A Reverência de Deus por si mesmo – Jonathan Edwards (1703-1758)


A retidão moral de Deus consiste em ele estimar o que é mais precioso, ou seja, ele próprio
Se o próprio Deus é, em qualquer sentido, devidamente passível de ser o seu fim na criação do mundo, é razoável supor que ele considera a reverência a si mesmo como o fim último e transcendente de suas obras, pois ele é digno em si mesmo de ser esse fim, uma vez que é infinitamente o maior e melhor de todos os seres.

Todo o restante, no tocante a dignidade, importância e excelência, não é absolutamente nada em comparação a ele. E, portanto, se Deus demonstra a sua reverência pelas coisas segundo a sua natureza e suas proporções, deve ter a maior reverência possível por si mesmo. Seria contrário à perfeição de sua natureza, à sua sabedoria, à sua santidade e retidão perfeitas, segundo as quais ele é inclinado a fazer tudo o que é mais correto, supor algo diferente.

Uma parte considerável da retidão moral de Deus, pela qual ele é inclinado a tudo o que é correto, adequado e amável [isto é, agradável, admirável] em si mesmo, consiste em ele ter a mais elevada deferência por aquilo que é, em si mesmo, superior e melhor. A retidão de Deus deve consistir numa devida reverência por aquilo que é objeto de respeito moral, ou seja, pelos seres inteligentes capazes de atos e relacionamentos morais. E, portanto, deve consistir, acima de tudo, em reverenciar apropriadamente o Ser ao qual essa reverência é devida, pois Deus é infinitamente mais digno de ser reverenciado.

A dignidade de outros não é nada em comparação com a dignidade dele; a ele pertence toda reverência possível. A ele pertence toda a reverência de que qualquer ser inteligente é capaz. A ele pertence TODO O coração. Logo, se a retidão moral do coração consiste em reverenciar sinceramente aquilo que é devido, ou que assim o requer por força de seu merecimento e propriedade, esse merecimento requer que se preste deferência infinitamente maior a Deus, e a negação dessa deferência pode ser considerada uma conduta infinitamente imprópria. Segue-se, portanto, que a retidão moral da disposição, inclinação ou afeição de Deus consiste SOBRETUDO numa deferência POR SI MESMO infinitamente superior à sua deferência por todos os outros seres; em outras palavras, é nisso que consiste a sua santidade.

É apropriado que Deus revele por meio de suas obras aquilo que ele mais estima: a si mesmo

E, portanto, se é apropriado que Deus tenha uma deferência suprema por si mesmo, também é apropriado que essa deferência se mostre nas coisas por meio das quais ele se faz conhecido, ou por meio de suas palavras e suas obras, ou seja, no que ele diz e no que ele faz. Se é infinitamente amável [isto é, agradável, admirável] que ele tenha uma deferência suprema por si mesmo, é amável [isto é, agradável, admirável] que suas ações correspondam a essa deferência máxima por si mesmo, ou que ele aja de maneira a demonstrar que possui tal deferência: que o mais importante no coração de Deus seja o mais importante nas suas ações e conduta.

E, se era a intenção de Deus – como há motivos fortes para crer que tenha sido o caso – que as suas obras revelassem uma imagem dele próprio como o seu autor, que mostrassem claramente o tipo de ser que ele é, oferecendo uma representação apropriada de suas excelências divinas, e especialmente de sua excelência moral, que consiste na disposição do seu coração, é razoável supor que as suas obras são realizadas a fim de mostrar essa reverência suprema dele por si mesmo, na qual consiste, sobretudo, a sua excelência moral.

O grau de deferência por um ser é proporcional à sua existência e excelência

Ao considerarmos o objeto mais apropriado da reverência de Deus, principalmente a respeito da universalidade das coisas, talvez nos seja proveitoso, para avaliar mais fácil e satisfatoriamente, considerar o que podemos supor seria determinado por um terceiro ser de sabedoria e retidão irrepreensíveis, perfeitamente indiferente e desinteressado. Ou, ainda, conjecturar que a justiça infinitamente sábia e a retidão são uma pessoa distinta e desinteressada cuja incumbência é determinar de que modo as coisas devem ser ordenadas mais apropriadamente em todo o reino da existência, incluindo o rei e seus súditos – Deus e suas criaturas  e, ao observar o todo, decidir qual deferência deve prevalecer em toda conduta  de que maneira esse juiz, ao aferir as devidas medidas e tipos de deferência, pesaria as coisas numa balança justa, cuidando para que a parte maior do todo fosse mais reverenciada que a parte menor, proporcionalmente (sendo as outras coisas iguais) à medida da existência.

Assim, o grau de deferência deve sempre se encontrar em uma proporção composta da proporção da existência e da proporção da excelência, ou estar de acordo com o grau da grandeza e da bondade, consideradas conjuntamente.

Direto do Josemar Bessa

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