Em Quem Deus reuniu todas as coisas – John Owen (1616-1683)


“…que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:8-10).

Ao tentar entender estas palavras, devemos considerar o estado original de todas as coisas nos céus e na terra, a desordem que foi trazida pelo pecado e a glória de sua restauração em Cristo.

1.      Deus Se chama a Si mesmo: “EU SOU” (Êxodo 3:14). Ele é eternamente existente em Si mesmo e é a força e fonte de toda a existência. Tudo o que existe provém dEle (Romanos 11:36). Semelhantemente, Deus é a fonte de toda a bondade.

2.      Onde há um ser de tão infinita bondade, há também infinitas bem-aventuranças e felicidades, às quais nada existe que possa ser acrescentado. A bem-aventurança e auto-satisfação de Deus eram exatamente as mesmas antes da criação como são agora. Essa bem-aventurança consiste no amor eterno e mútuo das três pessoas santas, Pai, Filho e Espírito, como um Deus. Quando Deus age, Ele o faz em perfeito entendimento e amor, conforme Suas próprias perfeições.

3.      Deus criou todas as coisas de acordo com a Sua própria vontade e prazer, agindo em infinita sabedoria, poder e bondade. O que Ele outorgou às coisas fora de Si mesmo foi uma limitada dependência, existência e bondade. Ele disse: “Haja”, e houve. “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). A existência e a bondade na criação devem ser a primeira maneira externa na qual a divina natureza nos mostra a glória de Deus. A continuidade de toda a criação também depende de Deus.

4.      Assim “no princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1). Ele designou a terra para os homens habitarem nela e preparou os céus como habitação dos anjos. De acordo com suas diferentes naturezas, esses locais também trouxeram glória e louvor a Deus. Esta ordem das coisas era muito bela. Não havia quebra no relacionamento entre Deus e aquele que Ele havia criado. Ele Se comunicava diretamente com eles e tudo o que faziam estava em obediência a Ele.

5.      Mas esta linda ordem foi rompida e perturbada pela entrada do pecado. Parte da família dos anjos nos céus, e toda a família da humanidade da terra, caíram de sua dependência de Deus e apenas ódio e confusão reinaram entre eles. Visto que a terra havia sido colocada em sujeição à humanidade, agora caída, Deus amaldiçoou a terra. Entretanto, Ele não amaldiçoou os céus porque muitos dos anjos permaneceram sem cair. Os anjos que pecaram foram rejeitados para sempre. Apesar de toda a raça humana haver caído pelo pecado, Deus determinou salvar parte dela pela Sua graça.

6.      O plano de Deus era agora o de trazer as duas famílias, anjos e humanidade, juntas debaixo de uma nova cabeça; os anjos bons sendo preservados de pecar e todos os que cressem sendo libertos do pecado. Este é o significado das palavras “de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10) e “…por meio dele re-conciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Colossenses 1:20). Jesus Cristo, o Filho de Deus, é a nova cabeça em quem Deus reuniu todas as coisas, tanto as do céu, como as da terra. Como um corpo e uma família eles agora dependem dEle, por quem vivem e têm sua existência. Deus, o Pai, “sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo da igreja: é o primeiro e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:17-19).

7. Deus tem dado todo o poder no céu e na terra ao cabeça dessa nova família piedosa. Todos devem se chegar a Cristo para receber poder espiritual, graça e bondade. Quer seres angélicos ou humanos, todos agora estão totalmente dependentes dEle. Os anjos que não caíram não necessitavam de redenção e graça para que pudessem continuar existindo na glória do céu. Mas foi-nos necessário que Cristo precisasse tomar a nossa natureza e Se unisse a nós pelo Seu Espírito. Então, os crentes estão redimidos para viver num céu glorioso, uma só família com os anjos.

Mais alguns pensamentos podem nos ajudar a meditar no ato de reunir todas as coisas em Jesus Cristo, cuja glória ultrapassa o nosso entendimento.

1. Apenas Cristo poderia suportar o peso dessa glória. O Espírito Santo O descreve como sendo “o resplendor da glória (do Pai), e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas, pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hebreus 1:3). “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades: tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:15-17).

2. O maravilhoso e eterno propósito de Deus era de glorificar-Se através de Cristo sendo feito homem. Esse propósito era para que toda a criação pudesse ter uma nova cabeça, especialmente a Igreja que seria eternamente abençoada. A ordem de toda a família no céu e na terra, anjos e homens, era para ser dependente de Cristo. Nada deveria encher os corações dos crentes com refrigério e alegria mais do que esta visão pela fé, visão da beleza divina ao reunir todas as coisas em Cristo.

3.      O pecado que destruiu a beleza e a ordem da criação já foi vencido. Tudo aquilo que na criação era bonito, mostrava a sabedoria e beleza de Deus, por causa da forma em que dependia dEle. A entrada do pecado arruinou aquela cena de beleza. Mas agora, ao reunir todas as coisas em Jesus Cristo, tudo nEle é restaurado novamente à comunhão com Deus. Na verdade, toda a estrutura maravilhosa da criação divina é tornada mais bonita que era antes, e tudo isso surge da nova relação com o Filho de Deus.

4.      Deus é sempre sábio em tudo o que faz. O Seu infinito poder e sabedoria foram vistos na primeira criação. “O Senhor, quão variadas são as tuas obras! todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas” (Salmo 104:24). No entanto, quando os efeitos dessa sabedoria divina foram arruinados foi necessário ainda mais sabedoria para restaurá-los. Ao reunir todas as coisas novamente em Cristo, Deus mostrou Sua insondável sabedoria aos anjos, que não sabiam antes quais eram os Seus propósitos. “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Efésios 3:10). “NEle estão escondidos e através dEle são mostrados todos os tesouros de sabedoria. (Colossenses 2:3).

5.      Na primeira criação, gloriosa como era, tudo dependia diretamente de Deus e da lei da obediência a Ele. Isso era uma unidade frágil, que dependia do desejo das criaturas de obedecerem ao Criador. Todavia, tudo na nova criação, incluindo cada crente, foi reunido em Cristo — a cabeça. Esta é uma unidade inquebrável. Aqueles que dependem inteiramente de Cristo para a sua segurança eterna não podem mais cair da segurança que agora desfrutam nEle.

Do blog do Josemar Bessa

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