O que justifica a apostasia dos Membros da Igreja?


O Pr. João Falcão Sobrinho, num artigo propondo uma forma de atuação da Igreja para com seus excluídos estima que para cada cem batistas brasileiros há  quarenta e dois excluídos. Ele dá o exemplo de um bairro no Rio de Janeiro onde foi feito um levantamento e constatou-se que ali haviam mais batistas excluídos do que membros da Igreja local. Segundo o manual de “pré-evangelização” da Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira, em nossas Igrejas, em média, batizamos uma pessoa para cada dez que “se convertem” e chegamos a excluir 50% dos que batizamos.

Até que ponto esta apostasia tem a ver com a pregação que se faz na Igreja? Em 1986, num Congresso Nacional de Evangelização e Missões,  ocorrido no Rio de Janeiro, o Pr. Irland Pereira de Azevedo apresentou um estudo no qual alistou alguns dos motivos pelos quais igrejas estão morrendo, dentre estes a pretensão de trazer os homens à Igreja antes de lhes falar de Cristo.

Outro motivo apontado pelo ilustre pregador foi “a pregação de um evangelho barato, antropocêntrico e deslembrado da soberania e Senhorio de Cristo”. Isto posto, é inegável que dentre outros fatores, a pregação é estreitamente relacionada ao êxodo que boa parte dos membros empreende das igrejas.

Igrejas com bancos vazios não são, infelizmente, exceções nos nossos dias.  Uma explicação para a quantidade de bancos vazios numa Igreja é encontrada no livro de Blackwood, onde transcreve um estudo do inglês Charles Morgan.

O púlpito deveria alimentar as ovelhas e não apenas “divertir a assistência”. O que
o  ausente exige e deixa continuamente de achar, é algo que o interesse e desafie na
Igreja.   O que mais  o desaponta  são os  sermões – não como muitos pastores
modestamente  supõem, por serem longos demais ou porque ofendem o ouvinte,
mas  pela razão oposta, por serem mesquinhos, por não irem bem ao fundo da
questão e por serem conciliadores e tímidos demais… Quando o sermão começa,
o que deseja ouvir… é o pastor que, sem temor nem compromisso, relacione o seu
assunto, qualquer que seja, com as verdades mais profundas do Cristianismo.

Desta forma, parece-nos inegável que dentre outras consequências, a apostasia reflete o lugar descaracterizado que a pregação ocupa atualmente em nossas Igrejas e confirma a tese de que bancos vazios refletem púlpitos descontextualizados. Vale lembrar ainda que boa parte dos “apóstatas” termina por vincular-se a outras denominações, geralmente neo-pentecostais.

O abandono da Igreja é visto por Martha Saint de Berberián como, em muitos casos, decorrência da “desnutrição espiritual” a que os membros ficam expostos quando seus pastores não são eficientes no suprimento do “alimento”. Esta autora expõe a necessidade de o pregador estar consciente da variedade de necessidades que envolve uma congregação para então dedicar-se a supri-la com “uma dieta balanceada”  por sermões com temas e objetivos variados, práticos e que toquem as vidas das pessoas com a Verdade de Deus.

Samuel Escobar, professor de Missiologia e Estudos Hispânicos no Eastern Baptist Theological Seminary, em Filadélfia, EUA, batista boliviano e ex-secretário executivo da Aliança Bíblica Universitária, escreveu um artigo em que respondeu à questão do porque do crescimento dos protestantes na América Latina. Segundo fontes citadas pelo autor, os evangélicos chegam a 12,5% da população do continente. Não é difícil perceber que tal índice de crescimento espelha principalmente a expansão das Igrejas Pentecostais e neo-Pentecostais nestas últimas décadas.

A mobilização dos leigos e a ativa participação popular nas tarefas da igreja, marcas características do pentecostalismo, são apontadas por Escobar. Outra característica marcante dos pentecostais é a adentração que tais Igrejas têm junto à população marginalizada com uma proposta de auxílio às suas carências, inclusive materiais que, para o autor, também  explica este crescimento. Eles crescem porque “têm conseguido atingir melhor os pobres emocionalmente e consolá-los”.

Sendo assim, deduzimos que grande parte da migração dos membros para denominações pentecostais e neo-pentecostais explica-se pelo tipo de mensagem que recebem ali. Não discutimos a legitimidade da mensagem pentecostal, no entanto, isto nos alerta para o fato de que esta mudança é também consequência da insensibilidade dos nossos púlpitos para com essas mesmas necessidades.

Se os médicos de um hospital que tem todos os mecanismos de pesquisa e tratamento das enfermidades da população  não se dedicam a utilizar os melhores tratamentos para com os enfermos, estes desistem e vão em busca de outras alternativas. Nossos pregadores não têm identificado corretamente as doenças do povo de nossas Igrejas e, muitas vezes, lhes têm designado “medicamentos” inócuos.

Paulo Pietrizi

Continue esse estudo:

1. O lugar da pregação na igreja contemporânea

2. A crise de identidade da Igreja

3. O que justifica a apostasia dos membros da igreja

4. A procura de substitutos à pregação

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One Response to O que justifica a apostasia dos Membros da Igreja?

  1. joao carlos ferraz says:

    Acho que na maioria das vezes os nossos pulpitos batistas estão mais comprometidos com instituição, denominação, doutrinas historicas e dogmas, a verdade contida nos sermões passam sempre por uma otica de revisão que a leva pra afirmações ou ratificações de pontos de vistas ou visões particulres. A teologia é muito mais do medo, do que da Graça.

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