DE QUEM É A INICIATIVA DE REAVER UMA COMUNHÃO QUEBRADA?


Se um cristão peca contra outro, de quem é a iniciativa para o reestabelecimento da comunhão quebrada pelo pecado? 

Tese 1: “Eu ofendi o meu próximo. Se fui eu a ofender, deve ser minha a iniciativa de desfazer o mal que lhe provoquei”. Este comportamento encontra respaldo bíblico? Parece que sim…
“Portanto, se você estiver oferecendo no altar a sua oferta a Deus e lembrar que o seu irmão tem alguma queixa contra você, deixe a sua oferta ali, na frente do altar, e vá logo fazer as pazes com o seu irmão. Depois volte e ofereça a sua oferta a Deus.” (Mateus‬ ‭5:23-24‬). 

Isto é, não há comunhão com Deus às custas da comunhão com o próximo. Tendo ofendido alguém, o ofensor tem o dever de se retratar. Isso justifica a iniciativa do ofensor. 

Tese 2: “Bom, tendo eu sido a pessoa ferida e, segundo Mateus 5:23-24, posso concluir que é dever exclusivo de quem me feriu vir até a mim e retratar-se”. Este comportamento encontra respaldo bíblico? Não. 

“— Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro. Mas faça isso em particular, só entre vocês dois. Se essa pessoa ouvir o seu conselho, então você ganhou de volta o seu irmão.” ‭‭(Mateus‬ ‭18:15‬)

No verso acima, Jesus põe sobre o ombro da parte ofendida a iniciativa de restaurar uma comunhão que fora quebrada pelo ofensor. Há, então, uma contradição? 

Parece claro nesses dois versículos que a questão a se discutir não é o papel (direitos e deveres) de alguém numa relação litigiosa no seio da igreja. Mas algo que está acima de ambos, superior a eles, cuja manutenção todos temos o dever de garantir: a comunhão. 

Por que a tese 1 é bíblica, e a tese 2, no que seria uma ação consequente da primeira (se eu ofendo eu retrato, se eu sou ofendido eu aguardo o ofensor vir até a mim), não é? Porque a tese 1 tem vistas à restauração da comunhão. A tese 2, entretanto, a dificulta. E, me parece claro isso, não é o objetivo de Cristo criar alvos que não visem à plena comunhão do corpo de Cristo (imagine quanto tempo se gastaria porque o ofensor não veio até a mim e eu não irei até ele porque é dever dele fazê-lo?). Toda ação numa relação conflituosa deve ter como objetivo a mais rápida restauração. 

Por último, e tão importante, é o que podemos inferir em Mateus 18. Se alguém peca contra você, quem é o perdedor? Você mesmo! No mínimo, você também o é! Senão, vejamos: 

“Então você ganhou de volta o seu irmão”. Se ganhou de volta é porque você havia perdido também. Quando você é a parte ofendida, você também é o perdedor. Você perdeu seu irmão e o gozo da comunhão com ele. 

O que se conclui com isso? Toda relação quebrada pelo pecado é um desastre para o ofensor como o é para o ofendido. E, em última análise, o é também para o corpo de Cristo. Por isso, o que Jesus faz nesses dois versos é colocar sobre as duas partes a mesma responsabilidade de tomar a iniciativa de restaurar a comunhão interrompida. Pelo meu próprio bem, pelo bem do meu irmão e pelo bem da Igreja. Para a glória de Deus. 
“…para que a nossa alegria seja completa.” ‭‭(1João‬ ‭1:4‬)

O EVANGELHO DA AUTOAJUDA NÃO LEVA A DEUS  


Se há algo que me causa grande incômodo nas pregações modernas é o seu teor de abstração. Não foram raras as vezes que ouvindo algumas (quando minha paciência me permitiu ir até o fim) fui levado a me questionar qual seria a conexão delas com a vida real. Sacos de palavras vazias, fluxo de ideias que não fazem sentido e nem mesmo se sustentam nas Escrituras. 
Parece que muitos crentes já se renderam a uma fé abstrata, que não causa transformação. A religião para eles é um ópio cuja única utilidade é permitir a fuga da realidade, e não sua alteração. Um crente nesse estado se assemelha à pessoa que bebe para esquecer seus problemas. O culto, então, torna-se um lugar para se fixar mentiras aceitáveis – com música e tudo – com o objetivo de entorpecer o intelecto a fim de se evitar o contato com aridez da vida. Mesmo sabendo que fracassará no dia seguinte, ele prefere se apegar a clichês que lhe fornecerão conforto rápido. 

Para isso servem as pregações de autoajuda tão em voga hoje. Elas mentem em suas afirmações (você é bom; comerás o melhor desta terra; o melhor de Deus…) e entregam um produto falso: um otimismo que não resiste ao primeiro fracasso. Dar ouvidos a esse tipo de mensagem é ter como amiga a decepção. O evangelho nos leva à companhia de Deus (Mt 11:28-30).

O salmo 34 é um exemplo de que o exercício da fé resulta em ações práticas e experiências verdadeiras. Jamais em engodo. A julgar somente pelos tempos verbais que Davi utiliza para descrever suas experiências, a grande mensagem que salta desse salmo é a certeza que a fé sempre alcança o favor de Deus (Hb 11:6b). Enquanto a busca por autoajuda – numa pregação abstrata – promove a fuga da realidade, a fé te faz encará-la com coragem. 

Quando buscou a Deus, Davi obteve resposta. Seus temores foram cancelados (ao invés de postergados por um otimismo barato promovido por clichês) e suas angústias eliminadas. Daí, portanto, resultou o verdadeiro louvor que ele menciona na abertura de seu cântico. E esse louvor é contínuo como o é suas experiências com a graça de Deus. 

Como conclusão, ele faz uma convocação a uma fé concreta. Porque assim tem de ser. “Provai e vede”. Isto é, abandone uma fé que prefere ser enganada com mentiras religiosas e experimente confiar em Deus. Eu termino com algumas observações sobre esse ato duplo. 

Primeiro, uma fé autêntica sempre se volta para Deus em busca de auxílio. Ele é tanto o objeto da nossa fé quanto a fonte de toda graça. Não está na experiência, no acúmulo de conhecimento ou no grau de serviço a graça que nos permite encarar os dias maus. Está somente em Deus. E a fé traz isso porque ela nos faz vê-Lo melhor. E em vê-lo como Ele é reside o verdadeiro descanso da alma. 

“Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.” (Isaías‬ ‭45:22‬)

Segundo, a fé se volta para Deus por meio de ações simples: buscando e clamando. Isso denota dependência e comunhão. A verdadeira fé abre mão de espiritualidade vazia. Ela nega qualquer eficácia em decretos e declarações ditas proféticas como artimanhas para mudar o quadro. Porque o que ela mostra de imediato é que todo poder está nas mãos de Deus. Por isso só indo a Ele. 

Por fim, ela nos assegura que a bondade de Deus não é mero título de livro ou ficção. Sim, Deus se importa conosco e com nosso bem-estar, mesmo que dele sejamos privados momentaneamente, para o crescimento da nossa fé. Sendo Deus perfeitamente bom, Ele move suas mãos para nos comunicar seus bênçãos. Misericórdia, providência, compaixão e sustento são alguns exemplos que saltam dos textos e tornam-se realidade à medida que caminhamos com Ele. Por isso, a constatação de Davi não poderia ser diferente: 

“…mas aqueles que buscam ao Senhor de nada têm falta.” (Salmos‬ ‭34:10‬)‬‬

O evangelho não consiste em mentiras para sustentar uma felicidade fingida, que você admite não existir. Muito menos um conjunto de teorias para te convencer que a vida é inútil e que você precisa admitir isso. Pelo contrário, é a única forma de ter esperança em meio ao caos. E o melhor: ele afirma que você pode, agora mesmo, desfrutar isso. “Provai e vede”.

AS GLÓRIAS DA CERTEZA DA SALVAÇÃO 


A despeito de a segurança da salvação (às vezes mal compreendida pela frase “uma vez salvo, salvo para sempre) ser claramente ensinada e crida nas Escrituras, temos muitos cristãos que desenvolvem grande dificuldade de crer que o filho de Deus está eternamente seguro em Cristo. Uns por pouca fé, outros por desconhecimento e outros mais por acharem-na incompatível com uma vida realmente piedosa.
Não é meu objetivo aqui esclarecer o fundamento bíblico para confiar que a salvação não pode ser perdida. Sobre isso, sugiro uma leitura atenta dos textos bíblicos abaixo.

(Jó 19:26-27; Sl 23:4; Is 26:3; Jo 6:39,40,47; Jo 10:27-29; Rm 8:38-39; 2 Co 5:1,6; 2 Tm 1:12; 1 Jo 5:13)

O meu objetivo Leia mais deste post

PORQUE É SEMPRE MELHOR SER UM MISERÁVEL CONSCIENTE 


O progresso espiritual de um cristão é percorrido em caminhos tortuosos, de terreno acidentado e muito incerto às vezes. Não raro nos vemos em profunda tristeza por constatar que não somos o que deveríamos ser, apesar de todas informações acumuladas para “chegar até lá”.
Mas poucos se dão conta que faz parte desse mesmo crescimento a constatação da própria pequenez e miséria espirituais. Isso geralmente vem acompanhado de um coração quebrantado, comportamento muito agradável a Deus, que nos lança aos Seus pés para de não mais sair.   Leia mais deste post

POR QUE UMA FÉ SEM (BONS) LIVROS É UMA FARSA 


Não é de hoje que a pouca compreensão da fé cristã tem trazido enormes prejuízos para a expansão do evangelho. Basta ler autores dos últimos três séculos para comprovar que eles também se punham a exortar os cristãos professos a serem mais conscientes da fé que ostentavam, tanto em suas bênçãos quanto em seus custos.

Se o cristianismo é o que afirma ser, se ele julga possuir a melhor explicação para a realidade da existência humana, se ele possui as mais profundas verdades para explicar o propósito da vida e o que acontece após a morte, então como explicar um número absurdo de cristãos em nossas igrejas incapazes de organizar e harmonizar as verdades e os fatos bíblicos a fim de explicar a razão da sua esperança e lutar para que elas sejam também conhecidas por outros? A resposta parece simples: COSMOVISÃO Leia mais deste post

Asafe: da inveja para a graça 


O salmo 73 é um testemunho pessoal de um crente em Deus que teve sua vida arruinada, por um momento, pelo pecado da inveja. Seu nome era Asafe. Ele era músico e compositor e exercia uma posição importante no culto e no pensamento religioso de sua época, pois expressava, por meio de canções, as obras de Deus na vida diária de seus filhos.

Mesmo nessa posição, deixou-se dominar pela inveja. Por misericórdia divina, não sucumbiu a ela. No verso dois ele diz que quase se desviou, tamanho o estrago que ela fez a ele e à sua fé em Deus. No verso dezessete ele relata o início da sua restauração.

Sendo assim, à luz do do que Asafe vivenciou, o que podemos refletir sobre esse período de sua vida e os problemas de olhar a vida sob a ótica da inveja?  Leia mais deste post

14 promessas que repousam sobre os justos


  O salmo 37, escrito por Davi, apresenta um belíssimo contraste entre o justo e o ímpio. Tanto no presente, quanto no futuro. 

Ele é como uma bússola num mundo onde o bem e o mal parecem andar juntos; onde a verdade é manipulada; onde a incredulidade é incentivada; onde a impunidade parece recompensada e a justiça, espremida. 

Isso, porque, nesse cenário, pode ser comum a confusão de propósito a ponto de se concluir que não há diferença alguma em ser bom ou mau, em ser de Deus ou incrédulo, em ser santo ou ímpio. 

Caso essa seja a sua dúvida neste instante, caro leitor, eu gostaria de te lembrar os benefícios de ser justo. E esses benefícios foram reunidos no salmo 37. Por quê? Para nosso deleite em viver santo num mundo mal; para viver em gratidão a Deus por dispensar-nos seu cuidado e providência; para nos estimular à busca por maior comunhão com o Pai e, por fim, para avivar nossa esperança de um futuro onde a paz e a justiça, onde a glória da santidade e da graça de Deus reinarão triunfantes. E nesse futuro glorioso, o salmo frisa muito bem, o ímpio não existirá. 

Antes, contudo, preciso resguardar, à luz da Bíblia, o significado da expressão justo, para que você não crie falsas expectativas em relação às promessas abaixo listadas.

O justo é a pessoa que creu em Jesus para remissão de seus pecados, para resgate de sua alma da condenação eterna e que, por isso, foi declarado justo – isto é, ele não tem mais nenhuma dívida perante à lei de Deus – e agora goza de comunhão com Deus ( não é mais inimigo!), está debaixo da Graça de Cristo e é guiado pelo Espírito Santo neste mundo, em meio à dor e angústia, a sofrimentos e fraquezas, até à volta de Jesus. 

Vamos às promessas. O justo:

1 – Habitará na terra e terá alimento, sustento da vida. Ele pode confiar seus dias a Deus;

2 – Tem seus planos aprovados por Deus; vive com esperança.

3 – Tem a providência divina ao seu lado; sabe que não é largado à própria sorte num mundo cruel;

4 – É justificado; está em paz com Deus e é objeto de Seu doce amor; 

5 – É sustentado por Deus; jamais sucumbirá ao pecado e às provações;

6 – É conhecido (cuidado por Deus); sua vida é alvo de atenção constante por parte de Deus;

7 – Tem o Senhor como escudo nos dias de provação; não será vítima de uma provação maior que que pode suportar;

8 – Não fica prostrado quando cai em pecado, mas é reerguido pelo Senhor e recomeça; tem a seu dispor o perdão e a misericórdia de Deus;

9 – É guiado pela sabedoria; tem sua mente e coração moldados pelo temor de Deus;

10 – Tem a lei de Deus em seu coração; forma sua visão de mundo a partir da vontade de Deus e de seus valores eternos;

11 – Não está debaixo de condenação; vive a alegria de ter seus pecados perdoados e a certeza de que novos céus e nova terra o aguardam e a expectativa de que toda essa vida terá fim e que habitará junto com Abraão, Isaque e Jacó num mundo iluminado pela glória de Deus;

12 – Será exaltado na consumação dos séculos; a vergonha, a dor, o sofrimento e a humilhação serão substituídas por eterna alegria e peso de Glória; 

13 – Tem o senhor como fortaleza no dia da angústia; sabe que nunca estará sozinho nos dias maus;

14 – Será salvo;

POR QUE ANDAIS TÃO ANSIOSOS?


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A nossa sociedade parece ter potencializado sua rendição à ansiedade. Isso, em parte, porque diariamente recebemos “inputs”: performance no trabalho, bom salário, casa próp Leia mais deste post

Justificação pela fé: o legado da Reforma Protestante. Pra quem?


FIDE

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:1-2)

O assunto da justificação pela fé é um dos pilares do cristianismo, sem o qual a fé cristã não pode se sustentar. Ela é o coração do Evangelho. A descoberta desse assunto, escondido por séculos de domínio da teologia católica a respeito da salvação, selou a Reforma Protestante com Lutero e trouxe à luz preciosas verdades a respeito da salvação do pecador, sem as quais nenhuma esperança de reconciliação com Deus vinga. Olhando para a história, a justificação pelas obras apenas gerou medo, insegurança e religiosidade nos crentes.

Contudo, apesar de quase 500 anos após Lutero pendurar suas 95 teses na porta da igreja de Winttenberg, esse assunto ainda soa muito estranho aos cristãos de nossa era, de forma que alguns chegam a rejeitar a justificação pela fé somente. Leia mais deste post

Entrevista com Martyn Lloyd-Jones em 1970


Nesta, o Dr. Jones faz importantes e bíblicas afirmações sobre o homem, sobre seu estado e necessidade de se reconciliar com Deus. Ele também faz um contraste entre a visão bíblica e a visão secular do homem, mostrando os resultados ruins da predominância desta em detrimento daquela.

Assista!

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