Constantino e a institucionalização da Igreja


Por Neil Cole

Recentemente, minha esposa e eu estivemos por alguns dias na cidade de York, Inglaterra. Lá vimos uma estátua de Constantino erigida bem ao lado da principal catedral da área – a York Minster. A despeito de sua impressionante beleza, a catedral nos lembra de como as pessoas se afastaram do propósito original da Igreja.

A Igreja primitiva era orgânica e um movimento nos primeiros duzentos anos de sua existência. Mesmo forçada à clandestinidade por ondas de perseguição no Império Romano, ela continou sendo um movimento viral que não podia ser contido ou detido. Ainda que muitos tenham tentado destruí-la, cada tentativa a tornava ainda mais forte.

Tudo isso mudou no ano 313 d.C., quando o imperador Constantino declarou que o império não somente toleraria o cristianismo, mas devolveria aos cristãos todas as propriedades anteriormente confiscadas. Ele foi o primeiro imperador “cristão”, e tudo mudou quando o cristianismo saiu da marginalidade para se tornar a religião do império. Desde então, a Igreja não mudou muito. Nosso inimigo, o diabo, entendeu que se ele não podia parar a Igreja, ele deveria se juntar a ela e mudá-la de dentro para fora, no intuito de torná-la menos efetiva e menos ameaçadora. Com exceção de avivamentos ocasionais em grupos remanescentes, ele realizou seu propósito. E ele usou Constantino para lançar seu sinistro ataque.

Ao longo dos séculos, depois de Constantino, a Igreja ocidental progrediu em muitos aspectos, mas não passou por nenhuma mudança sistemática. Houve muito pouca mudança desde que o cristianismo era composto pela Igreja Católica Romana e a Igreja Grega Ortodoxa. A Reforma dividiu o cristianismo ocidental entre a Igreja Romana e a volátil Igreja Protestante. Mas apesar das diferenças, no âmbito institucional o sistema permaneceu praticamente intacto. Os anabatistas logo se separaram da reforma (e foram perseguidos por isso), mas rapidamente se institucionalizaram também.

Apesar das adaptações feitas para alcançar os mineiros de carvão do século XVIII na Inglaterra, ou os peregrinos pós-modernos do século XXI, as mudanças tem sido mínimas. Tradicional ou contemporânea, pentecostal ou presbiteriana, a igreja manteve sua roupagem institucional. Dos batistas aos Irmãos de Plymouth, dos menonitas aos metodistas, o sistema eclesiástico continua praticamente intacto ao longo dos séculos. Com música ou sem música? Órgão ou guitarra? Seja em catedrais com seus tetos altos e vitrais, ou em galpões sem janelas, o sistema é praticamente o mesmo.

Sua igreja tem um padre ou um pastor, um culto dominical com cânticos e um sermão, a oferta semanal, o púlpito, os bancos e um edifício. Essa tem sido a regra desde o século IV. Ainda que você mova todo o show para uma casa, se o sistema não mudou tudo o que você fez foi encolher a Igreja, não transformá-la. Adotar um estilo musical mais contemporâneo não muda o sistema. Diminuir as luzes e aumentar o volume é somente um remendo novo no velho sistema. Corais e hinos ou bandas de louvor, máquinas de fumaça, ajoelhando ou de pé, o sistema não muda quase nada. Pregar sermões tópicos ou expositivos não muda o sistema, somente faz alguns ajustes. Escolas bíblicas dominicais ou células como ambientes secundário de aprendizado não representam nenhuma mudança sistêmica, somente uma variação do velho sistema operacional.

Constantino foi declarado César enquanto estava em York em 306 d.C. Hoje, próximo ao lugar onde ele foi nomeado Imperador, há uma estátua sua ao lado de uma enorme catedral, algo que vejo como tremendamente simbólico. Constantino transformou a Igreja em uma instituição e ela permaneceu neste estado por 1700 anos. Hoje, há uma homenagem a ele ao lado de um monumento institucional que expressa exatamente o que a Igreja é – a York Minster Cathedral. Atualmente, estamos testemunhando uma rápida transição de volta a uma expressão orgânica e viral de eclesiologia.

Devemos nos lembrar de Constantino para não que cometamos o mesmo erro novamente. Precisamos despertar, uma vez mais, para a verdadeira natureza e expressão do Corpo de Cristo, que não é um prédio, um programa, um evento ou uma organização, mas uma família espiritual com um chamado e uma missão em conjunto. Precisamos entender, uma vez mais, que a forma da Igreja não é o problema, mas a maneira como nos relacionamos com Deus, uns com os outros, e com o mundo.

Fonte: Cole Slaw. Tradução: Pão e Vinho

Neil Cole gentilmente autorizou a tradução deste artigo. Ele é editor do blog Cole Slaw e idealizador da Associação para Multiplicação de Igrejas (Church Multiplication Associates – CMA), uma rede informal de comunidades em busca de uma expressão orgânica de Igreja. Neil é autor de vários livros, entre eles Igreja Orgânica e Church 3.0 (ainda não publicado no Brasil).

 

Comentário:

Eu não sou a favor do fim da Igreja como ela é atualmente. É bom que estejamos em unidade e em um lugar específico. Isso reforça a comunhão entre os irmãos, dando-lhes maiores noções do corpo de Cristo e a importância de fazer parte dele.  Além disso, nossa profissão de fé em Jesus é aprimorada e confirmada pela vida compartilhada com outros irmãos, seja em meio às dificuldades ou bonanças.

Entretanto, não sou a favor desse modismo que invadiu nossas igrejas nos últimos anos. Um grande mercado evangélico se estabeleceu desde então, com ministros de louvor e pregadores tornando-se celebridades ávidos por honra, glória, fama e status inpensáveis na infância da Igreja.

Uma coisa é certa: a Igreja precisa repensar seus valores e objetivos. Precisamos voltar aos ideais da Reforma, onde a Bíblia é a fonte máxima de autoridade e não o que meia dúzia de gurus evangélicos dizem ser.  Tornar o louvor direcionado a Cristo e não aos meus dilemas, medos e anseios por riqueza, exaltação e honra. E por fim, eliminar as heresias e o mundanismo impregnados na liturgia dos cultos e na forma da igreja atuar em meio à sociedade.

Tiago Lino

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