forma, trouxe a vida eterna ao alcance da humanidade perdida. Cristo foi levantado na cruz, e o homem olhando para Ele pela fé, pode ser salvo.

A verdade diante de nós é a própria pedra fundamental da religião cristã. A morte de Cristo é a vida do cristão. A cruz de Cristo é o título do cristão para o céu. O Cristo “levantado” e colocado para vergonha no Calvário é a escada pela qual os cristãos “entram no santuário”, e finalmente chegam na glória. É verdade que somos pecadores – mas Cristo sofreu por nós. É verdade que nós merecemos a morte – mas Cristo morreu por nós. É verdade que somos devedores culpados – mas Cristo pagou a nossa dívida com Seu próprio sangue. Este é o verdadeiro Evangelho! Essa é a boa notícia! Sobre isso nos apoiamos enquanto vivermos. Para isso nos agarraremos quando morrermos. Cristo foi “levantado” na cruz, e abriu as portas do Céu para todos os crentes.

Estes versículos nos mostram, em quarto lugar, a maneira pela qual os benefícios da morte de Cristo são feitos nossos: simplesmente por colocar fé e confiança em Cristo. A fé é a mesma coisa que crer. Três vezes o Senhor repete esta gloriosa verdade a Nicodemos. Duas vezes ele proclama que “todo aquele que crê não pereça.” E a outra quando diz: “Aquele que crê no Filho de Deus não é condenado ”

Fé no Senhor Jesus é a própria chave da salvação. Aquele que a tem, tem vida, e aquele que não a tem, não tem vida. Nada além dessa fé é necessário para a nossa completa justificação; mas nada, exceto essa fé, nos dará um interesse em Cristo. Nós podemos jejuar e lamentar pelo pecado, e fazer muitas coisas que são corretas, realizar ordenanças religiosas, dar todos os nossos bens para sustento dos pobres, e ainda assim permanecer não perdoados, e perder nossas almas. Mas se nós apenas viermos a Cristo como pecadores culpados, e crermos Nele, nossos pecados serão de uma vez perdoados, e nossas iniqüidades serão inteiramente colocadas de lado. Sem fé não há salvação, mas pela fé em Jesus, o mais vil pecador pode ser salvo.

Se nós tivermos uma consciência pacífica na nossa religião, veremos que nossas visões de fé salvifica são distintas e claras. Tomemos cuidado com a suposição de que a fé justificadora é algo mais do que simples confiança de um pecador em um Salvador, o agarrar de um homem que se afoga na mão que o socorre. Tomemos cuidado para não misturar qualquer coisa com a fé em matéria de justificação. Devemos sempre nos lembrar que a fé aqui está inteiramente sozinha. Um homem justificado, sem dúvida, sempre será um homem santo. A verdadeira fé será sempre acompanhada por um viver piedoso. Mas o que dá ao homem um interesse salvifico em Cristo não é a sua vida, mas sua fé. Se quisermos saber se a nossa fé é genuína, fazemos bem em nos perguntar como estamos vivendo. Mas se queremos saber se somos justificados por Cristo, há apenas uma pergunta a ser feita. Essa pergunta é: “Nós cremos?”

Estes versículos nos mostram, por último, a verdadeira causa da perda da alma do homem. Nosso Senhor disse a Nicodemos: “Esta é a condenação, que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más”

As palavras diante de nós formam uma adequada conclusão para as gloriosas novas que acabamos de considerar. Elas inocentam completamente Deus de injustiça na condenação dos pecadores. Elas demonstram, em termos simples e inconfundíveis, que, embora a salvação do homem seja inteiramente de Deus, a sua ruína, se ele se extravia, será inteiramente de si mesmo. Ele colherá os frutos da sua própria semeadura.

A doutrina aqui estabelecida deve ser cuidadosamente guardada na memória. Ela fornece uma resposta a uma objeção comum dos inimigos da verdade de Deus. Não há um decreto de reprovação excluindo qualquer um do Céu. “Deus não enviou o Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo pudesse ser salvo por Ele.” Não há nenhuma indisposição da parte de Deus em receber qualquer pecador, por mais que sejam grandes seus pecados. Deus enviou a “luz” ao mundo, e se o homem não vem para a luz, a culpa é inteiramente do homem. Seu sangue estará sobre a sua cabeça, se ele levar a naufrágio sua alma. A culpa estará na sua porta, se ele perder o Céu. Sua miséria eterna será o resultado de sua própria escolha. Sua destruição será a obra de suas próprias mãos. Deus o amava, e estava disposto a salvá-lo, mas ele “amou mais as trevas”, e, portanto, as trevas devem ser a sua porção eterna. Ele não quis vir a Cristo, e portanto não pode ter vida. (João v. 40).

As verdades que temos considerado são peculiarmente importantes e solenes. Nós vivemos como se cressemos nelas? Salvação pela morte de Cristo está próxima de nós hoje. Nós a temos abraçado pela fé, e a tornado nossa? Nunca descansemos enquanto não conhecermos a Cristo como nosso próprio Salvador. Olhemos para Ele, sem demora, por perdão e paz, se nós nunca olhamos antes. Continuemos a crer Nele, se já temos crido. “Todo aquele que” é a sua expressão graciosa – “todo aquele que Nele crê, não perecerá, mas tem a vida eterna”.

Fonte: Meditações no Evangelho de João – Editora Fiel

Veja mais artigos do Bispo J. C. Ryle AQUI

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